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Sejam bem-vindos a mais uma mega-edição da VERSUS Magazine, o nosso nº 13 que assinala o regresso – ou talvez devesse dizer, recomeço – dos Ava Inferi. Além de uma das mais extensas cover stories de que há memória recolhida em exclusivo da boca de Rune Eriksen, há que salientar também nesta edição a detalhada conversa com Warlord Nygard dos Turisas (que vão estar por cá em Maio), bem como as entrevistas com os The Project Hate MCMXCIX, os Heavenwood, e vários outros nomes sonantes. Estes últimos são também mote para um dos passatempos a decorrer nesta edição, a par de um outro referente aos Turisas. Neste número registamos também um incremento sem precedentes no número de reportagens ao vivo, e dedicamos a rubrica retroVERSUS a duas personagens de relevo que abandonaram em definitivo os palcos da vida: um recentemente – Gary Moore –, e outro há exactamente vinte anos – Dead (Mayhem). Enviem-nos os vossos comentários para versusmagazinept@gmail.com. Todas as criticas são bem-vindas. Ernesto Martins


Grog

Novo álbum «Scooping the Cranial Insides»

O terceiro disco de longa duração dos Grog vai chamar-se «Scooping the Cranial Insides» e vai ser editado pela Murder Records, sediada na Holanda, com data prevista de lançamento agendada para o mês de Abril. Este registo vai incluir 13 temas de deathgrind brutal como nunca foram ouvidos em terras nacionais. Com este novo lançamento os Grog prometem levar a devastação até às vossas almas metálicas. Aqui segue o alinhamento dos temas que compõem o novo álbum: 1 - Toia Mai (Haka Powhiri) 2 - Beyond The Freakish Scene 3 - Split 3 To Share 4 - Sphincterized (Materialized in Shit) 5 - Hanged By The Cojones 6 - Acephalus Meatgrind Orgy Hibernation 7 - Stream Of Psychopathic Devourment 8 - Sicko 9 - Anal Core 10 - Re-Reborn Monstrosity 11 - The Misanthropes (Tortured, Decayed & Cursed) 12 - Ravenous Loathing 13 - 10 Cummandments

Iron Maiden

Nova coletânea «From Fear to Eternity: The Best of 1990-2010»

Os Iron Maiden, através de seu site oficial, anunciaram o lançamento da coletânea «From Fear to Eternity: The Best of 1990-2010», que terá 23 músicas do período entre os álbuns «No Prayer for the Dying» (1990) e «The Final Frontier» (2010). “From Fear to Eternity” será lançado em CD duplo, mas, segundo a nota do manager da banda, Rod Smallwood, será vendido pelo preço de um CD simples. A compilação também terá uma edição limitada em Vinil Picture-Disc triplo! “From Fear to Eternity: The Best of 1990-2010” chega às lojas no próximo dia 23 de Maio.

Rhapsody of Fire

Novo álbum «From Chaos to Eternity»

Os Rhapsody of Fire vão lançar o próximo álbum, «From Chaos to Eternity», no dia 17 de Junho pela Nuclear Blast Records. O trabalho é baseado na saga do álbum «Legendary Tales» de 1997. Um comentário da banda indica que: “Será o fim de uma era histórica, onde a saga irá acabar de uma vez por todas, pela última vez vamos ouvir Sir Christopher Lee a narrar tudo o começou em 1997. Estamos tristes, mas também sabemos que, por esse motivo, este álbum ficará na história da banda”. A capa do álbum «From Chaos to Eternity», foi criada por Felipe Machado Franco.


Turisas

Regresso a Portugal

Numa altura em que a tecnologia e a comunicação aproximam os seres humanos, a sua natureza faz com que a procura por novos horizontes, mesmo que ficcionais e baseados no passado, se torne parte do processo de evolução. É por isso que os apreciadores de música vão sempre querer encontrar a próxima proposta, mais excêntrica e excitante que a última. E, de preferência, que lhes estimule a imaginação e transcenda o mundano. É precisamente aqui que entram os finlandeses Turisas e a sua capacidade para fazer o ouvinte viajar até ao passado através da criação da banda-sonora perfeita para um tempo em que ainda havia guerreiros a vaguear pela terra, em que os poetas cantavam as suas façanhas nas batalhas e em que mitos e factos se confundiam. Contadores de histórias por excelência, Mathias “Warlord” Nygård e os seus companheiros de luta vão estar de volta a solo nacional, dois anos depois de terem surpreendido o público nacional com uma actuação explosiva como “suporte” aos Dragonforce. Desta vez em nome próprio e em data dupla; no dia 24 de Maio no Cine-Teatro de Corroios e, no dia 25, na Sala 1 do Hard Club.

3ª Edição do Festival Vagos Open Air São dois nomes lendários, clássicos e incontornáveis no espectro da

música de peso, que completam o cartaz da III Edição do Festival Vagos Open Air, a acontecer nos dias 5 e 6 de Agosto, na Lagoa de Calvão, em Vagos. Os norte-americanos Nevermore e os britânicos Anathema juntam-se assim aos já anunciados Opeth, Morbid Angel, Tiamat, Ihsahn, Kalmah e Essence e ao contingente nacional formado pelos We Are The Damned, Crushing Sun, Revolution Within e Malevolence. Liderados pela voz inimitável do emblemático Warrel Dane, os Nevermore vão finalmente concretizar um há muito aguardado regresso a Portugal, depois de uma ausência demasiado prolongada dos palcos nacionais. Por seu lado, os Anathema, presença assídua e muito requisitada por cá, vão voltar a encantar – desta vez num palco maior e com um alinhamento diferente – graças à força das suas sensibilidades melódica e melancólica, após terem assinado duas actuações hipnotizantes em Novembro do ano passado. Se dúvidas restassem, aqui estão mais duas provas irrefutáveis de que o Vagos Open Air é um ponto de paragem obrigatório para quem procura qualidade na música que ouve e vê. Os bilhetes custam 30,00 euros (diário) e 50,00 euros (passe dois dias) à venda nos locais habituais. À venda está ainda uma primeira edição especial de 500 passes que inclui oferta de t-shirt oficial do festival.

Death Angel:

documentário comemorativo em 2012

A banda americana de thrash metal Death Angel está a preparar um documentário que será lançado em 2012. Intitulado «A Thrashumentary», o filme terá a direcção de Tommy Jones (que já trabalhou com o Soilwork e o Kataklysm) e comemorará os 30 anos da banda. O lançamento traz cenas do grupo ao vivo e entrevistas no estilo documentário, relatando a história da banda. A filmagem foi feita durante a tour do álbum «Relentless Retribution» (2010).


Kenosis Records edita EP dos My Deception A Kenosis Records tem o prazer de anunciar o lançamento do EP dos My Deception «The Age of no Devotion». Encontra-se disponível para compra por via digital no CDBABY [http://www. cdbaby.com/cd/mydeception/from/viglinkonline] ou em formato físico através do mail kenosisrecords.sales@gmail.com pelo valor de 5€ [portes normais] ou 6€ [registado]. Para mais informações visitem o Facebook e Myspace oficial da editora em: - www.facebook.com/KenosisRecords - www.myspace.com/kenosisrecords

Medo

Com novo album na mira do mercado

Os caldenses Medo, são uma banda de black metal experimental e estão prestes a lançar o seu segundo álbum intitulado «Matéria Negra». Mesmo não existindo ainda uma data concreta, sabe-se apenas que terá o carimbo da prestigiada War Productions. Por isso amantes do black metal estejam atentos!!!!!

Slipknot no Sonisphere da Finlândia Para os que pensavam que os Slipknot iam “acabar” aqui vem a confirmação que estão para continuar e em força. Os Slipknot foram confirmados como os headliner’s do festival Sonisphere na Finlândia. O festival vai ser realizado em Helsinquia no dia 2 de Julho. Outras bandas confirmadas são os Mastodon, In Flames, Opeth, os finlandeses Sonata Arctica e Stam1na. Mais bandas serão anunciadas em breve.

The Last of Them

Alteração no line-up

A banda aveirense The Last of Them sofreu recentemente uma alteração no seu line-up. Rui Pereira (baixo) e Hugo Pereira (sintetizadores) abandonaram a banda devido a divergências musicais. Para ocupar o lugar de baixista entrou João Ferreira (Stigma Sphere). De momento os The Last of Them encontram-se a preparar novos temas com vista a lançar um novo trabalho durante este ano, trabalho este ainda sem formato definido.

Dio

Tributo com Rudy Sarzo, Simon Wright e Ripper Owens Os tributos ao “Metal God” Ronnie James Dio não param. Os membros da última banda solo de Dio anunciaram a formação dos Dio Disciples. Rudy Sarzo (baixo), Simon Wright (bateria), Craig Goldy (guitarra) e Scott Warren (teclados) juntamente com os vocalistas Tim “Ripper” Owens e Toby Jepson estão a preparar alguns concertos juntos de modo a que a musica de Dio nunca seja esquecida. Para já estão a ser preparadas algumas datas para a Europa, mas não estão postos de parte concertos pelo resto do mundo.


A destruição de tudo o que é sagrado Sobre eles alguém disse um dia que “podem soar como muitas outras bandas, mas nenhuma outra soa como os The Project Hate”; uma verdade que é agora tanto mais evidente com a entrada da vocalista portuguesa Ruby Roque, que por si só faz do recém-lançado «Bleeding the New Apocalypse (Cum Victriciis in Manibus Armis)», o início de uma nova era na carreira de treze anos desta formação sueca. Para nos falar sobre este oitavo álbum de originais chegamos à fala com o controverso e visionário líder Lord K. Philipson, e também não resistimos a trocar algumas palavras em privado com a sua nova menina-prodígio.


“Se os fãs não gostam, paciência! Eu não faço música para vós; faço música para mim”(Lord K. Philipson) Primeiro que tudo, parabéns pelo novo álbum. É realmente magnífico! E gostaria de começar pelo que parece ser a grande novidade deste disco: a vocalista Ruby Roque. Como é que a descobriste, e como é que ela entrou para a equipa dos The Project Hate (TPH)? Lord K. Philipson: Obrigado pelo elogio. Fico sempre grato quando as pessoas compreendem A Dominação. Quanto à Ruby, ouvi-a primeiro nos Witchbreed e lembro-me que fiquei sem palavras. Decidi depois entrevistá-la para o meu webzine Global Domination (www.globaldomination.se), e descobri que, por detrás daquela excelente voz, estava também uma rapariga muito fixe. Isso levou-me a pensar em usá-la nos TPH como convidada, mas eventualmente esse plano acabaria por dar lugar a algo de maiores proporções. Reconheci que precisava de alguém como ela mas não apenas como vocalista convidada. Senti que já tínhamos feito aquilo que era possível fazer com a voz da Jo [Jonna Enckell]. Agora, com a Ruby na banda, temos finalmente uma rapariga que consegue fazer de tudo com a voz. É a pessoa certa para dar continuidade à visão que tenho para os TPH. Por isso estou muito satisfeito por tê-la connosco, e espero que ela fique enquanto a banda durar. A Ruby é mesmo fenomenal e por isso merece estar nos TPH. A Ruby é muito diferente de ambas as vocalistas que passaram pelos TPH. Agora, em lugar de teres uma voz angelical a fazer dueto com um vozeirão gutural, tens duas vozes igualmente poderosas, cada uma à sua maneira. Era esta mudança radical que tinhas em mente quando decidiste contratar a Ruby? Foi exactamente isso. Acho que me cansei das vozes femininas muito suaves. As vocalistas anteriores só eram capazes de cantar daquela maneira, e nesta fase eu precisava de algo mais para completar a visão que tenho em mente para os “novos” TPH. E esse algo era a Ruby – digo-o muito a sério. Ela é mesmo capaz de tudo. Esta foi a sua primeira gravação com os TPH e o resultado ultrapassou as minhas melhores expectativas. Já estou ansioso para começar a trabalhar no próximo álbum onde conto vir a tirar ainda mais partido de toda a versatilidade da Ruby.


Os fãs mais antigos, já muito habituados às vozes de Jonna Enckell e Mia Stahl, é que podem ficar desapontados com esta mudança. O que tens a dizer sobre isto? Ouçam os discos mais antigos que também são excelentes. Nós é que não podemos voltar a fazer o que já fizemos. Eu preciso de estar sempre em evolução; sempre a aperfeiçoar o som dos TPH. Ao fim de seis álbuns com o mesmo tipo de vozes chegou o tempo de mudar alguma coisa nas vozes femininas. Se os fãs não gostam, paciência! Eu não faço música para vós; faço música para mim. E não me estou a referir a ti em particular; obviamente já percebi que entendes o que estamos para aqui a fazer. Gostava de saber se compuseste a totalidade ou parte deste material já com a voz da Ruby em mente? Não, nunca escrevo música a pensar nas vozes; isso vem depois. Componho música que se basta a si própria, mesmo sem as vozes adicionadas. É esse sempre o meu objectivo. Depois de compor a música para este álbum senti que precisava de qualquer coisa mais para lhe fazer justiça. A Ruby foi a resposta para essas necessidades. Claro que o Jörgen [Sandström, voz] também tem aqui os seus créditos, mas esse eu nem sequer preciso de mencionar – ele é sempre o nº 1 em tudo o que faz. A música dos TPH é extremamente rica e elaborada. Compor estes longos temas deve ser um trabalho brutal. Fala-me um pouco da tua maneira de fazer música. Escrever e gravar música para os TPH não é tarefa fácil. Já o disse um milhão de vezes e repito: não deve haver por aí gente que trabalhe a sua música com tanto afinco como eu. Dizer que dedico uma quantidade maluca de horas/dias/semanas a aperfeiçoar o que ouves nos discos não chega para te transmitir o trabalho que tenho. Quando para a maior das pessoas uma canção já está na fase final do processo de composição, para mim ainda só está 10% completa. Compor é, para mim, um processo extremamente exigente; mas é assim que eu gosto e por isso acaba por ser uma coisa fantástica. Há muita coisa no que fazemos que exige do ouvinte uma atenção total. Se te deixares absorver pelo álbum sem hesitar, descobrirás que a música é incrivelmente compensadora. Se isso não acontecer, é porque és surdo. Há dias ouvi alguém afirmar que somos uma das piores bandas “Pro-Tooled”, o que para mim é não só divertido como um elogio, tendo em consideração que nem usamos Pro-Tools* nem “limpamos” muito o que gravamos. O que faço na realidade é tocar o melhor que sei, usando o melhor equipamento disponível. No fim de gravar não preciso de fazer batota no som – por exemplo, para fazer soar a guitarra mais coesa ou para “limpar” alguma coisa. Nunca gostei de trabalhar assim e tenho orgulho no que faço. Se tiver duas secções duma canção com o mesmo riff, nunca faço copy/paste. Toco o riff duas vezes – e faço-o pelo menos com quatro guitarras. Trata-se de satisfação e orgulho pessoal. É um trabalho doido mas eu adoro o que faço. [*NR: Pro-Tools é a designação de um conjunto de ferramentas profissionais de software usadas na gravação e edição de áudio e vídeo] À semelhança dos álbuns anteriores, «Bleeding… » é também pautado por valores anti-cristãos. Fazes isto apenas por gozo, ou porque acreditas que o Cristianismo é de facto uma força nociva no mundo? Digamos apenas que não nos irás ver tão cedo à volta de Jesus. Não seremos com certeza amigos de bebedeira. Para alguns de nós, as convicções pessoais desempenham um papel muito importante nas letras deste álbum. Já pensaste alguma vez em estender este ódio a outras religiões, em lugar de te concentrares apenas no Cristianismo? Todas as religiões devem ser destruídas.


Das tuas declarações que tenho lido sobre os despedimentos da Jonna Enckell e do Anders Bertilsson (guit), fiquei com a ideia de que deves ser um tipo muito exigente na relação profissional que manténs com os teus músicos. É verdade? Não sou um tipo difícil de agradar, muito pelo contrário. Mas reconheço que tenho uma visão muito concreta e definida sobre o que pretendo atingir com os TPH, e não tenho medo de a expor com frontalidade. Assim, quem não mostra dedicação, simplesmente não tem nada a ver com esta banda. Enviar um riff por email de seis em seis meses não se qualifica como mostra de dedicação, e quem o faz não pode continuar nos TPH. Outras vezes são os próprios músicos que, com o passar do tempo, perdem o interesse na música que fazemos, e por isso deixam de contribuir. Foi o que aconteceu com o “Mazza” (Petter Freed, guit). Nesse caso também têm que sair ou são despedidos. Mas não mantenho qualquer animosidade em relação aos músicos que passaram pelos TPH. Alguns saíram, outros fui eu que os despedi. Agora consegui, finalmente, reunir a minha equipa de sonho nos TPH e espero mantê-la assim daqui para a frente. Em algumas das tuas entrevistas notei que passas uma imagem de um tipo muito convencido dos seus grandes talentos; do quanto és melhor compositor do que outros, etc. Na vida real és mesmo assim? Não, eu nunca disse que era melhor do que outros. No entanto sei que sou um músico formidável dentro daquilo que faço – a modéstia pode ser fodida! E sim, o que lês é exactamente o que eu sou. Sou um filho da mãe adorável, com 1.90m de altura, e com talento a rodos que até me sai pelo cu. Eu sei que dizer isto pode ser irritante para alguns leitores. A maior parte das pessoas não suporta indivíduos com confiança. Mas eu tenho razões de sobra para ter confiança em mim próprio – basta ouvires aquilo que faço. Podem adorar-me ou odiar-me, só não podem negar que aquilo que fazemos é único. Apesar de tudo, eu amo-vos a todos. Para terminar, porque é que os TPH não tocam ao vivo? Simplesmente não o fazemos desde 2003, e não esperamos vir a fazê-lo no futuro. Estamos destinados a ser descobertos de outras formas.

“Trabalhar com o Lord K tem sido muito fácil. De tudo o que fiz e compus, ele não modificou nada” (Ruby Roque)

Ruby Roque: a voz tuga que comanda os The Project Hate MCMXCIX Fala-nos um pouco de como tem sido a tua experiência até agora nos TPH. Sentes-te já perfeitamente integrada? O que é que mudou na tua vida pessoal? Ruby Roque: Tem sido desde o início um processo muito natural para mim. Fui recebida na banda com muito carinho e entusiasmo, principalmente pelo Lord K que tem sido como um irmão; tem-me apoiado em tudo. No início fiquei assustada com a responsabilidade que me foi depositada cegamente. O Lord K deixou-me compor as melodias de voz e escrever as letras que cantei; foi algo que sempre quis fazer, e com os TPH tive essa oportunidade. A minha vida pessoal tem sido a mesma de sempre, compondo e escrevendo. Saíste definitivamente dos Witchbreed, ou achas que será possível conciliar as duas bandas? Sim, saí dos Witchbreed e foi em definitivo. Poderia conciliar as duas bandas mas simplesmente tive de parar por uns meses e seria injusto fazer os


Witchbreed ficarem parados por minha causa. Nem sequer coloquei a hipótese deles esperarem. Vocalistas há muitos e assim eles podem actuar e fazer o que eles fazem de melhor! O Lord K é um tipo muito exigente do ponto de vista profissional. Como é que tem sido trabalhar com ele? Sabendo que ele despediu as duas vocalistas anteriores isso não te faz sentir um pouco insegura? Trabalhar com o K tem sido muito fácil. De tudo o que fiz e compus, ele não modificou nada. Damos-mos muito bem a nível profissional e pessoal e falamos todos os dias. Tem sido uma relação de carinho mútuo. Eu insegura? Nunca! Apesar do K ter dito publicamente que quer que eu fique com os TPH até a banda acabar, ninguém está preso. A vida dá muitas voltas e se o K optasse por outra vocalista eu só teria de o respeitar. TPH é o seu projecto e ele é que é o Boss! Como é estar, pela primeira vez, numa banda onde não és a única vocalista? Sinceramente, a mim é-me igual. Com músicas de 10 minutos tenho mais que espaço para cantar. A maior parte das críticas que já li ao novo álbum, são unânimes em reconhecer a tua voz como o factor principal de diferenciação entre este disco e os anteriores dos TPH. Por conseguinte, a tua presença poderá ser o factor que ditará o sucesso/insucesso deste álbum. O que pensas disto? Penso que é normal alguns gostarem e outros odiarem. Foi uma mudança muito radical, mas o que as pessoas têm que entender é que é a visão do K. Quanto ao sucesso e insucesso, é uma estupidez até porque o álbum está repleto de momentos únicos de guitarra, baixo, bateria e com os growls que só o Jörgen consegue fazer. Logo, ditar o futuro de um álbum baseado num só elemento é um erro crasso. Entrevista: Ernesto Martins


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Sinfonia Nórdica

A história iniciada em «The Varangian Way» tem o seu epílogo em «Stand Up and Fight», um álbum conceptual, rico e complexo. Estivemos à conversa com Mathias “Warlord” Nygard que nos contou um pouco sobre as gravações, orquestra e todo o argumento por trás deste que será, certamente, um dos grandes lançamentos de 2011. Primeiro que tudo, parabéns pelo vosso mais recente trabalho, «Stand Up and Fight» (SUaF), uma obra-prima! E falando nisso, consideras este álbum uma obra-prima? “Warlord” Nygard: Obrigado! Eu acho que cabe ao ouvinte decidir. Consideras ser este o vosso melhor álbum? Como artista, eu acho que tu tens que considerar o teu mais recente como sendo o melhor, caso contrário, fazer algo novo não faria muito sentido. Mas, no nosso caso, todos os álbuns foram ligeiramente diferentes, por isso é muito difícil comparar. A produção é melhor, a musicalidade é melhor, as composições e arranjos são melhores – tecnicamente, mas o modo como será comparado com os anteriores trabalhos cabe, mais uma vez, aos ouvintes. Revisitando um pouco o passado, vocês passaram por alguns momentos duros. Ainda têm notícias de Georg Laakso? Estamos em contacto de vez em quando. Paralisia e amputação não são coisas que tendam a mudar;

claro que ainda está numa cadeira de rodas. Li sobre o desaparecimento de Janne Mäkinen. O que aconteceu? Foi em Janeiro de 2008, depois de um concerto na Holanda quando estávamos de regresso a casa a partir de Amsterdão. Como tivemos um tempo livre fomos até à cidade e decidimos reunir-nos, novamente, no aeroporto antes do voo. Apareceram todos excepto o Lisko, mas como ele é uma pessoa adulta, regressámos a casa e decidimos que ele teria de se arranjar sozinho. Isto pode parecer estranho, mas digo-te, conhecendo a pessoa, isto era muito normal. Ele não era a pessoa mais confiável e mais fácil de trabalhar. De qualquer maneira, estávamos prestes a iniciar a tournée Norte-Americana em poucas semanas e ainda precisávamos de resolver algumas situações pontuais, como vistos etc. Contudo, mesmo depois de várias semanas não conseguíamos entrar em contacto com o Lisko. Ninguém sabia se ele já tinha regressado, se ainda estava em Amesterdão ou noutro lugar qualquer. Como o tempo começava a escassear tivemos que o deixar pois não podíamos continuar mais com


“O enfase dos temas centra-se, não só em contar uma história factual, mas em contar algo com significado envolto nessa história..”

este tipo de jogos. Mais tarde naquele ano – acho que era verão ou algo assim – recebemos um sms a dizer que estava de volta à Finlândia, etc, mas ele deixou tudo que tinha onde morava e mudou-se para uma cidade completamente diferente! Isto foi tudo o que houve entre nós. Não há realmente nenhuma mágoa mas já não temos mais nada em comum, se é que me entendes… Chega do passado! Admiro bastante aquelas bandas que conseguem contar uma história ou, poderemos chamar-lhe, um álbum conceptual. No entanto, vocês já vêm contando uma história desde o álbum anterior. SUAF continua onde «The Varangian Way» nos deixou, qual a história que nos é contada? «The Varangian Way» (TVW) começa na Europa do Norte, no Século XI, e conta a viagem desses que são chamados Varangians, até ao Império Bizantino. O SUAF “agarra” a história onde o TVW termina, em Constatinopla, onde o nosso viajante se une à Varangian Guard – uma unidade mercenária estrangeira integrante do exercito bizantino. SUAF segue as suas aventuras à volta das regiões Bizantinas. A história que começou em TVW foi sempre maior, de maneira que não cabia num álbum só. Já em 2005-2006 ficou decidido que a história teria continuidade de alguma forma. Mas como eu não queria que o SUAF fosse uma sequela directa, o argumento da história não é tão directo e linear como em TVW, tendo sido colocado também al-

gum ênfase numa perspectiva que permitisse associar as canções ao mundo em que vivemos, em vez de, simplesmente, contar velhas histórias. Assim, o SUAF tem o mesmo argumento, mas existem muito mais “camadas” históricas e temporais decorrendo ao mesmo tempo. Não tenho a certeza se a forma como o álbum está estruturado é a melhor forma de contar tais histórias, talvez devesse escrever a história em prosa. Mas como te digo, é como “chover no molhado, a sério, prefiro olhar para a frente e escrever qualquer coisa nova em vez de estar a re-arranjar algo do passado. Onde arranjas a inspiração? Deves ler/estudar muito, certo? Eu tiro tempo para fazer muita pesquisa antes de escrever. Queria que ficasse como uma novela histórica, onde – apesar das personagens centrais e acontecimentos possam ser ficção – o envolvimento não é, e portanto, esta história de ficção até PODE, ao menos, ter acontecido. Como já tinha feito muita pesquisa sobre a história do Império Bizantino no Século XI e tudo relacionado com os Varangians para o álbum anterior, não gastei assim tanto tempo a pesquisar para o SUAF. Em vez disso, li muito material diferente, por exemplo, para os temas que lidam com a decadência e queda das grandes estruturas que os rodeavam. Na realidade estava a pensar nos últimos dias da União Soviética e na queda do muro de Berlim, em vez de estar a pensar no saque de Constatinopla. Ou, à medida que a história se desenrolava e lidava com a Va-


rangian Guard li diários sobre a Legião Estrangeira, Bosnia, Serra Leoa, etc. só para perceber e sentir todas estas estranhas situações. O enfase dos temas centra-se, não só em contar uma história factual, mas em contar algo com significado envolto nessa história. As pessoas, sentimentos e significados presentes no Império Bizantino do Século XI não são assim tão diferentes daqueles em que vivemos actualmente. Todos os músicos da banda têm várias influências e gostos musicais. Alguns de nós têm background clássico, outros são auto-didactas. A playlist no autocarro pode ir de rock clássico até ao grindcore extremo, rap, pop ou até musicais ou outra coisa qualquer, a sério. Pessoalmente, eu diria que os meu gostos musicais vêm dos outros tipos de música. Pode ser um bom filme, uma viagem a um museu ou um pensamento enquanto estou sentado no autocarro. Esta história acabou ou há planos para um terceiro álbum conceptual? A história acaba no último tema, “The Bosphorus freezes over”, mas não significa que tudo o que esteja relacionado com isso tenha sido dito. No entanto, não me apetece continuar mais com esta história, mas sim fazer outra coisa diferente. Eu ainda nem sei se o formato do álbum vai continuar o mesmo; se continua a fazer sentido escrever música que abranja vários temas. Eu quero acreditar que sim, e estou certo – conhecendo-me como me conheço – que o meu fascínio por “grandes puzzles” e projectos não vai desaparecer, portanto qualquer que seja o assunto que vá escrever no futuro, tenho a certeza que vai ser de alguma maneira conceptual, de uma maneira ou doutra. Musicalmente falando, este é um álbum muito rico, eu diria mesmo que é o derradeiro musical heavy metal com todas aquelas camadas orquestrais (cordas e metais) e harmonias vocais (coros) que envolvem os temas numa poderosa aura de dramatismo. Como foi compor estes temas? Claro que é um grande desafio. Como existem tantas camadas e o processo é muito longo, precisas de ter uma visão muito forte e exacta desde o princípio, e seres capaz de a ver mesmo que não exista nada. Com seis (grandes) músicos a tocar em conjunto, como é ter a banda a trabalhar na composição dos temas? Isto é trabalho para um homem só ou toda a gente contribui? Para ser honesto, é um trabalho de um homem só. Penso que não seria possível fazer o nosso tipo de música durante uma jam session com seis músicos. Requer alguém que seja O responsável e nesta banda sou eu. Em SUAF, escrevi os temas sozinho, com excepção de um em que o Olli colabora. Mas quando gravamos é óbvio

que todos trazem a sua contribuição. Por exemplo, com as guitarras, os detalhes começam a tomar forma quando o Jussi e eu nos sentamos e pensamos em como lhes dar “forma”. Eu tenho uma ideia bastante clara do que quero mas, claro, toda a gente é livre de trazer as suas ideias. Tu compões primeiro para a banda e depois a orquestra ou és como Mozart que já tinha a melodia toda pensada? Quando pensas num tema já estás a ver como vai ficar na totalidade? Eu acho que o problema com a maioria das bandas de metal sinfónico é: tu consegues perceber que o caminho tomado foi o de compor para a banda primeiro e depois alguém adiciona a orquestra mais tarde. No nosso caso, é tudo composto ao mesmo tempo e em conjunto, eu escrevo a parte orquestrada e ao mesmo tempo penso na linha de baixo. Usualmente, quando componho não preciso de ouvir os temas – posso sentar-me ao piano e ainda ouvir como ela irá dividir-se e ser instrumentada na minha cabeça. Normalmente, tenho uma ideia bem clara de tudo quando componho, mas, claro, existem sempre detalhes que têm de ser arranjados mais tarde. Às vezes tenho diferentes ideias sobre o mesmo tema ou secção e quando assim é, adio a decisão para mais tarde depois de perceber como as coisas à volta tomam forma. Quem está encarregue de colocar toda a música no papel? Como é trabalhar e gravar com uma orquestra e coro? Vocês gravam tudo junto no mesmo estúdio? No SUAF trabalhei com Perttu Vänskä – orquestrador e irmão do Olli – que foi muito importante uma vez que nunca teria tempo para escrever to-


“Usamos uma secção com 12 instrumentos de cordas e várias configurações de “metais”. Sabíamos que o material seria muito desafiante, e, basicamente, escolhemos os melhores músicos profissionais.”

dos os detalhes. Geralmente é uma pessoa que copia a música que está encarregue de a transcrever para a pauta e assegurar que a articulação é feita correctamente. Quando a partitura estiver pronta e tão apurada quanto possível, torna-se fácil gravá-la com estes excelentes músicos que temos. Usamos uma secção com 12 instrumentos de cordas e várias configurações de “metais”. Sabíamos que o material seria muito desafiante, e, basicamente, escolhemos os melhores músicos profissionais. Tudo isto foi feito em sessões separadas. Também construímos um coro clássico para juntar ao nosso coro pessoal – Turisas-choir – que são, basicamente, os restantes elementos da banda mais todos os amigos que conseguimos arranjar. No tema “End of an Empire” tivemos a participação de um pianista de Jazz finlandês, o Iiro Rantala, que nos ajudou no Grand Piano. No último verão tivemos uma colaboração com ele num programa de televisão, que foi para o ar na TV finlandesa e ele tocou, precisamente, as partes de piano do tema “End of an Empire”, que foi um grande desafio mesmo para ele! (risos) Alguma vez pensaste em realizar um musical ou tocar com a banda e uma orquestra? (Estou a pensar na Trans-Siberian Orchestra!) Tenho que admitir que não estou familiarizado com o trabalho deles, mas a ideia de levar outros elementos ao palco para tocar juntamente com a banda é algo que está sempre presente desde o princípio. Perguntam-me muitas vezes se não estou interessado em fazer músicas para filmes, mas penso que das duas, prefiro fazer música para ser interpretada nos palcos.

O meu tema favorito do álbum é “End of an Empire”, penso que resume tudo o que foi dito – ÉPICO (à medida que escrevo a entrevista já é a 6ª vez que o ouço!) Conta-nos mais um pouco acerca deste tema. A propósito, grande orquestração e coro! No princípio, a voz e o piano lembram-me Savatage! É sem sombra de dúvida o tema mais musical do álbum. No nosso argumento, significa a revolução de 1042 e o fim da dinastia Macedónia em Constantinopla. É sobre pontos de ruptura, o momento da mudança inevitável, mas ainda não era reconhecido fora dos gabinetes e escritórios daqueles que estão no poder. Por exemplo, isto é mais típico hoje em dia se vires o que se passa no Norte de África. A minha última questão: diz aos nossos leitores o que podem esperar mais dos Turisas. Planeiam visitar Portugal brevemente? Estou muito contente por dizer que sim! No dia 24 de Maio vamos estar no Cine Teatro Corroios, em Lisboa, e no dia seguinte no Hard Club, no Porto. Os bilhetes podem ser adquiridos em www.ticketline.pt Vemo-nos lá! Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro


Da redenção ao abismo?

«Abyss Masterpiece» – o quarto álbum de originais dos Heavenwood – destaca-se pela combinação (feliz) entre o som característico da banda – a recordar em «Redemption», o álbum anterior, lançado depois de um longo interregno – e uma sonoridade sinfónica decorrente do contributo dado por um convidado vindo do universo da música clássica. O seu lançamento, em Março, confere valor adicional ao interesse que a banda deu, neste álbum, à Marquesa de Alorna, ilustre poetisa e indomável mulher, que abrilhantou o Portugal do séc. XVIII. Foi Ricardo Dias, guitarrista da banda e um dos fundadores do projecto, que aceitou o desafio de falar à Versus Magazine sobre este álbum tão especial.


Começo por vos felicitar pelo «Abyss Masterpiece», que é mesmo um excelente álbum, na sequência de «Redemption», ambos belos exemplos do contributo português para o prestígio do metal. «Redemption» assinala uma espécie de ressurreição dos Heavenwood. Qual é a sensação de voltar em grande depois de um período difícil? Ricardo Dias: É uma sensação doce, fruto de muito trabalho, dedicação, estratégia, metodologia, saudável ambição e, claro, um cheirinho de sorte, mas... “a sorte faz-se“. Os anos em que estivemos em stand-by serviram para matutar e amadurecer algumas ideias e conceitos quanto à direcção musical a seguir e elaborar uma fórmula de trabalho musical e de “bastidores“ que nos permitisse, em 2011, chegar a uma editora como a Listenable Records. Sentimos também que os nossos fãs recebem música feita com suor, coração e alma, uma vez que não seguimos modas: muito simplesmente, em cada álbum que compomos, procuramos exprimir a nossa personalidade musical. «Redemption» foi um “comeback” álbum, em que procurámos exorcizar alguns demónios do passado. É que, por mais que tentemos, é difícil expulsar da sonoridade dos Heavenwood a veia mais “roqueira“, embora esta ainda esteja presente no «Abyss Masterpiece». Tentámos acima de tudo concentrar-nos em elaborar um álbum “dark”, no sentido que a estética do Romantismo deu a este termo. E o que vos levou a criar um “abismo” musical no vosso último álbum? Este álbum serviu para provar a nós próprios que conseguiríamos voltar a entrar no mercado internacional, fruto de muito esforço, trabalho, inspiração e uma pitada de sorte. Até à data, sentimos que os nossos objectivos estão a ser atingidos. Não esquecemos o forte apoio que temos recebido – desde o regresso com o álbum anterior – dos velhos e novos fãs da banda, que, sem sombra de dúvida, foram uma razão de peso para continuarmos esta caminhada. Em simultâneo, permitiu-nos exercitar as nossas capacidades, a nível musical e mesmo mental. Por vezes, sentimos que temos de fazer o dobro ou o triplo do esforço, comparativamente a bandas de outros países, tais como a Alemanha ou as nações do Norte da Europa. Em «Abyss Masterpiece», adorei a combinação de riffs de guitarra, bateria, piano, efeitos orquestrais, produzindo atmosferas diferentes nas várias faixas, o que já surgia em “Redemption» e torna a vossa música tão cativante. Quem se responsabilizou pela criação deste universo sonoro tão sui generis? No essencial, a composição dos temas é da minha responsabilidade, em parceria com o Ernesto e o Bruno, que foram chamados a dar a sua opinião. Também estivemos juntos na fase de pré-produção, nos Estúdios 213. Assim, o álbum foi concebido de acordo com as ideias dos três. O Bruno Silva teve um enorme trabalho ao nível da pré-produção em


estúdio, bem como na edição das waves do Dominic. E é claro que a análise das líricas feita em conjunto com o Ernesto também foi um factor decisivo neste processo. Foi esta colaboração, a par e passo, que permitiu definir a personalidade deste quarto álbum dos Heavenwood. Quando concluímos a espinha dorsal, trabalhei cada tema com o Dominic Joutsen, em termos de arranjos orquestrais. Acabámos por fazer “um novo álbum”. Mas valeu a pena, porque foi concebido com honestidade, sinceridade e alma, tendo sempre em conta as metas definidas à partida. É como “sonhar com os pés na terra”. O que vos deu a ideia de convidarem esse compositor? A internet possibilita apanharmos grandes surpresas e grandes desilusões em termos de bandas, músicos ou compositores. Neste caso, tive uma enorme surpresa ao descobrir o Dominic Joutsen, quando pesquisava acerca de orquestradores clássicos que tivessem em comum connosco o gosto pelas obras de Danny Elfman. Trocámos impressões e, mail puxa mail, surgiu o primeiro teste com a “September Blood”. Quando ouvi a parte instrumental, sem a música dos Heavenwood, fiquei surpreso e hiper-motivado perante tamanha sinfonia, mas, ao juntar a nossa música com a composição do Dominic, algo soava mal, estranho. Estava tudo devidamente harmonizado, mas simplesmente soavam cada um para seu lado. Surgiu então a necessidade de criarmos uma linguagem própria, uma espécie de fórmula “Dominwood”, de modo a haver espaço para ambos, uma vez que a informação musical contida nos temas era vasta! Finalmente, conseguimos o tal “click” e, a partir daí, foi possível identificar melhor as nossas formas de composição, de expressão musical e mesmo dramática, pois, quanto a mim, é muito importante que a música exprima o sentimento subjacente às letras. «Abyss Masterpiece» não é um álbum “easy-listening”, mas antes um álbum para se descobrir, ouvir e aprender a gostar… ler e compreender… interiorizar e explorar com as audições. Para mim, o desafio foi esse. Se não, teríamos feito, sem qualquer problema, doze “Morning Glory Clouds”. A “voz de ouro” do Ernesto dá uma alma muito própria à vossa música. Mas, em «Abyss Masterpiece», é ainda de destacar o excelente contraste entre vocais de death metal e vocais limpos, em várias faixas. Por que vos pareceu interessante recorrer tanto a esse efeito neste álbum? É uma característica nossa desde 1996, com o nosso primeiro álbum «Diva». É algo que faz parte de nós, da nossa “imagem de marca”, uma espécie de efeito “two-faces” que sempre existiu na personalidade musical dos Heavenwood. Neste álbum, essa faceta tornou-se ainda mais importante, indo ao encontro do que queríamos exprimir através das letras das canções que dele fazem parte. E, a propósito, também não posso esquecer a maravilhosa colaboração de SfinX, fazendo um belo contraponto com os vocais do Ernesto Guerra. Como surgiu a ideia desta colaboração?


“«Abyss Masterpiece» não é um álbum “easy-listening“, mas antes (…) para se descobrir, ouvir e aprender a gostar… ler e compreender… interiorizar e explorar com as audições” A ideia de convidar a Miriam Sfinx dos RAM-ZET resultou da procura de uma voz feminina capaz de interpretar o poema “Cantarei um dia de saudade” da Marquesa de Alorna. Procurava algo no estilo do que se pode ouvir na “Utopia” dos Goldfrapp. As ofertas dentro do panorama metal eram escassas, nas chamadas “female metal bands”, e a Miriam foi a escolha perfeita para as necessidades. Só ela conseguiria, logo no início do tema, entoar a melodia de uma forma que não é muito vulgar. Houve um momento em que ela tardou a enviar as gravações das vozes de “Leonor”. Nessa altura, tentámos com outra pessoa, mas, apesar de o resultado ter sido satisfatório, infelizmente não correspondia ao que pretendíamos. Caso a Miriam não tivesse podido participar, teríamos certamente desistido do tema. Aconselho-vos vivamente a descobrirem os noruegueses RAM-ZET!!! As minhas faixas favoritas são: “The Arcadia Order”, “Goddess Presiding Over Solitude” e “Leonor”, as duas últimas com letras que são poemas da Marquesa de Alorna. De quem veio a ideia de usar poemas de Alcipe? Por que razão o fizeram? A ideia foi minha. Ao iniciarmos o projecto «Abyss Masterpiece», decidimos ir beber da fonte da poesia lusa, mas sem entrar em clichés. Seria muito fácil ter êxito a “cantar” Florbela Espanca, por exemplo. Tal não se passa com D. Leonor. Aliás, tive enormes dificuldades em encontrar e estudar as obras dela. Consegui comprar uma biografia, para grande espanto da vendedora, que olhou para mim muito admirada pelo meu interesse nas obras da Marquesa de Alorna: “Não é nada vulgar procurarem as suas obras, vamos lá a ver” D. Leonor tem uma história de vida e obras muito interessantes para a época em que viveu. Curiosamente, o título «Abyss Masterpiece» é uma metáfora relacionada com a sua luta nesse abismo, que foi o facto de ter estado encarcerada desde muito jovem até à idade adulta. Todas as suas experiências ao nível de sensações, o seu conceito de amor desde tenra idade sem tão pouco ter vivido os chamados laços familiares, o afecto ou mesmo o amor, uma vez que esteve presa desde os 8 anos, despertaram em mim um enorme interesse pelas suas palavras. Por outro lado, apaixonei-me pela sua rebeldia, pelas palavras azedas contra os falsos moralismos, pela sua luta pela emancipação dos direitos da mulher num Portugal do séc. XVIII completamente monopolizado pelos homens, em termos de literatura ou mesmo cultura. Foram essas restrições que a levaram a criar o pseudónimo “Alcipe”, para que os seus poemas fossem lidos pelo amigo Bocage, na Nova Arcádia (The Arcadia Order). No final, todos os presentes adoraram “os poemas deste jovem rapaz português Alcipe”… ave rara… de nome e de alma. Como aconteceu o contrato com a Listenable Records? Essa e outras editoras contactaram-nos, assim que souberam que estávamos a trabalhar na pré-produção do sucessor de «Redemption», solicitando as demos do novo álbum. Preferimos a Listenable Records a uma editora supostamente superior em termos de nome no mercado. Na fase da vida em que estamos e com a experiência de mercado que já temos, não nos iludimos com fachadas. No final, venceram a paixão e dedicação da Listenable Records e o facto de também terem os pés bem assentes na terra. Sem sombra de dúvida, é uma editora independente com uma fortíssima implantação, em termos de distribuição e promoção ao nível mundial e que tem descoberto enormes talentos, tais como Gojira ou mesmo Textures. E tudo o que solicitámos à Listenable foi devidamente atendido Alguns media internacionais estranharam este casamento entre os Heavenwood e a Listenable Records, uma vez que não somos assim tão extremos quanto as restantes bandas do catálogo. Mas, se analisarmos a questão do um ponto de vista do cartão de visita da label, isso é uma vantagem para os Heavenwood! E quando vamos ter o prazer de vos ouvir ao vivo a apresentar «Abyss Masterpiece»? Quero lá estar e na primeira fila. Obrigado! Há datas a serem negociadas para o restante país, bem como para o estrangeiro, mas para já estamos todos concentrados numa das fases mais importantes num lançamento de um álbum com estas responsabilidades que é a de promover e dar entrevistas para Portugal e todo o mundo. Um forte abraço musical para todos os leitores da excelente Versus Magazine, que tento acompanhar o mais possível. Aconselho todos os interessados a estarem atentos às nossas actividades divulgadas em www.myspace.com/heavenwood ou mesmo a juntarem-se ao nosso grupo de fãs no facebook, que tem feito um enorme e reconhecido trabalho. Entrevista: CSA


Um manual de sobrevivência ou uma catarse musical Chamam-lhe “metal narcotizado” e assim é: ouve-se e fica-se “viciado”. Como diria o poeta: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!” É assim a música dos Lifelover, uma jovem banda sueca, que começou com “Pulver”, datado de 2006. Actualmente no quarto longa duração, lançado em Fevereiro passado, sentiram-se suficientemente motivados pelo nosso convite para delegarem em ( ), aka Kim Carlsson, a tarefa de explicar à Versus Magazine como se pode fazer música depressiva e sobreviver para contar a história e dela fazer um meio de evasão para quem a ouve. Como pode a vossa banda usar um nome como Lifelover e fazer música que dá vontade de cortar os pulsos? ( ): É uma questão de perspectiva. A maioria das pessoas tem tendência para fazer coisas que não lhes fazem bem. Logo, o nome pode ser aplicado em muitas circunstâncias. Que papel desempenha esta música nas vossas vi-

das? Espero que não vos faça ficar tão deprimidos quando a fazem como os vossos fãs quando a ouvem. Trabalhamos com música praticamente todos os dias. Muito simplesmente, é algo que faz parte das nossas rotinas diárias. Por vezes, torna-se difícil fazer música com a intensidade que esta requer, mas, à medida que o tempo passa, todos nós encontramos maneira de canalizar esta energia do modo mais eficaz.


“As letras é que dão identidade a cada uma das canções e constroem o conceito de cada álbum (…). Por vezes, é mesmo possível criar música a partir dos sentimentos que uma letra evoca” Precisam mesmo de letras nas vossas canções? Mesmo para quem não percebe uma palavra de sueco, a sua essência torna-se evidente: criticar a “selvajaria” subjacente ao mundo moderno, aparentemente tão civilizado e politicamente correcto, e expor a angústia/ansiedade que ela provoca. É este o significado de todos os sons que fazem parte da vossa música, até os gritos! São indispensáveis, sem sombra de dúvida. As letras é que dão identidade a cada uma das canções e constroem o conceito de cada álbum, fazendo dele um objecto artístico e não uma mera colectânea de canções. Por vezes, é mesmo possível criar música a partir dos sentimentos que uma letra evoca. Portanto, se elas não existissem na nossa música, seria muito difícil produzir certas canções. Elas dão-lhes uma atmosfera muito especial.

vision e The Cure) passando pelo doom (Katatonia) e pelo gothic rock (Sisters of Mercy). Como pode isto acontecer? Que pensam destes “antepassados”? Essas associações existem mais na cabeça de quem ouve a nossa música do que nas nossas e decorrem do que cada um conhece melhor em termos musicais. Isso não significa que essas bandas sejam forçosamente nossas antecessoras. Apenas prova que, tanto nós como os nossos fãs, vimos de vários quadrantes.

Entrei no vosso “mundo de depressão”, porque um amigo me fez ouvir «Konkurs» [o álbum anterior da banda, editado em 2008]. Enquanto ouvia a vossa música, vieram-me à memória bandas post-BM como os Ved Buens Ende ou os Dodheimsgard. Há alguma relação entre a vossa música e a deles? Auditivamente, penso que não há nenhuma semelhança com a música dos Lifelover. O único ponto de Ao ler sobre os Lifelover, fiquei surpreendida com contacto que posso encontrar entre nós e eles é o facto a quantidade de bandas a que vos associam. Vão do de que somos todos artistas a fazer a música que nos BM (Forgotten Tomb) ao rock dos anos 90 (Joy Di- agrada, sem nos preocuparmos com o que os outros


“Sjukdom” [“Doença”] foi composto durante um período frustrante da vida e daí resultou o facto de ser um álbum mais sujo, mais agressivo” podem pensar de nós. Mas eu não conheço nenhum “Doença”. É uma palavra que se pode aplicar a muitas membro dessas bandas, logo não sei quais são as ideias realidades e cada um é livre de reflectir sobre a nossa que os movem. música, as letras, as imagens que figuram no álbum e construir o seu próprio conceito. «Sjukdom» foi comOs Lifelover são frequentemente referidos como posto durante um período frustrante da vida e daí resendo uma banda de BM. Eu não consigo identificar sultou o facto de ser um álbum mais sujo, mais agresesse género na vossa música, nem quando vos com- sivo. Portanto, não foi apenas algo que quisemos fazer: paro com bandas muito recentes como Amesoeurs, foi algo que tínhamos mesmo de fazer. Alcest, Les Discrets ou Lantlôs. A vossa banda faz sobretudo canções relativamente curtas e muito E em que se distingue dos anteriores? Eu sinto a variadas, enquanto que, no BM, a tendência vai diferença, mas não consigo discernir onde é que ela para as faixas longas e quase monótonas. Qual é a se encontra. tua opinião sobre este comentário? Os nossos álbuns anteriores eram mais obscuros e neNormalmente, as pessoas confundem o passado com les a melancolia é muito mais evidente. Neste novo álo presente. Se um músico que esteve numa banda bum, ela está lá, mas escondida: a amargura convertede BM cria um álbum de dubstep usando o mesmo se em ternura e a beleza, em fealdade. nome, esse facto não faz da música que ele produz BM electrónico com forte insistência no baixo. Do mesmo Vi-vos em concertos em vídeos no youtube. Não me modo, o metal “narcotizado” dos Lifelover não se con- pareceram nada depressivos. Diria até que vos achei verte em BM só porque fizemos música desse género muito… vivos. Onde e quando vamos poder ver-vos no passado e nela encontramos as nossas raízes criati- “alive and kicking”, como na velha canção? vas. Podes usar a estética do BM em vários contextos, Não me parece que fosse muito interessante, nem para mas o resultado obtido não é forçosamente BM. nós, nem para o nosso público, chegarmos, sentarmonos a um canto e ficarmos lá sem fazer nada. Se os Vocês são os “reis da diversidade”: a vossa música nossos fãs nos pagassem para ficarmos sentados a um evoca muitos géneros, acolhe uma grande variedade canto a consumir drogas, sem interagir com ninguém, de estilos vocais e está cheia de algo a que eu chama- eu aderia logo à ideia. Mas, ao que parece, as pessoas ria “colagens sónicas”. E, simultaneamente, é muito gostam mais de ver o nosso lado eufórico. Será que coesa, aponta num sentido muito preciso: é uma es- uma pessoa triste não pode sorrir de vez em quando? pécie de pesadelo expresso em música de que não se pode escapar. Parece um filme de Hitchcock fei- Como vêem o vosso futuro na música? Vão continto em música (por exemplo, “Spellbound”). Como uar a fazer música depressiva para sempre? Ou já conseguem produzir uma tal dualidade? estão a pensar em novos caminhos a percorrer? Nós somos muito criativos, temos muitas ideias e, Tudo pode acontecer! E é exactamente isso que podem desde que sintamos que elas fazem sentido, não vemos esperar de nós! razão para impor nenhum limite à nossa música. Entrevista: CSA O que significa “Sjukdom”, o título do vosso último álbum? Há algum conceito subjacente a ele? Ou corresponde apenas a música que quiseram fazer?


CIRCLE OF BARDS

«Tales» (2011 / Electrum Production) Antes de mais, Circle of Bards (CoB) não é um álbum de Metal. É obra de Mariusz Migalka, vocalista e compositor polaco. Originalmente concebido como um projecto paralelo, acabou por ver a luz do dia sob a forma de um álbum acústico. «Tales» é composto, maioritariamente, por baladas celtas e medievais inspiradas num mundo de fantasia. CoB está bem produzido, o ambiente musical é excelente, as harmonias das vozes também e as orquestrações são simples mas bem conseguidas. Para quem gosta de música calma e do lado mais acústico dos Blind Guardian ou Blackmore’s Night, há que ter em conta este lançamento. [7/10] Eduardo Ramalhadeiro

CREMATORY

«Black Pearls» (2010 / Massacre Records) Para celebrar o seu vigésimo aniversário os Crematory lançam a compilação composta de um CD duplo e, na edição em digipack, um DVD com o concerto de cerca de 60 minutos do Wacken Open Air. A situação curiosa que reside nesta compilação é que os temas não respeitam a ordem cronológica dos lançamentos da banda, e isso verifica-se desde a primeira música, que começa com “Infinity”, tema titulo do ultimo álbum, passando de seguida para “Fly” do álbum “Remind” de 2001. Um final de 2010 em grande para os Crematory. [9/10] Paulo Eiras

HAVOK

«Time is Up» (2011 / Candlelight Records) «Time is Up» é uma verdadeira peça nostálgica do excelente trash/ speed metal que marcou o final dos 80, com sólidos riffs e breaks, uma velocidade estonteante e claro está solos q.b.. Alias, este é o ponto negativo de «Time is Up», a falta de solos mais acutilantes e marcantes que emancipem mais o álbum. Não é brilhante mas é excelente. Este é um daqueles álbuns que basta olhar para a capa para ver do que se trata. Não engana. A única interrogação é se vale a pena ou não. A minha resposta é: Vale, e muito! [7.5/10] Carlos Filipe

LAZARUS AD

«Black Rivers Flow» (2011 / Metal Blade Records) Segundo lançamento dos americanos Lazarus AD que nos trazem um álbum de pseudo-thrash metal. Diria, talvez, metalcore. Qualquer semelhança com Overkill e/ou Testament é a mais pura das coincidências. Nove temas, sendo a maior parte deles medianos, com riffs do tipo: “já ouvi isto em algum sítio”. Destaco, pela negativa, o tipo de voz. Se os temas são globalmente medianos o som até não está mau mas a voz aproxima-se mais do género metalcore, o que me leva a não conseguir ouvir as musicas até ao fim. Lançamento mais para os fãs deste último género. [5/10] Eduardo Ramalhadeiro


MORBID DEATH

«Metamorphic Reaction» (2010 / Independente) Este EP dos açoreanos Morbid Death significa mudança. Para além de alterações no line-up, a sonoridade da banda explora a agressividade que se mantinha discreta nos anteriores trabalhos. Assim, podemos esperar deste esmerado EP peso quanto baste do início ao fim. O thrash metal está mais vivo que nunca com solos oldschool, retoques modernos e pitadas de melodia – principalmente a partir da segunda metade de «Metamorphic Reaction». Próximo álbum, por favor! [7.5/10] Victor Hugo

OUIJA

«Adversary» (2010 / Xtreem Music) Em 1997 lançaram o surpreendente “Riding Into The Funeral Paths” pela Repulse Records, apresentando um Black Metal que nada sugeria ter origem na Espanha. A banda estagnou, a maior parte dos elementos saíram, mas 13 anos depois chegam com este EP, “Adversary”, e apresentam um Black Metal renovado e cativante. Esperem, mesmo, boas malhas e energia expelida contida nos quatro temas que completam o EP. Os amantes do género, e sem preconceitos, vão ansiar pelo próximo longa duração. [7/10] Victor Hugo

PRIMORDIAL MELODY «In Cold Blood Nihilism» (2010 / Independente)

Depois do ambicioso demo-CD «Critical Chaos», lançado em 2008, é com alguma surpresa que vejo os Primordial Melody (ou Primel, na sua habitual abreviatura) a reverterem, neste EP de estreia, para um estilo de death/thrash bastante mais objectivo e padronizado. É certo que se tratam de cinco temas executados com tudo no sítio, com malhas irresistíveis q.b. e uma sonoridade bem trabalhada, contudo esta abordagem mais directa acabou por transformar a formação de Chaves em mais uma entre a imensidão de bandas congéneres, afastando-os ao mesmo tempo dum caminho que parecia bem mais promissor. [7/10] Ernesto Martins

PURGATORY

«Necronataeon» (2011 / War Anthem Records) «Necronataeon» é uma daquelas violentas tareias sónicas infligidas sem misericórdia e à boa moda antiga por uma metralha brutal e hiper rápida de death metal, ferozmente cuspida com tanto de convicção como de competência. Mas é uma tareia que não deixa cicatrizes para recordar. Com excepção do rugido arrancado das entranhas de um front-man que lembra Jan-Chris (Gorefest) e de alguns raros momentos que nos fazem levantar a cabeça, este é um disco de malhas mastigadas que, na sua maior parte, gritam monotonia e estagnação. [6.5/10] Ernesto Martins


O fim da gestação Os Ava Inferi estão mais sólidos do que nunca, sendo «Onyx» a prova disso, o álbum que irá transformar definitivamente a banda, para sempre. Sem nunca descurar a sonoridade, Gothic Doom Metal e a veia algo experimentalista já bem caracterizada -os Almadenses Ava Inferi-, pela mão do Norueguês Rune Erikson, conseguiram moldar «Onyx» com mestria e maturidade. Junte-se a isto tudo a mão sábia de Dan Swanö na mixagem e masterização do álbum, para lhe dar aquele toque final que o eleva ainda mais. Para nos falar de tudo isto e muito mais, cara a cara numa esplanada em Alcântara, Rune Erikson concedeunos uma esplendorosa e interessante entrevista que vai além de «Onyx». «Onyx» é o álbum de transformação dos Ava Inferi. Foi lançado simultaneamente na Europa e na América do Norte. Quais são as expectativas e os objectivos inerentes a «Onyx»? Já não sei se tenho esse tipo de expectativas, isto, no verdadeiro sentido da pergunta. As minhas expectativas são e serão sempre fazer o melhor álbum possível de sempre. Uma vez finalizados todos os passos de produção, dou-o por concluído – no fundo acabei – e a minha mente parte de imediato para

outro projecto. Aquilo que acontece com o álbum depois da sua saída passa-me um pouco ao lado. Evidentemente que sei que não venderá centenas de milhares de exemplares – claro que adoraria – mas sei que isso não acontecerá, sendo assim, só espero que consiga tocar aquelas pessoas geralmente interessadas em música e com ouvido para extrair as diferentes camadas musicais, que saibam que há lá qualquer coisas mais do que o usual “plástico” dos dias de hoje. «Onyx» foi feito com alma, coração e


muita dedicação – muito trabalho duro, muito suor, quase que colapso quando estou em estúdio, porque ponho sempre muito de mim lá. Só espero mesmo que as pessoas ouçam e que se identifiquem com o que estão a ouvir. Se isso acontecer, então as minhas expectativas estarão preenchidas. Quais foram as influências que te decidiram ir nesta direcção em vez daquela, no início da composição de «Onyx»? Penso que a tournée que fizemos com os Tiamat em 2009 despertou o groove em mim. Isto porque nos álbuns antigos é mais start&stop e uma grande componente progressiva – coisas mais estranhas, enquanto que desta vez, em algumas das músicas é mais uma estrutura no formato rock & roll. No fundo é isto que eu procurava, até porque já estava cansado de esgrimir o parar e mudar de ritmo, pelo que queria algo que fosse mais directo. Esta foi a razão pela

qual comecei a escrever imediatamente «Onyx», depois de «Blood of Bacchus», porque «Blood of Bacchus» foi demasiado improvisado, há demasiadas coisas diferentes, tentei ir aqui e ali, algumas passagens longas, etc… Eu continuo a adorar o álbum, mas há muitas pessoas que não o compreenderam ou que não encontraram nada de especial nele, mas, apesar de tudo acho-o bastante ímpar porque é uma espécie de movimento livre, como uma cascata de música. Mas, no fundo, estou um pouco cansado desta abordagem e pretendo fazer mais músicas, que sejam memoráveis e possam ter uma grande aceitação perante o público, que sejam hinos. Recentemente, o Rune afirmou que 2011 é o “Ano Um” de uma grande transformação que está a acontecer. É realmente «Onyx» o grande “transformador” dos Ava Inferi? Penso que podes afirmar isso… até porque novos membros estão envolvidos. A banda está mais focada, a energia é maior, tudo na banda é muito melhor, e sinto realmente que este é um novo começo, uma nova Primavera. Vamos esquecer os três primeiros álbuns. O primeiro é uma demo, o segundo é na minha opinião o começo oficial da banda [Risos]… E para mim agora, «Onyx» representa uma nova era na banda, um novo começo, o Ano Um. Como vês esse primeiro álbum, «Burdens»? Bem, muita gente vê este álbum como o melhor álbum dos Ava Inferi até agora, porque é um álbum muito estranho, não é realmente metal, é muito soft, mas com uma atmosfera enevoada e uma música sombria e estranha. Podemos dizer que o tema principal de «Onyx» é a transformação? Não, de maneira nenhuma. Quando escrevo música, escrevo-a sempre vindo do coração. É a banda sonora da minha vida, daquilo que tenho passado ultimamente. Muitas vezes não quer dizer que seja só o último ano, no caso de «Onyx», o qual não tem nenhum tema associado. Posso dizer que representa aquilo que foi a minha vida no último ano. Todos os dias acontece algo, como uma continuação. De álbum para álbum, os quais completam um círculo na minha vida, não há espaço para olhar para trás, temos de seguir em frente, não havendo um sentimento específico, uma ideia predefinida. Toda a música vem naturalmente e está relacionada com aquilo que sinto no momento. É difícil de explicar… Sou eu, aqui e agora, e escrevo algo. Não me sento e penso que o próximo álbum irá ser sobre este ou aquele tema, vem tudo naturalmente do dia-a-dia.


Simplesmente Swanö No álbum «Onyx», sobressai uma panóplia de texturas, camadas, musicalidades e experimentações, que levam a que cada música tenha a sua estética própria, mas nunca permitindo que «Onyx» deixe de ser um álbum mais homogéneo e maduro do que os seus predecessores. Nos álbuns anteriores, isto era mais audível. Podemos dizer que «Onyx» está mais trabalhado. Como é que vês este eclectismo musical? O álbum, como um todo, é um grande conceito. Nunca escrevo música para caber num álbum, mas por acaso desta vez até fi-lo, para que as músicas funcionassem como uma roda e permitissem que, de música para música houvesse uma ligação. Isto torna «Onyx» um álbum mais bem conseguido e bastante diverso, até mesmo mais eclético. Eu estou muito contente com o resultado final, apesar de ter ficado bastante diferente daquilo que eu esperava – mas o que é que não fica diferente no fim? Desta vez, deixei de fora da minha alçada a mistura e a masterização, coisas em que costumo ser muito picuinhas… Sabes, não quero deixar fugir a minha criança. Mas fi-lo desta vez e ele [NR: Dan Swanö] surpreendeu-me, fez algo de extraordinário com o som da banda. Estou muito contente. Por falar em Dan Swanö, que é uma figura de renome no mundo do Metal, qual foi a sua contribuição em «Onyx» no que toca à mistura e a masterização? Ele entrou no processo logo no início, antes da entrada em estúdio ou só apareceu na recta final? Tudo já tinha sido feito e gravado antes de ele ter chegado para a mistura e masterização do álbum. Neste capítulo, ele não fez nada. Respeitante à sua contribuição, pela qual veio e figura no álbum, ele talhou algumas das músicas da forma que achou que ficariam melhor. Adicionou coisas das quais não me tinham sequer passado pela cabeça, como de igual modo, retirou pequenas coisas aqui e ali, aplicando o seu cunho pessoal e acabando por marcar todas as músicas em «Onyx». Resumindo, Dan acabou por ser o responsável pelo som da banda e o sentido da mixagem. Ele é um excelente mixer e master, e penso que ele conseguiu fazer coisas especiais no álbum e acima de tudo, adorou o álbum, o que é muito cool. Ele disse que este tinha sido um dos melhores álbuns que tinha feito, o que é um enorme cumprimento para nós, o de ouvir um elogio, vindo de quem vem,


“ O que é Gothic Metal, afinal de contas? [Pausa] eu não tenho nenhuma ideia do que seja. [Risos]” até porque o Dan já trabalhou com Opeth, Ayreon, Diabolical Masquerade, Evoke, etc… Recebi hoje o CD [NR: Dia desta entrevista] e vi-o pela primeira vez, e lá está o autocolante com as palavras do Dan Swanö: “Este foi dos melhores álbuns que já mixei”. É muito comum os CDs virem com autocolantes a destacar algo ou a participação de alguém importante na sua concepção. Como é que vês este tipo de marketing, em especial para uma banda como os Ava Inferi? De facto, é bastante comum e natural. É necessário fazer algo nos dias que correm. Não sei quantos CDs saem todas as semanas. É tanta música que torna duríssima uma pequena banda, assim como os Ava Inferi, que mesmo assim têm seguidores em todo o mundo, para expandir e crescer. Sabes, quando se consegue ultrapassar aquele nível em que todas as bandas estão e conseguir destacar-se das demais, tudo se torna mais fácil a partir daí. Aí, há sempre pessoas que mesmo não seguindo a banda, conhecem-na e vão ouvir o álbum, de uma maneira ou outra. O problema é chegar lá, é como termos uma membrana orgânica a separar as duas camadas, estarmos em gestação como todas as outras demais bandas, e tentar romper essa membrana e sair cá para fora. Actualmente, sinto que conseguimos meter as mãos, romper essa membrana e meter a cabeça de fora. Como é que foi feita a colaboração entre ti e o Dan Swanö? Trocávamos ficheiros áudio. Perguntava-me se eu tinha gostado, se estava bem, e eu respondia, por exemplo, não, se calhar ficava aqui um pouco menos de bateria, estás a ver, mas no fim eu é que tinha a palavra final. No entanto, seguimos as suas orientações um pouco mais do que nós fizemos nos álbuns anteriores, porque aí, era mais como eu queria. Desta vez eu queria abstrair-me um pouco, para ver o que os outros viam na minha música e podiam trazer e fazer. Foi interessante. Joana Messias é a vossa nova baixista – Ela entrou no início do ano na banda. Qual a sua contribuição para «Onyx» e quais as tuas expectativas em relação à ela como membro dos Ava Inferi? A Joana não participou em nenhuma das gravações.

Ela entrou na banda depois da gravação de «Onyx», no início do Ano… Ano Um [Risos]. Ela é uma excelente baixista, uma rapariga muito fixe e tem a energia e a chama que cada um dos membros dos Ava Inferi tem de ter. Foi uma mudança realmente benéfica. Tê-la a bordo é muito bom, estou realmente contente com ela. Acerca do futuro, veremos… Eu agora também não vou começar a escrever música, mas quando chegar esse momento, de escrever algo de novo para os Ava, incorporarei a Joana no processo e veremos como as coisas se desenvolvem. Mas, agora, o que posso referir acerca da Joana, é que ela tem preenchido as minhas expectativas e que estou muito satisfeito em tê-la na banda. Disseste que agora não irias começar a escrever de imediato para os Ava. Com a vossa proliferação de álbuns, quase um por ano, quais são os planos ao nível da escrita de um novo álbum? Sabes, eu sou um workaholic. Estou sempre a trabalhar na música. Mas neste momento tenho tantas bandas, novos projectos em vista, que tenho de tirar o pé do acelerador dos Ava, não quero dizer com isto colocá-la de lado, quero dizer que não irei escrever um novo álbum dos Ava imediatamente, tal como fiz quando acabei «Blood of Bacchus». Talvez daqui a meio ano ou algo parecido é que começarei a escrever algo de novo para os Ava.

O Fim que Vive Quem canta com a Carmen em «The Living End»? Hem hem… Sou eu [Risos]. Eu quis sempre fazer isto mas achava sempre que não o conseguiria fazer. Mas, quando fiz a música em casa no meu computador, surgiu esta melodia para a voz, a qual gravei para não me esquecer e a trabalhar mais tarde com a Carmen. Depois, em vez de refazer a melodia, a Carmen veio com algo que encaixava em cima daquilo que tinha escrito e eu decidi manter a minha voz, porque soava muito, muito fixe. Isto é de certa forma uma experiência e estou muito satisfeito da maneira como ficou. Penso que para o próximo álbum haverá muito mais deste tipo de duetos entre mim e a Carmen, até porque acrescenta um maior dinamismo e profundidade à nossa música. E para já é fixe ser eu a fazer e não termos ninguém de fora, em especial nos


concertos ao vivo. Yeah, estou surpreendido comigo mesmo! De facto «The Living End» é a música mais catchy do álbum. A mais Gothic Metal, no verdadeiro sentido daquilo que é Gothic Metal hoje. Porquê esta aproximação ao Gothic Metal? O que é Gothic Metal, afinal de contas? [Pausa] eu não tenho nenhuma ideia do que seja. [Risos] Parece que toda a gente categoriza o Metal como gótico sempre que há uma banda com uma voz feminina e um riff mais pesado. Para mim, eu não vejo nada de gótico neste tipo de bandas. O que eu vejo é que «The Living End» é uma música muito Gothic Doom Metal porque tem uma força própria, na mesma onda dos Sister of Mercy de antigamente ou os Fields of Nephilim, ou aquele ambiente mais sombrio dos anos 80, misturado com material mais pesado de hoje. Penso que o termo Gothic Metal ou Gothic isto ou aquilo é demasiado utilizado, levando a que o próprio conceito base fique de tal modo deturpado, que já mais ninguém sabe o que significa. Provavelmente o mesmo acontece com o Black Metal, tudo é Black Metal, desde que tenha uma voz mais rasgada. Para mim, não vejo o Gothic Metal desta forma simplista, o que mais conta é o feeling que emanasse do soft, a representação de algo totalmente diferente, algo antigo, de outrora. Gothic até á raiz! [Pausa] Muita gente compara-nos aos Tristania e afins, mas, para te dizer a verdade, nunca ouvi uma canção deles. Não conheço a banda. Não faz parte do meu background. Então qual é o teu background? O meu background é Judas Priest, Black Sabbath… Sou um metaleiro da velha guarda. Não oiço muito destas coisas novas, não vejo nada de mal naquilo que se faz hoje, até porque são grandes bandas, mas não tenho opinião formada, porque não conheço. Então qualquer comparação ou colagem ao Metal Gótico actual é infundada e injusta, porque é um universo que desconheces. Certo? Certo. Então qual foi o ponto de partida de «The Living End»? Inicialmente, a minha ideia era transportar esta música para os anos 80 e dar-lhe uma conotação «vintage». Então compus estes riffs, que soam algo antigo, repletos de sujidade, que são uma mistura entre o lado mais estranho de Fields of Nephilim e os Sabbaths dos anos 80, aquele Sabbath vintage, isto

é como vejo esta música. Mas percebo que outros vejam esta música de outra forma. Foi assim que a concebi… Resta-me frisar que não tomo inspiração de nada, escrevo no momento, com o estado de espírito do momento, nada mais. Evidentemente, que oiço muito do metal de outrora, especialmente Metal Gótico de há muitos anos, e estas são as minhas principais influências. Farás algum vídeo para «The Living End», como já sucedeu com «Majesty»? Talvez… acabamos de fazer o vídeo de «Majesty» na Roménia, e o tipo que o realizou disse “porque é que não me mostraste «The Living End» antes de fazermos o «Majesty»?” Pois… ele sentiu que faltava uma ligação entre o metal mais antigo e o actual. Eu acabei por lhe responder que ficava para a próxima. Por falar do vídeo «Majesty», tu e a Carmen voaram até à Roménia. Como é que correu a experiência? Foi muito fixe, ao mesmo tempo imensamente estranha. Filmámos em dois locais distintos. Um foi numa floresta e o outro foi numa igreja em ruínas ou era um mosteiro, não sei. Só sei que foi um dos locais mais estranhos desta viagem e que de certa forma despontava algo de mágico e supersticioso. O realizador foi Costin Chioreanu, que também assinou a capa de «Onyx», um velho conhecido meu e da banda que sabe bem aquilo que eu pretendo, pelo que, se desenvolveu uma excelente colaboração entre nós os dois. Depois é uma pessoa interessante e profissional, que se interessa em tudo o que gira à sua volta, pelas pessoas da equipa, o que me deixa lisonjeado. Foi uma extraordinária colaboração. O vídeo está online desde Fevereiro, para todos o verem.

A emancipação dos Ava Inferi «Onyx» é o quarto álbum dos Ava Inferi pela Season of Mist. Para uma banda que só começou em 2005, e tendo em conta as dificuldades de hoje, acho um feito notável. Como é que vês esta sólida evolução num curto espaço de tempo? Qual é o segredo que escondes? Não há nenhum segredo, digo-te com sinceridade... ou talvez o segredo seja eu ser um workaholic [Risos]. Mas não, sinto que tenho um dom para a música. [Pausa] Eu sei que posso estar a ser arrogante, mas no fundo consigo fazer este tipo de coisas e escrever imensa música. Esta é a minha vida, é dela


“ Acho que [o Fado] tem muita alma em si, e eu gosto imenso dessa “alma” que o fado emana, parece que fala por si. […] acho que representa muito bem as pessoas daqui” que eu vivo. Vivo da música, de compor, de tocar, das tournées. Aqui em Portugal, encontrei o lugar certo para ter paz, tranquilidade, reflectir e construir um ambiente sólido à minha volta. Beber um copo de vinho e escrever música com criatividade, esse é o segredo. Como é que surgiram os Ava Inferi e puseste a banda de pé, sediando-a em Almada? Depois dos Mayhem, porquê os Ava Inferi? Antes de mais, eu mudei-me para aqui já há alguns anos, antes de ter iniciado a tournée dos Mayhem com os «Chimera». Acho que os Ava nasceram da exaustação de andar sempre a viajar pelo mundo fora, do cansaço dessa vida itinerante. Depois, quando me mudei para Portugal, comecei a ver a minha vida de uma forma diferente e comecei a ver aquilo que necessitava mudar. Tinha uma vida bastante dura e ao vir para aqui, de certa forma, acalmou-me muito. Mudei-me para aqui essencialmente por causa da Carmen e vivemos juntos deste então. Consegui criar e desenvolver uma base sólida na minha vida, a qual me proporciona uma grande estabilidade pessoal. A estabilidade fez-me questionar muitas coisas de forma profunda e ver aquilo que quero fazer e o que não quero fazer, e os Ava Inferi também nasceram destes pensamentos, de eu querer algo que fosse diferente

na minha vida, em que me pudesse focar, em vez de a arruinar. Os Ava Inferi são a minha catarse. E a Season of Mist? Estão com os Ava desde o início. Qual foi o factor que proporcionou isso? Essa é uma pergunta fácil. Quando os Mayhem assinaram com a SoM nos finais de 90, eles eram uma pequena editora em ascensão, que logo depois explodiu, tornando-se numa editora maior. Por outro lado, os álbuns dos Mayhem começaram a vender muito bem, álbuns dos quais eu tive uma forte participação. Eles nunca questionaram a minha integridade como artista, sempre gostaram da minha música, pelo que quando lhes disse que tinha um projecto de uma estranha doomy banda na calha, eles não puseram nenhuma objecção, “Fixe, claro, nós lançamo-lo”, e foi assim que a coisa começou. Eles adoraram o primeiro e o último álbum. Os dois do meio não gostaram lá muito [Risos]… mas o primeiro álbum adoraram mesmo muito, o que não deixa de ser estranho para mim. Eles estavam muito excitados desde o início e mesmo que os álbuns não vendessem muito não perderam dinheiro connosco. E como os álbuns têm vendido mais e mais a cada saída, eles têm-se mantido sempre contentes connosco. Não vendemos 50.000 cópias, até porque somos uma pequena estranha banda, mas o saldo é


“ Conheço bandas de Black Metal que recebem 15.000 € para fazer uma tournée, e isto nunca acontecerá em Portugal” sempre positivo. E assim, eles vão mantendo o seu apoio, ajudando-nos a crescer aos poucos e poucos, de álbum para álbum. Com «Onyx», estamos a dar outro passo, a ganhar um maior protagonismo, de uma forma bastante natural. No passado, até «Blood of Bacchus», isto não tinha acontecido porque eu tinha de me focar nos Mayhem, porque esta era a minha principal banda na altura. Os Ava Inferi eram um projecto paralelo. Mas logo que saí dos Mayhem, concentrei todas as minhas energias nos Ava e as coisas começaram a acontecer mais rapidamente. A Carmen tem mostrado uma versatilidade vocal impressionante, o que lhe dá um maior protagonismo – até porque é a vocalista, pelo que gostava de saber como é que vês a sua evolução de álbum para álbum? Penso que ela encontrou o seu lugar, o seu foco e neste álbum conseguiu a sua maior e mais forte presença, tornando-o no fundo mais interessante. Gostei muito do que ela fez em «The Silouette» e «Blood of Bacchus» – grande performance vocal, mas neste, como é que posso dizer… a melodia também é diferente… Ela conseguiu ir mais além, estar “mais na banda” – espero que percebas – estar de uma forma mais profunda, mais ligada à banda. Também sei, até porque trabalhamos em casa juntos as melodias e as letras – as quais escrevemos em conjunto – que a Carmen está muito contente com a direcção musical da banda. Penso que muito desta entrega está relacionada com isto e com o facto de trabalharmos cada vez mais próximos. Ela é uma vocalista fantástica, está próximo da perfeição. Sou um afortunado em trabalhar com ela e acho que um destes dias será uma das mais conhecidas vocalistas femininas no Metal, isto se lhe derem a devida oportunidade e exposição. De certeza que neste capítulo, estamos a trabalhar para isso! [Risos]

Um labirinto de texturas musicais Analisando todos os diferentes estilos utilizados nos quatro álbuns que vocês lançaram até hoje, consegue-se encontrar coisas tão díspares como fado e doom, metal atmosférico, coisas progressivas, coi-

sas puramente góticas, outras nem tanto por aí, algum experimentalismo, músicas em português, há um bocado de tudo. Cada música tem a sua estética própria. A meu ver, estás a experimentar diferentes coisas, texturas, à volta de um denominador comum, que é o Gothic Doom Metal. Qual é a teu pensamento relativamente a todos estes diferentes estilos e estáticas musicais dos Ava Inferi? Sabes, sou um músico, não um produto. Não sou um robô. Sou inspirado por coisas, não quero dizer com isso que vá para casa escrever um fado, mas, absorvo coisas que me inspirem e escrevo algo, que até pode ficar fixe. E isto mostra aquilo que somos, e não somos, e de certeza não somos robôs, e muito menos um produto em que se coloque demasiado. Cada álbum tem a sua identidade própria. «Onyx» soa desta forma e garanto-te que o próximo irá soar de maneira diferente. Esta é a beleza da música, em especial para alguém como eu, que é um músico e um artista. Não me estou a ver lançar o mesmo álbum duas vezes. Sou um artista e morrerei como tal no dia em que fizer isso! Eu sei que esta é uma abordagem algo profunda da música, em especial para mim. Como vês a música que se faz hoje? Acho que as músicas nos dias de hoje estão muito descaracterizadas de solos. Eu não ouço muitos solos na música de hoje, é tudo só ritmo utilizado de uma forma pacífica. Parece que já tudo foi utilizado e inventado, que já não há muito mais para descobrir. Fazendo uma analogia com os carros, é como termos o mesmo carro mas com pequenas diferenças. Já ninguém arrisca, o que é uma pena, porque a música pode ser mágica. É por isso que acho que «Blood of Bacchus» funciona, porque tem algo lá dentro, tem uma vibração – eu sei que não é um álbum de todo catchy, mas se prestares atenção a todos pormenores, verás que tem algo de magistral. É assim que vejo a música: não posso lançar nada com o qual não esteja satisfeito e espiritualmente contente. Actualmente, parece que toda as pessoas, bandas andam a copiar umas às outras, sem qualquer sentido visionário. Eu não quero dizer com isto que os Ava Inferi são 100% originais, longe de mim, ou que estamos a quebrar as regras, mas uma coisa é certa, não conheço nenhuma banda que soe como nós. Não quero ser incluído em nenhum género em particular, apenas pretendemos fazer aquilo que tem de ser feito. Às


vezes dizem-me para escrever mais músicas catchy, mas como posso fazer isso? Não posso colocar o meu nome em algo com o qual não me sinto confortável. Tenho de escrever com coração. Este se calhar é o meu maior desespero [Risos]. Mesmo nos álbuns dos Mayhem isto acontecia, não eram nada catchies ou comerciais, muito pelo contrário, eram de extremos, «Grand Declaration of War» ou o «Ordo Ad Chao», e eu nunca liguei a ninguém, escrevi sempre com o meu coração, de uma forma livre. Penso que esta é a chave – não do sucesso – mas da minha integridade como artista, sou eu e não uma cópia de alguém, de outro. Com a música «Tempestade» do «Blood of Bacchus», tu conseguiste entrelaçar de forma contundente o Metal Gótico e o Fado. Como Norueguês como é que vês e sentes o Fado? Será uma experiência a explorar ainda no futuro de forma a moldá-la ainda mais com o Metal? Sim, porque não. Para além de «Tempestade», que até começa com a guitarra portuguesa no início e tem a estrutura do fado, a qual é a segunda canção com fado, também temos fado na música «Dança das Ondas» do segundo álbum, aqui talvez menos audível à primeira. Eu acho o fado belo e fascinante. Acho que tem muita alma em si, e eu gosto imenso dessa “alma” que o fado emana, parece que fala por si,.. Não quero dizer que oiça fado, não, mas aprecio muito, é fantástico, e acho que representa muito bem as pessoas daqui. O fado é único, é algo de especial, é verdadeiro. As pessoas em Portugal não acham que o fado seja assim tão especial, não têm essa percepção porque não se conseguem distanciar do mesmo. E misturar os dois géneros talvez pareça estranho aos ouvidos dos Portugueses, porque eu pensaria o mesmo relativamente à música folclórica Norueguesa, que é um tanto banal para misturar com o metal, mas para mim, misturar fado e metal, é como abrir um portal para um outro mundo. Desta vez em «Onyx», não quisemos incorporar nada de fado ou mesmo letras em Português, porque achamos que não iria funcionar. Mas há muito por explorar aqui e veremos o que se segue. [Riso] Nos primeiros álbuns há sempre pelo menos uma música com letra em Português, ao contrário deste em que deixaram isso de lado, qual é a tua opinião relativamente a ter canções em Português nos álbuns e como vês esta abordagem nos Ava Inferi num futuro próximo? Independentemente de as letras serem em Português ou Inglês, o que interessa no fim é o que a canção faz

vibrar, que deita cá para fora, e estas músicas dos álbuns anteriores, transpareciam isso, estavam a pedir serem cantadas em Português. Havia algo na música que puxava para isso. Quanto ao futuro, não sei, não gosto de fazer planos porque acabo por mudá-los sempre à última da hora. Relativamente a estas coisas, sou muito espontâneo, pelo que não posso dizer que vai haver mais. Mas a possibilidade de haver mais tem as suas probabilidades.

O choque cultural Portugal e Noruega são países bastantes diferentes a todos os níveis. Como Norueguês e estando aqui já lá vão 6 anos, como é que nos vês, nós os Portugueses? Acho que Portugal é o lugar perfeito para eu desenvolver a minha actividade. Tem uma comunidade em que nos conseguimos integrar facilmente, às vezes é demasiada intensa [Risos]. Gosto do ritmo de vida, e acho que neste capítulo os escandinavos teriam algo a aprender na forma como interpretam a vida, mas também acho que o mesmo é válido no oposto, porque mais de algo, não é coisa boa. Acho


“Vamos esquecer os três primeiros álbuns. O primeiro é uma demo, o segundo é […] o começo oficial da banda [Risos]… «Onyx» representa uma nova era na banda, um novo começo, o Ano Um” Portugal um lugar acolhedor, humanamente quente, ao invés da fria Noruega. Não estou habituado a ser tão aberto, sou uma pessoa introvertida, tal qual um tímido montanhês Norueguês. Foi um grande passo para mim vir para Portugal, e no início, custou-me um bocado a habituação porque não estava interiorizado do funcionamento do país, mas logo que esta fase passou e entrei no ritmo do país, descobri de facto o quanto maravilhoso é este país, a sua herança cultural e história. Muitos excelentes aspectos a todos os níveis, o que me leva a só poder dizer bem de Portugal. A única coisa que lamento é as pessoas não se esforçarem em se ajudarem umas às outras na sua área de intervenção, como por exemplo na música. As coisas melhoraram nos últimos anos, coisa que não senti no início. Fico contente por isto estar a mudar no sentido certo. No fundo, encontrei aqui o ambiente certo para poder levar uma vida calma e relaxar. Tem-me feito muito bem. E em relação à cena metálica? Podemos fazer alguma comparação entre a cena Norueguesa e Portuguesa? De maneira nenhuma. Aqui temos geralmente pequenas bandas e uma grande banda que é efectivamente famosa além fronteira, que são os Moonspell, enquanto que a Noruega tem muitas mais bandas internacionalizadas, pelo que a comparação não é possível. Penso que isto advém de, na Noruega ser muito mais fácil ter o apoio do estado para este tipo de actividade, enquanto que aqui estás sempre a lutar contra o sistema. Ser músico aqui não é fácil, nem sequer é considerado arte! Na Noruega estas coisas são muito fáceis. Por exemplo, temos bandas de Black Metal a serem apoiadas pelo estado. Os Mayhem receberam bastante dinheiro do estado, qualquer coisa como 10.000 € para ir tocar na Rússia. Este tipo de apoio financeiro é muito comum. Conheço bandas de Black Metal que recebem 15.000 € para fazer uma tournée, e isto nunca acontecerá em Portugal. Penso que isto contribui para arrefecer a coisa, retirando a vontade às pessoas de fazer alguma coisa, porque nasces com o sentimento que não vais conseguir. Isto está de tal forma enraizado que o teu pensamento primário é “Ah, isto não vai funcionar, não vale a pena”, e este é o maior problema da cena metálica

portuguesa. Mas como é que podes lutar contra este pensamento, quando não existe nenhum apoio de qualquer espécie? Depois, é tudo demasiado caro: instrumentos, lugares para ensaiar; temos de ter uma paixão loucamente estranha para não desistir. Vejo agora com bons olhos que as coisas estão ligeiramente mais fáceis e há várias bandas a aparecer com material muito interessante. Mas as dificuldades mantêm-se, eu sei isso, até porque por vezes é difícil ter os Ava a tocar nalguns sítios porque o preço dos bilhetes é demasiado elevado, etc… Também é triste mas é verdade que na grande fotografia dos média do Metal [lá fora] estamos sempre para trás, e que ficam com uma má interpretação acerca do metal que vem de Portugal. Fico contente em constatar que no caso dos Ava isto tem sido diferente, mas também, certamente é por causa de mim, que sou Norueguês e não Português e tenho vários contactos na Noruega, o que torna a coisa muito mais fácil. As pessoas conhecem-me pelo meu passado… Ava está a conseguir chegar lá, mas eu compreendo que é muito difícil para as bandas Portuguesas. Complementando aquilo que acabaste de dizer, é muito comum em Portugal dizer-se que é duríssimo conseguir viver da música. Somos de imediato incentivados a abandonar a ideia e seguir outro caminho. Parece que, ou já temos um nome construído, ou as coisas podem correr mal se o timing for errado. Conseguem os Ava Inferi viver hoje da música ou ainda é um tanto cedo para isso? É demasiado cedo para pensar nisso, para conseguirmos viver da música. Mesmo assim, dá para pagar algumas despesas de vez em quanto. Ganhámos mais quando vamos tocar para fora, o que é uma coisa boa, e até faz sentido este fluxo porque lá há mais dinheiro. Gostava de te poder dizer que sim, que podemos viver da música, na próxima vez que me fizeres esta pergunta [Risos]. Mas não é por esta razão que estou aqui, mesmo que tivesse de pagar do meu bolso 3.000 € para lançar o meu álbum, eu fazia-o, porque isto é a minha vida e eu sem a música provavelmente morreria. Eu vivo para isto. Quais são os planos dos Ava Inferi para os próximos meses?


“ Os Ava Inferi são a minha catarse”

Vamos ao Inferno Metal Festival, na Noruega, em Abril. Vamos fazer 5 dias como banda de abertura para os My Dying Bride, que é uma grande oportunidade de exposição da banda. Vamos começar em Londres, em Maio, depois vamos a Dublin, Belfast e Manchester. Eles também são uns grandes fãs da banda, o que proporcionou o convite da parte dos MdB. Também vamos à Eslovénia, a um campo de Metal onde vamos tocar no mesmo dia que os Moonspell. Pela primeira vez, estamos a trabalhar numa tournée nos EUA. Já tivemos ofertas que recusamos, porque as bandas para as quais iríamos abrir eram um pouco para o extremo. Sabes, por outro lado, temos de pagar muito dinheiro para entrar nos EUA, para ter um visto de trabalho e tudo o resto, para podermos tocar lá. O importante é saber com quem vais e que seja um sucesso para que a ida não seja em vão. Éramos para abrir para os Rotting Christ mas achei que era demasiado extremo para nós, pelo que disse não, mas agora, surgiu uma nova oferta para a banda lá ir no final deste ano, no início do próximo. As coisas estão a acontecer… Estou a dar entrevistas todos os dias, o que me deixa algo exausto, e mentalmente cansado, mas sabes… foi isto que eu pedi, estou contente e não me posso queixar – apesar de algumas vez me queixar mas não o devia –, finalmente o esforço começa a compensar para os Ava. Estes cinco últimos anos de trabalho constante começam a dar os seus frutos. Tenho receio das expectativas, até porque costumava ter muitas nos meus vinte – mas na altura era fácil – mas agora nada é garantido e temos de trabalhar com afinco, no duro e não reclamar. É isto que temos de fazer: Calar e ir trabalhar. Roma não foi construída num dia, como é que queres que a tua banda seja alguma coisa, se não fizeres nada. Entrevista: Carlos Filipe


Glacial e épico Janeiro de 2011 ficará na história de Falkenbach: com seis anos de intervalo em relação ao álbum anterior, surge «Tiurida», em que se combinam doses bem misturadas de gelo germânico e epopeia nórdica. Num estilo muito contido, Vratyas Vakyas, único elemento da banda, respondeu ao repto da Versus Magazine para discutir algumas ideias decorrentes da audição de mais um fruto da sua inspiração. Sou uma grande fã de Falkenbach desde que encontrei uma cópia de «Magni Blandinn ok Megintiri» numa loja de CDs em segunda mão. De onde vem o teu interesse pela mitologia e pela antiga literatura nórdicas? Vratyas Vakyas: Sou alemão. As crenças e mitologia ocidentais e nórdicas fazem parte da herança cultural associada à minha identidade. Tendo em conta o teu interesse pelos deuses pagãos e o teu ódio pelo Cristianismo, é possível dizer que o teu nome artístico se relaciona com o deus Odin, que também era um caminhante? Não. O nome Vratyas Vakyas vem de Vatan, que

também está relacionado com o espírito Asatru, mas que não tem nada a ver com Odin ou qualquer outro deus. Vejo os teus álbuns como narrativas em música. Concordas com esta afirmação? Os que ouvem emitem opiniões muito diferentes sobre Falkenbach. Eu nunca arrumo em categorias a música que crio. Para mim, Falkenbach é… Falkenbach. Nada mais posso dizer sobre esse assunto. As tuas canções têm letras em Inglês, mas também em Islandês e Alemão antigos e em Latim. Como consegues dominar essas línguas todas?


“Raramente leio críticas. (…) Este álbum é Falkenbach no seu estilo próprio: não pretendia mudar, não sinto a necessidade de o fazer” As passagens nessas línguas que surgem nas minhas canções correspondem sobretudo a citações de Tácito, do Edda e de outras fontes antigas. O meu domínio dessas línguas é, portanto, bastante reduzido. As capas dos teus álbuns parecem-me muito apelativas. Por que decidiste usar quadros representando cenas do universo nórdico vistas por pintores dos sécs. XIX e XX como elementos da tua estética? Demoro sempre bastante tempo a encontrar o que quero para a capa de um dos meus álbuns. Não sei o que procuro à partida, mas, assim que vejo algo que me pareça adequado, sei logo que era aquela imagem que eu procurava. De facto, há uma ligação, mas não sei explicar-te como é que ela se estabelece: manifesta-se e eu sei que é a certa. A tua música é, simultaneamente, melódica e violenta, desesperada e épica. Como crias um universo musical tão particular? Onde encontras a tua inspiração? A inspiração – pegando no teu termo – não se pode explicar de modo nenhum. Chega na altura certa e não há modo de eu forçar a minha mente a produzir outras ideias. Manifesta-se, independentemente do lugar onde estou, da forma como me sinto, e impõese. Por vezes, passo muito tempo sem ter novas ideias e nada posso fazer quanto a isso. É a própria inspiração que decide como é que a minha música vai soar, quando surgir na minha mente. Em Janeiro de 2011, ocorreu o lançamento de «Tiurida», seis anos depois do teu último álbum. O que aconteceu? Precisei de todo esse tempo para criar as faixas deste álbum e as aprimorar. Não tinha a intenção de fazer uma pausa no meu processo criativo. Foi apenas porque precisei desse tempo para o álbum sair exactamente como eu pretendia que ele fosse. Como já referi, nada posso fazer senão esperar, quando as novas ideias demoram mais tempo a manifestar-se na minha mente. Que reacções ao álbum tens recebido até agora? Li algumas críticas e variam muito: uns vêem este álbum como uma repetição dos anteriores e outros como uma nova direcção na carreira de Falken-

bach. O que pensas sobre isto? Raramente leio críticas. A única coisa que posso dizer é que essas observações não têm nada de estranho: normalmente, surgem opiniões muito diferentes, cada vez que sai um novo álbum, seja de quem for. Este álbum é Falkenbach no seu estilo próprio: não pretendia mudar, não sinto a necessidade de o fazer. Ao ouvir a faixa instrumental – “Tanfana” – , fiquei com a sensação de que correspondia a um tema tradicional oriundo do teu universo cultural. Estou certa? Sim, é verdade. É fácil perceber isso, se se tiver alguns conhecimentos sobre esse assunto. Basta pesquisar na net. Desta vez, escolheste para a capa do álbum um quadro de um pintor americano do séc. XIX, embora fosse de origem alemã. Que relação há entre a paisagem representada nesse quadro e o universo nórdico que Falkenbach faz reviver? Não pretendia criar nenhuma relação com um “universo nórdico”, mas sim com a música de Falkenbach. Nem mais, nem menos do que isso! O lançamento de «Turidia» vai dar uma nova vida a Falkenbach? Sou uma fã que gostava de ter a oportunidade de ver a banda ao vivo. Neste momento, há boas hipóteses de serem marcados alguns concertos, num futuro próximo. Mas ainda não é 100% seguro. Só o tempo poderá dizer se esta ideia se vai concretizar. Mas, para teres notícias, basta consultares o site oficial: www.Falkenbach.de ou Facebook.com/OfficialFalkenbach. Obrigado pelo apoio. Entrevista: CSA


A união faz a força Com quase 15 anos de carreira e uma história movimentada, os finlandeses Omnium Gatherum têm-se esforçado por fazer jus ao nome que escolheram para o seu projecto musical e construir a unidade a partir da diversidade. No decurso desta luta, já lançaram cinco álbuns. No último – «New World Shadows» –, parecem ter chegado ainda mais perto desse propósito. A conversa com o guitarrista Markus Vanhala, fundador da banda e, neste momento, único responsável pela composição, revelou-nos que sentem ter atingido a maturidade artística e estar a fazer música mais coesa e original. A vossa banda tem uma história difícil, com muitas mudanças de formação, algumas das quais ocorreram recentemente. Qual é a razão desta turbulência constante? Markus Vanhala: Como sou um grande fã de Jeff Waters dos Annihilator, Chuck Schuldiner dos Death e Richie Blackmore, acho que estas mudanças são uma espécie de influência desses músicos :) É claro que somos uma banda com história, até porque estamos quase com 15 anos de carreira e isso é muito tempo para fazer moshes. Metade da minha idade. Este estilo de vida não é fácil, contando com as digressões,

as gravações no estúdio, as entrevistas à noite ;) etc. Tudo isto requer bastante tempo e energia. Além disso, tocar numa banda de death metal geralmente não te faz enriquecer. Se quiseres ter uma vida decente, como as pessoas “normais”, tens de ter um emprego a tempo inteiro ou, pelo menos, em part-time e acabas por não ter tempo nenhum para ti. Mas eu adoro esta vida! A última mudança de formação ocorreu quando o nosso guitarrista de longa data resolveu sair, no ano passado. Acho que ele se cansou desta vida e queria fazer algo diferente durante algum tempo. Por exemplo, jogar basquete. E isso aconteceu.


“[Fazemos] ‘epic adult oriented death metal’. É uma espécie de death metal melódico e progressivo, saído das belas paisagens do Norte e reinventado pela melancolia finlandesa.” Uma das mudanças importantes ocorreu quando substituíram o vosso antigo vocalista. O que é que o J [Jukka Pelkonen] trouxe aos Omnium Gatherum (OmG)? Como é que ele afectou a vossa música? Isso já aconteceu há 6 anos, depois do nosso segundo álbum, e realmente alterou bastante a nossa música e o nosso estilo. J deu uma nova vida à banda, porque tem um estilo vocal muito característico e que chama a atenção e é, simultaneamente um elemento influente da banda e alguém que consegue dar-se bem com todos. Mas não aconteceu nada de especial com o Antti Filppu. Passámos tempos muito bons e fizemos coisas fantásticas juntos e continuamos bons amigos. Só que ele não era um metaleiro, era mais um poeta, com a sua visão da vida muito pessoal, e, nessa altura, a banda era uma espécie de associação estranha, como o próprio nome indica. Jukka tem um estilo brutal, mas também consegue fazer vocais limpos, quando é necessário, e a sua flexibilidade permite-nos variar muito a nossa música. Um dos aspectos mais interessantes do nosso estilo neste novo álbum decorre da combinação da brutalidade dele com passagens musicais cheias de melodia, em que a voz é levada ao seu extremo em termos de peso. Também mudaram frequentemente de editora. Foi decisão vossa? Ou tiveram de sair porque as editoras não queriam continuar a apoiar a vossa música? Agora é muito difícil lidar com as editoras. As pessoas compram poucos CDs e as digressões das bandas custam fortunas. Eu tenho dificuldade em entender as editoras: frequentemente, pagam bom dinheiro pelos álbuns e depois “esquecem-se” de os promover. Com a quantidade de lançamentos que há hoje em dia, até o melhor álbum passa despercebido, se não for devidamente promovido. Podes vender coisas horríveis com boas campanhas de promoção e deitar a perder uma verdadeira obra-prima, se não tiveres cuidado com esse aspecto. Foi por causa de situações desta natureza que fomos mudando e agora estamos a trabalhar com a Lifeforce!

trevista que estavas muito feliz com ele, porque era o primeiro feito inteiramente de acordo com a tua perspectiva. Que podes dizer-nos sobre isto? Bem. Todos sentimos que “NWS” é o álbum mais coerente que já fizemos e o mais fácil de ouvir. Reflecte verdadeiramente a visão original da banda, a que existia quando a formámos, nos longínquos anos 90, e contém todos os ingredientes musicais que mais me agradam. Posso dizer que é o nosso álbum mais genuíno. Faz pensar no velho death metal melódico da Escandinávia, que se pode ouvir em bandas como Edge of Sanity e nos primeiros tempos dos In Flames/Dark Tranquillity/Opeth/Amorphis, misturado com prog rock dos anos 70 e 80 feito por bandas que admiro muito como Rush, Marillion, os Genesis dos primeiros tempos, etc. Costumamos dizer, na brincadeira, que inventámos um novo estilo musical a que chamamos “epic adult oriented death metal”. É uma espécie de death metal melódico e progressivo, saído das belas paisagens do Norte e reinventado pela melancolia finlandesa. Em tempos, as canções dos OmG eram feitas por mim e pelo Harri, o nosso antigo guitarrista: cada um fazia as suas. Essa dualidade na composição fazia com que os nossos álbuns tivessem grandes flutuações de estilo, que, por vezes, nos prejudicavam. Isso aconteceu em «Stuck Here On Snakes Way». O último longa duração é mais coeso. Acho que podemos dizer que, finalmente, encontramos o nosso caminho, crescemos artisticamente, focando-nos mais nas canções e menos em riffs sensacionais. Chamo a isto metal maduro! :)

Que “mundo novo” é este? Tem alguma coisa a ver com o “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley? E por que o vêem cheio de “sombras”? O alinhamento das canções deu-me a impressão de que há um conceito por trás do CD, que ele conta uma história que não acaba nada bem. É mesmo assim? Não achas que todos os mundos novos têm as suas sombras? As letras das canções centram-se nas relações entre o indivíduo e o contexto em que este se insere, Falemos agora de «New World Shadows» (NWS), o na forma como vemos o mundo (e a Humanidade), quinto álbum dos Omnium Gatherum. Li numa en- que é simultaneamente uno e fragmentado. No álbum,


“OmG não é uma banda fácil de ouvir, com a qual simpatizas logo à primeira audição” exploramos a forma como isto nos afecta. “NWS” é um álbum muito crítico em relação às atitudes e crenças do nosso tempo. Sentimos que a Humanidade está a atravessar momentos difíceis. E não se trata da dualidade Bem/Mal… Não falamos de nenhum confronto, queremos antes chamar a atenção para o que nos rodeia e que raramente observamos com atenção, porque andamos absorvidos pelo nosso dia-a-dia. A certa altura, não podemos enterrar mais a cabeça na areia. Está a chegar o tempo em que a cruel realidade vai surgir aos olhos de todos, em que não poderemos continuar afundados nesta “cegueira”. Cada canção do nosso álbum aborda um aspecto deste tema geral e a última – “Deep Cold” – faz a síntese de tudo o que ficou dito para trás. Mas o álbum termina bem com o verso “… and the summer wind came blowing in from across the sea”. E foi mesmo assim, na realidade, porque o concebemos numa ilha, rodeados pelo silêncio da natureza, numa casa de praia no Sul da Finlândia. Nunca tínhamos trabalhado assim, mas resultou mesmo. O nosso espírito de equipa atingiu o seu ponto máximo e, tal como no nosso álbum, estivemos relaxados e afastados da agitação do mundo. Voltámos à floresta. Passámos muito tempo na sauna e a pescar. E a ouvir metal. Tenho a certeza de que esta atmosfera maravilhosa se sente no álbum. Felizmente :)

dos. Amamos intensamente a música e sinto que esse sentimento transparece na nossa arte. Por que havíamos de ficar bloqueados, se algum purista não gostou? Para facilitar a vida às editoras? Nem pensar. Fazemos death metal adulto, não cedemos a pressões. A minha opinião sobre o álbum é muito positiva. Gostei muito do contraste entre a agressividade da voz do J e as belas melodias das vossas canções. E esse aspecto ficou bem sublinhado no vídeo que fizeram para “Soul Journeys”, que é uma das minhas faixas favoritas. Por que a escolheram para apresentar o álbum? Porque reflecte bem tudo o que se passa no álbum. Desta vez, queríamos fazer um vídeo épico e não podíamos usar uma canção que não tivesse essas características. É engraçado ver-vos no vídeo, porque o J tem um ar realmente ameaçador e os outros parecem estar a divertir-se imenso. E, como o vídeo foi feito ao vivo, chegou o momento de te perguntar quando e onde poderemos assistir a concertos dos OmG. O que viste no vídeo acontece porque foi realmente gravado ao vivo, no nosso concerto em Helsínquia, o que torna evidente o lado enérgico e suado dos OmG em acção. Depois fizeram uns extras com o Jukka, a pedido do realizador. Nós não somos melancólicos e tenebrosos, apesar de sermos finlandeses :) A nossa música é que é assim. Quanto à promoção deste álbum, vamos começar por percorrer a Finlândia, primeiro sozinhos de depois com os Evergrey. A seguir, vamos tocar no resto da Europa com os Rotting Christ, na Primavera, mas ainda não sei bem qual vai ser o nosso itinerário. Portanto, tens de estar atenta aos movimentos dos OmG. Para o Verão, temos a ida à Alemanha, para tocarmos no With Full Force Open Air. Deverá haver outros concertos mais tarde. Talvez aconteça como quando andámos a promover o nosso álbum anterior – «The Redshift» – e tivemos a honra de tocar com bandas como Dark Tranquillity, Nile, Grave, Swallow The Sun, Insomnium. Fizemos 100 concertos de promoção desse álbum… A pouco e pouco, convertemo-nos numa banda a sério, com compromissos a respeitar, haha! :)

Já li duas críticas sobre este vosso álbum. E, mais uma vez, uma era positiva e a outra negativa. Que pensas disto? Eu não confio nas críticas, porque reflectem apenas a perspectiva de uma pessoa, embora de uma forma pública. Se um músico der atenção a tudo o que as críticas dizem, ou fica louco ou acaba por deixar de compor, porque há sempre alguém descontente... Um verdadeiro artista mantém-se fiel às suas convicções. Mas, até agora, tudo o que nos disseram sobre este álbum foi muito positivo. OmG não é uma banda fácil de ouvir, com a qual simpatizas logo à primeira audição. Não somos suficientemente brutais para os grandes fãs de death metal, mas somos demasiado pesados para os fãs de outros tipos de música. Estamos a meio caminho, fazemos música original, à nossa maneira. Temos momentos muito melódicos e progressivos no nosso álbum, mas também temos a voz brutal do J e riffs muito pesa- Entrevista: CSA


“Ano novo, vida nova“ é um termo que parece assentar bem ao quinteto inglês, que iniciou o ano com novo álbum, o quarto de originais, intitulado «The Here And Now», um registo um tanto ou quanto diferente dos anteriores e por isso uma desejada lufada de ar fresco. A VERSUS Magazine teve a oportunidade de encetar uma breve conversa com o baterista Dan Searle, que nos revelou detalhes sobre este novo trabalho e esta nova abordagem dos Architects, anunciando também que Portugal faz parte da Tour de 2011.


Alma Renovada

Quais são as vossas expectativas relativamente a este quarto álbum, inclusivé em termos de promoção e digressões? Dan Searle: Francamente, neste momento, não temos quaisquer expectativas. Nunca estabelecemos objectivos a atingir quando lançamos álbuns, limitamo-nos a ver o que acontece! Vamos andar em digressão durante os próximos dois anos e esperamos que corra tudo bem. Mas só o tempo o dirá. Este novo álbum parece representar um momento de mudança na vossa carreira. Citando as tuas palavras, constitui o culminar de “uma atitude mental nova e positiva” e “a síntese dos últimos quatro anos da carreira dos Architects”. Podes explicar o que queres dizer com estas afirmações? Muito simplesmente que, desta vez, resolvemos fazer o que queremos, em vez de nos preocuparmos com o que os outros poderão pensar. Atravessámos um momento muito negativo e isso

notava-se nas letras e na música de alguns álbuns anteriores, mas agora sentimo-nos melhor e queríamos fazer algo que tivesse um sentido mais positivo. As digressões que ocupam o ano inteiro e nos obrigam a passar muito tempo longe dos amigos e da família podem tornar-se saturantes e estar sempre a tocar canções amargas não ajudou nada! Por que decidiram intitular o vosso álbum «The Here And Now»? Porque trata da necessidade de apreciar o momento que estás a viver, de ver os seus lados positivos. Toda a gente devia “viver no Aqui e no Agora” e tentar tirar o máximo proveito de todos os momentos da vida. Como descreverias a evolução da banda entre o primeiro álbum (lançado em 2006) e este último (de 2011)? Mudámos imenso! Neste momento, somos uma banda completamente diferente, pessoas total-


“…desta vez, resolvemos fazer o que queremos, em vez de nos preocuparmos com o que os outros poderão pensar” mente diferentes também. Começámos aos 16 anos e agora temos 23. Neste tempo, muda-se muito como pessoa e os nossos gostos alteram-se. Quando toco as nossas velhas canções nos concertos, sinto-me como se estivesse a tocar covers. Gostava que comentasses o vídeo que fizeram para o vosso primeiro single “Day in day out”. Tem alguma coisa a ver com a vida que levam durante as digressões? Esse vídeo pretende mostrar como nos sentimos em casa, quando estamos juntos a tocar. Foi por aí que começámos e é esse espírito que nos mantém em acção. O que sentimos quando estamos juntos a tocar é muito especial, mas há momentos, em viagem ou em casa, em que nos sentimos um tanto perdidos. Tocar juntos é a coisa mais importante das nossas vidas. E que podes dizer-nos sobre o vosso segundo single “Learn to live”, que ainda vai ser lançado? Essa canção dá a essência do álbum em termos de letras. Refere-se à necessidade de não nos preocuparmos com o que os outros pensam, de procurarmos sermos autênticos, fiéis a nós próprios. Sentimos que nos temos mantido um pouco à margem da verdadeira acção e vemos que mui-

tos dos que começaram ao mesmo tempo que nós já fizeram coisas muito importantes. Mas nós também nunca parámos. É este o tema da canção. Podes deixar uma mensagem para os fãs portugueses? Continuem a apoiar-nos. Temos pena de nunca termos tocado no vosso país. Mas sejam pacientes, porque iremos fazê-lo em breve. Portugal está incluído no roteiro da nossa digressão de 2011! Entrevista: André Monteiro Tradução: Cristina Sá


Os noruegueses Mayhem têm um passado verdadeiramente tenebroso, talvez devido a uma vivência extrema da ideologia associada ao black metal, no seu início. O protagonista do primeiro desses episódios foi Per Yngve Ohlin, o terceiro vocalista da banda, que cometeu suicídio, a 8 de Abril de 1991, ou seja, há 20 anos atrás. Apesar da sua curta vida e carreira, Dead deixou algumas marcas no mundo do black metal e na vida dos Mayhem, banda à qual é normalmente associado (embora tenha passado por outras). Uma delas – talvez a mais mediática – tinha a ver com a sua atitude em palco, já que Dead fazia jus ao seu nome: não só usava “corpse paint”, como acrescentava alguns acessórios que acentuavam o efeito. Segundo Hellhammer, o baterista da banda, chegava ao extremo de enterrar as roupas que usava nos concertos, para lhes dar um “cheiro a sepultura”! Era igualmente conhecido por se ferir voluntariamente durante as actuações, o que aliás também era apanágio de um dos outros vocalistas da banda – Maniac (que o tinha precedido e viria a retomar esse lugar após a sua morte). Com os Mayhem gravou dois álbuns: “Dawn of the Black Hearts”, em Fevereiro de 1990, editado pela primeira vez em 1995; “Live in Leipzig”, também em 1990, em Novembro, editado apenas em 1993. Curiosamente, “Live in Leipzig” faz parte da lista da discografia es-


sencial dos Mayhem, publicada na Terrorizer’s Secret History of Black Metal, em Setembro de 2009. Ouvindo os dois álbuns, pode-se constatar como a voz áspera de Dead, os seus rugidos desesperados e o estilo vocal “esfarrapado”, com frases que pareciam disparadas, aprofunda a atmosfera obscura que a banda pretendia criar com a sua música, sem lhe dar a melancolia característica do doom metal. Acima de tudo, Dead chama a atenção, porque era provocador, na sua postura artística, mas, simultaneamente, vivia a fundo o desafio que o black metal representava na altura. Fê-lo tão intensamente que pôs termo à sua vida, cortando os pulsos e dando um tiro de caçadeira na cabeça, aos 22 anos. Contudo, talvez as histórias que circulavam acerca das reacções dos membros da banda que encontraram o seu cadáver tenham contribuído mais para o impacto desse suicídio do que as circunstâncias em que este ocorreu. Basta comprar uma edição de “Dawn of the Black Hearts” para ver, na capa do CD, uma foto de Dead... morto. “People became more aware of the [black metal] scene after Dead had shot himself ... I think it was Dead’s suicide that really changed the scene.” Mayhem bassist Jørn Stubberud (aka ‘Necrobutcher’)

CSA


Cascais, 12 de Maio de 1987. Cerca de três mil fãs concentram-se em filas pouco ordeiras frente ao mítico pavilhão do Dramático, aguardando a estreia ao vivo em Portugal do guitarrista irlandês Gary Moore, em digressão de apoio ao álbum «Wild Frontier». Uma hora antes da abertura das portas é anunciado o adiamento do espectáculo para o dia seguinte devido à falta de um gerador eléctrico. O concerto agendado para 13 de Maio no Pavilhão Infante de Sagres, no Porto, é anulado. A multidão apinhada frente ao Dramático insulta os polícias e seguranças presentes, danificando também algum património municipal. A eclosão de um motim está por minutos. Felizmente, não acontece. Resignados, os fãs regressam a casa para voltar no dia seguinte. E 13 de Maio foi dia santo em Cascais, pois Gary Moore (voz e guitarra), Bob Daisley (baixo), Neil Carter (teclados e voz) e Eric Singer (bateria) protagonizaram um espectáculo verdadeiramente memorável (http://www.youtube.com/ watch?v=OjtKnOSwEho), o único de Moore em Portugal ao longo de toda a sua carreira e o segundo concerto a que alguma vez assisti. Os nacionais Cruise abriram as hostilidades.

Biografia Robert William Gary Moore nasce a 4 de Abril de 1952 em Belfast. Desde cedo hábil na guitarra é influenciado pelo Jazz, pelo Blues e pelo Rock, embora o seu ecletismo musical o haja levado a outros terrenos musicais. Aos 16 anos muda-se para Dublin, onde integra


os Skid Row (não confundir com os norte-americanos com o mesmo nome), que lhe granjeiam o reconhecimento do público e da indústria. Ao longo da carreira integra os Thin Lizzy em três diferentes ocasiões. Aliás, das várias colaborações com o amigo de longa data Phil Lynott, vocalista/baixista do grupo, resultaram enormes sucessos de Moore como «Parisiense Walkways» (1979) ou «Out in the Fields» (1985). Em 1973 o guitarrista lança o álbum de estreia, «Grinding Stone», como The Gary Moore Band, iniciando uma longa e bem sucedida carreira a solo, onde explora sem limites a sua veia interventiva em letras políticas e anti-guerra, ou não viesse Moore de um país historicamente assolado pela violência. A partir do segundo álbum, «Back on the Streets», a pesada abordagem Hard Rock torna-se regra, sem prejuízo da melodia e do necessário comercialismo. De facto, nos anos 80 Moore conhece o seu período de maior êxito, sendo presença assídua nos tops. «Corridors of Power» (1982), «Victims of the Future» (1984), «We Want Moore» (1984, ao vivo), «Run for Cover» (1985), «Wild Frontier» (1987) e «After the War» tornam-se álbuns clássicos, produzindo êxitos como “Empty rooms”, “Muder in the skies”, “Victims of the Future” ou “End of the world”. Com «Still Got the Blues» o guitarrista regressa às suas raízes musicais, até 1999, quando, através de «Dark Days in Paradise» experimenta, sem êxito, utilizar batidas modernas. A partir de «Back to the Blues» mantémse fiel aos Blues até à sua morte, a 6 de Fevereiro deste ano, em Espanha, por ataque cardíaco. Dico


Sobre a “Breve História do Metal Português” Antes de mais, as apresentações. Dico foi baterista dos Paranóia, Dinosaur, Sacred Sin, Timeless e Powersource. Enquanto jornalista de música colaborou em revistas (Riff, Massacre! e Blast!), sites (123Som.com, MetalOpenMind) e blogues (Metal Incandescente e A a Z do Metal Português, considerados referências no meio). Actualmente, escreve artigos de opinião e crónicas em sites e revistas online e abraçou o projecto de escrever a “Breve História do Metal Português”. É sobre isso que vamos falar. O PROJECTO Como é que este projecto surgiu? Como é que o caracterizas? A ideia surgiu cerca de 2005 mas só em Julho do ano passado comecei a trabalhar na obra. Era premente mostrar às pessoas a verdadeira génese do Metal português, que reside na segunda metade dos anos 60, toda a década de 70 e primeira metade dos anos 80. Muita gente continua a pensar que o Metal Português surgiu do nada na segunda metade da década de 80 – daí a importância de esclarecer esse aspecto. Considero este trabalho de grande relevância para a música pesada nacional, na medida em que reúne uma contextualização histórica, social, política e cultural/ musical, fundamentais para os leitores das faixas etárias mais jovens compreenderem as situações relatadas. Qual é o método que utilizas para a recolha de elementos? Quais são as tuas fontes de informação? É difícil contactar a maioria dos intervenientes da época e o tempo escasseia bastante (faço isto nos tempos livres por gosto e amor à música), além de os recursos serem poucos. Essencialmente faço muita pesquisa bibliográfica. Consulto vários livros, revistas, sites, blogues e documentos vários, mas também tenho falado com algumas fontes privilegiadas. Onde é que queres chegar com este trabalho? Quais são os teus objectivos e as tuas expectativas? Faço este trabalho por pura realização pessoal e curiosidade em saber mais acerca da música pesada lusa. Obviamente que pretendo que a “Breve História do Metal Português” chegue ao maior número de fãs possível, daí ter feito uma campanha de divulgação massiva. No entanto, as expectativas não são muito altas – as pessoas não se interessam muito por conteúdos inovadores – mais aprofunda-


dos – preferindo na maior parte dos casos ler sempre o mesmo tipo de artigos. Já publicaste a primeira e a segunda partes, referentes aos anos 60 e 70. Qual tem sido o feedback? Está a corresponder às tuas expectativas? O feedback tem sido pouco, pelo que sim, está a corresponder às minhas expectativas. Nos primeiros tempos absolutamente ninguém se pronunciava, como é hábito do português. Dá trabalho participar, dar opinião, incentivar ou criticar construtivamente. Não sabia se as pessoas gostavam ou não. Agora já sei que o trabalho tem aceitação junto do público mas falta mais feedback. Noutro país de mentalidade mais aberta um trabalho destes gozaria de uma significativa adesão dos leitores e até já teria convites para publicação profissional em suporte de papel ou digital. Qual será o próximo capítulo publicado? O que poderemos esperar? O próximo texto a ser publicado é aquele que nos vai levar de 1974 até 1979, seguindo-se a década de 80, para o trabalho terminar em 1995. Rigor e detalhe é o que os leitores podem continuar a esperar. Qual é a previsão de conclusão do trabalho? A conclusão está prevista para Janeiro / Fevereiro do próximo ano – mas é sempre possível uma ligeira derrapagem temporalmente falando. Depois da publicação online, pode seguir-se a publicação em papel? Quem sabe? Já algumas pessoas me colocaram essa questão mas ainda é prematuro pensar nisso. É uma hipótese que não descarto; aliás, é até bastante interessante, mas – dado o panorama desolador que existe em Portugal neste campo – a edição em livro terá que passar sempre pela edição própria, o que implica investimento financeiro da minha parte. Mas a realizar-se esta ideia os órgãos de comunicação social terão conhecimento dela atempadamente.

AS BANDAS Em relação à recolha de informação que estás a realizar, qual foi a tua maior supresa? Foi verificar que as primeiras bandas nacionais influenciadas pelo heavy / hard rock internacional se formaram na segunda metade dos anos 60. Esta data traduz bem a longevidade da música pesada feita em Portugal. Por outro lado, a constatação de que vários músicos pertencentes a alguns colectivos da época transmitem versões totalmente distintas, por vezes até contraditórias, acerca da formação e história das respectivas bandas, o que dificulta imenso o processo de investigação e redacção dos textos. Finalmente, a qualidade técnica e musical das bandas da época deixou-me impressionado. De todo o percurso do metal em Portugal, qual é para ti a banda mais incompreendida, aquela que – apesar da sua qualidade – nunca atingiu a projecção merecida? Porquê? Os RAMP, sem dúvida, porque são um exemplo de trabalho e de qualidade musical e técnica. Estão longe de ser regulares nas edições mas todo o investimento pessoal e grupal que está na génese de cada álbum, de cada espectáculo, é monumental. São um dos mais dignos representantes do Metal Português, mas se calhar as fracas estruturas de exportação do produto metaleiro que Portugal possui inviabilizaram a construção de uma carreira internacional. Da mesma forma, qual é para ti a banda que teve maior projecção sem a merecer? Porquê? Não vou dizer nomes. Há alguns que mesmo sem talento vêem muito cedo a sorte bater-lhes


“Não gostaria de ver regressar qualquer banda já extinta – aliás, se há moda que abomino é esta febre de as bandas extintas voltarem ao activo” à porta mas só mais tarde provam merecê-la; há outros que são muito bons desde o início mas nunca têm sorte. Das bandas que já não estão no activo, quais são as que fazem falta ao metal em Portugal? Porquê? Não gostaria de ver regressar qualquer banda já extinta – aliás, se há moda que abomino é esta febre de as bandas extintas voltarem ao activo. Contam-se pelos dedos de uma mão aquelas que, após o regresso, provam continuar a ser relevantes e merecer a sua existência. Uma coisa é fazerem-se edições de registos antigos e recuperar-se a história e a memória dessas bandas – algo que incentivo fervorosamente; outra coisa é tentarem recuperar o impossível: o espírito da época. Por isso, posso enunciar algumas bandas de que gosto muito mas que por isso mesmo não gostaria de ver novamente em actividade: é o caso dos Thormentor, Poker Alho, Enforce, entre outras. E quais as que não fazem falta nenhuma? Porquê? Na linha da resposta anterior, nenhuma das bandas já extintas faz falta alguma. Foram importantes na sua época e algumas fizeram história, que deve ser lembrada e preservada – mas só isso. Qual é para ti a maior banda portuguesa de todos os tempos? Porquê? RAMP, pelas razões enunciadas acima.

O METAL EM PORTUGAL Como contextualizas o metal em Portugal no panorama socio-cultural em Portugal e em particular no panorama musical? O estilo tem-se desenvolvido bastante. Há cada vez mais e melhores bandas com nível internacional, que muitas vezes

representam de forma sublime a cultura portuguesa na sua música; como exemplos temos os Hyubris, Assacínicos, Moonspell ou Thragedium – entre muitos outros. Essa exploração de várias texturas musicais no Metal Português é muito positiva em termos de visibilidade. Por outro lado, o Metal já é melhor aceite pela sociedade em geral; nota-se uma importante mudança de mentalidade na última década. Ao longo dos tempos, há alguma característica constante do metal em Portugal? Porquê? Além da tendência natural para algumas bandas nacionais explorarem aspectos da cultura portuguesa na nossa música (assim como o fazem os grupos de outros países relativamente às respectivas culturas), a labuta típica das bandas underground nacionais e a monumental evolução qualitativa que houve nos últimos anos parece-me serem os aspectos mais distintivos. Qual é o sub-género mais praticado? Porquê? Tens um pouco de tudo. Há bandas nacionais de Power, Industrial, Metalcore, Thrash, Death, Grind, Goth, Heavy…


no geral, quase todos os géneros estão representados, em maior ou menor grau – o que só abona a favor da diversidade praticada no nosso país em termos de música pesada. Que estilos fazem falta em Portugal? E os que ainda bem que cá não temos? Tenho pena que não haja mais bandas de Hard Rock, Heavy Metal clássico e bandas de metal neoclássico ao estilo dos grandes guitar-heroes. Por outro lado, não fazem cá falta subgéneros artificialmente criados visando simplesmente o comercialismo. Mesmo nesses subgéneros obviamente que há bandas com muito valor; no entanto, poucas são as que sobrevivem: acabam todas por soar ao mesmo. Por outro lado, não fazem falta aqueles subgéneros cuja categorização já é tão específica que se torna absolutamente ridícula, do género Mathcore. O que é que vem a seguir? Heavy Metal Played Inside a Fridge Under a Fullmoon in August? Qual foi para ti a década de ouro do metal português? Porquê? Por definição e aceitação universal, a época de ouro do Metal a nível mundial foram os anos 80. Ponto. Mas como gosto sempre de colocar os olhos no futuro, acho que a década de ouro do Metal Português será aquela em que finalmente muitas mais bandas nacionais obtiverem inequívoco reconhecimento internacional e a nossa cena passe a ter a importância da finlandesa, por exemplo. Nessa altura poderemos falar de uma época dourada do nosso Metal.

“Tenho pena que não haja mais bandas de Hard Rock, Heavy Metal clássico e bandas de metal neoclássico ao estilo dos grandes guitarheroes” Achas que o metal em Portugal goza de boa saúde? Porquê? Cada vez mais, como disse, nunca houve tantas bandas, tantos músicos de qualidade, um grau de profissionalismo tão exacerbado e um potencial tão grande para conquistar o mercado internacional em grande escala. Temos as ferramentas, mas ainda não temos os meios para o conseguir. O underground está muito mais desenvolvido; há muito mais plataformas e ferramentas de comunicação, divulgação e promoção; no entanto, – como em tudo na vida – também há mais competitividade (o que é muito bom) e cinismo (o que já não é tão bom). Apenas temos que aprender a lidar da melhor forma com essa realidade. Entrevista: Renato Conteiro Fotos de Hobnob, Hosann e Complexo gentilmente cedidas por Luís Miguéns


Prog em gestação Historicamente uma das regiões mais férteis em música extrema de qualidade, a Polónia tem sido berço também de uma nova geração de bandas de rock/metal progressivo, sendo os Qube um desses nomes emergentes. Depois de um primeiro disco auto financiado e de distribuição limitada, a formação de Lublin teve em Janeiro passado o seu primeiro lançamento internacional, com o álbum «Incubate». O baterista Pawel Gajewski fez as honras de apresentação do colectivo à Versus Magazine. Além das evidentes influências de metal progressivo, a música dos Qube parece incorporar também elementos de outros géneros. Em poucas palavras, como é que descreves a vossa música? Que artistas são, para vocês, fonte de maior inspiração? Pawel Gajewski: Sim, a nossa música não pode ser descrita usando apenas os parâmetros típicos do prog metal uma vez que combinamos as preferências de cada um dos membros da banda, as quais, por sua vez, são inspiradas por artistas e bandas diferentes. O que nos une é basicamente o desejo de fazer música sem fronteiras definidas. O processo criativo é sempre muito intensivo, e o que resulta é sempre o que vai colectivamente nos nossos corações. O principal é mantermo-nos todos envolvidos nesse processo. Os artistas que nos inspiram vão desde bandas como os Dream Theater, Liquid Tension Experiment e Tool, a Vangelis e a quartetos de Jazz, passando pelos Machine Head, Joe Satriani, Trivium, Steve Smith, Victor Wooten, Placebo e Pantera.

ambos os álbuns com a mesma formação? Sim, os dois álbuns foram gravados com o mesmo lineup. O que constitui a maior diferença é o facto de uma parte do «Shapes» ter sido escrito antes de 2006, sendo que só algumas canções reflectem a inspiração das cinco pessoas da banda. Aliás, até é fácil reconhecer neste álbum quais são os temas mais antigos. Por outro lado, o «Incubate» foi todo ele fruto da inspiração dos cinco músicos, sendo um álbum que representa bem os objectivos actuais dos Qube. Entre os dois discos penso que crescemos individualmente como músicos, e, ao mesmo tempo, aprendemos a fazer melhores canções que funcionam bem como um todo.

O álbum «Incubate» está disponível na Polónia desde Junho de 2010. Que reacções tem suscitado? O feedback da imprensa tem sido melhor do que no caso do «Shapes»? Foi de encontro às vossas expectativas? É difícil dizer se satisfez as nossas expectativas. A questão é que as nossas ambições e correspondentes expectativas estão sempre em ascensão. O «Incubate» Na tua opinião, quais são as maiores diferenças entre regista o melhor que nos foi possível fazer como banda «Incubate» e o álbum anterior, «Shapes»? Gravaram até ao momento da sua gravação, sendo no entanto um


“… «Incubate» […] representa bem os objectivos actuais dos Qube” disco que representa um pequeno passo na procura da perfeição – algo que é inalcançável. Mas a resposta dos media, tanto nacional como estrangeira, saldouse como bastante boa. Apesar de ser um disco pouco radio-friendly (devido à longa duração das faixas), algumas estações de rádio mostraram-se interessadas em fazer o seu airplay, o que para nós foi bastante encorajador. As reacções que colhemos directamente dos fãs também nos deixaram muito satisfeitos. O feedback em relação ao «Shapes» não é comparável dado que este primeiro álbum não chegou a ser lançado no mercado; éramos nós que o vendíamos nos concertos.

Eu diria que o tópico principal do álbum é a vida em todas as suas formas. Todos os problemas, desilusões, prazeres, amor, fúria, abuso de drogas, fé em deus e falta dela. À primeira vista as letras não são assim muito positivas, mas a conclusão a tirar é que mesmo as experiências difíceis podem tornar-nos mais fortes e preparar-nos para os desafios do futuro.

Reparei que o tema “In the name of god” é sobre o lamentável assassínio do jornalista Daniel Pearl, em 2002, no Paquistão. O que é que vos motivou a escrever sobre este caso? Sim é verdade, e a sequência de abertura dessa canção Fala-me um pouco sobre este novo álbum. Será que foi retirada do filme “Mighty heart”, que retrata a luta existe algum tema comum a todas as canções, ou levada a cabo pela esposa do Daniel Pearl. Duma forma cada uma delas é sobre um tema diferente? mais geral, o “In the name of god” é sobre a influência


da religião na humanidade. Quando os mandamentos religiosos são, ou mal interpretados ou levados demasiado a sério, então a religião pode tornar-se numa má influência. Mas de facto a canção não é apenas sobre religião; é também sobre conflitos motivados pela religião, sobre os problemas da diversidade cultural e da ignorância relativamente às raízes culturais das sociedades. O caso infeliz do Daniel Pearl é ilustrativo do extremo a que o fanatismo pode chegar quando alguém considera que a redenção e a felicidade infinita se alcançam através do assassínio. O problema reside todo na interpretação dos textos sagrados. O Corão não incita ninguém a lutar e a matar em nome de Deus. O que lá está escrito são basicamente linhas gerais de boa conduta, as quais se aplicam quer sejas um Muçulmano, um Cristão ou um Budista. Tal como no Corão, também na Bíblia é possível encontrar fragmentos que parecem encorajar os crentes a matar os infiéis. O significado dos versículos pode ser facilmente distorcido em função das crenças dos leitores, e isso é usado para manipular as mentes das massas menos cultas que seguem cegamente as palavras dos líderes religiosos. A conclusão é que é necessário, antes de mais, compreender antes de julgar.

um projecto de rap no mercado polaco. O que esperas deste lançamento dos Qube no mercado europeu? Uma estreia ao vivo além fronteiras, ou será que vocês já tocaram alguma vez fora da Polónia? Sim, tocamos na Hungria e na Suiça. E esperamos agora vir a tocar no estrangeiro tanto quanto nos for possível. Tocar ao vivo é mesmo fantástico; para nós é muito importante partilhar toda esta energia e toda esta paixão pela música, ao vivo, com os fãs. A Polónia é muito mais conhecida pela sua cena extrema do que pelas bandas prog. Será esta percepção resultado de alguma distorção da realidade, ou a cena progressiva é de facto relativamente reduzida? O mercado polaco de metal e rock é incrivelmente grande e diverso. O problema está na sociedade e no meio musical, muito baseada no poder monetário e nas ligações influentes. É muito difícil para uma banda sair do anonimato e ver o seu trabalho publicado. Apesar de pequena, a Electrum Production é uma editora que se rege por valores éticos sólidos, e é a isso que deve o seu sucesso. Aqui a cena progressiva é bastante activa e os fãs do género tem até uma oferta considerável em termos de bandas. Se te interessas por prog recomendo-te, por exemplo, Quidam, Terminal (gravaram com o Virgil Donnati), Disperse e, claro, os Qube. Obrigado pela entrevista. Metal up your ass!

Estão satisfeitos com o trabalho efectuado com os Qube pela Electrum Production? Que tipo de editora é esta? Sim, estamos muito contentes com esta colaboração. O nosso álbum está agora disponível na Europa ocidental o que nos deixa muito orgulhosos. A Electrum tem-se dedicado a lançamentos nas áreas do metal e Entrevista: Ernesto Martins do prog rock mas por acaso até lançou recentemente


Técnica e sensibilidade Márcio Falchet é um daqueles virtuosos que nos faz recuar ao período áureo dos guitar heroes. Depois de uma breve passagem por alguns grupos de rock e blues, este guitarrista brasileiro iniciou, em 2001, a sua carreira a solo com a gravação de um álbum que viria a colher rasgados elogios da crítica. Tinha, na altura, 22 anos de idade. Dez anos depois, e já com um percurso paralelo estabelecido como produtor e instrutor em múltiplos ramos da música, Falchet acaba de regressar aos discos, primeiro com a reedição do seu primeiro álbum e, muito em breve, com o novo de originais, «In Your Life». Numa conversa descontraída, o guitarrista de São Paulo falou à Versus Magazine sobre estes dois álbuns, as suas influências e a paixão pela música que faz.


“…na guitarra gosto de ouvir John Lennon, George Harrison, Blackmore, Malmsteen e Satriani” Este álbum foi gravado há cerca de dez anos e trata-se portanto duma reedição. Porque razão decidiste voltar a editá-lo? Márcio Falchet: Estaremos relançando o primeiro disco junto ou na mesma sequência do lançamento do 2º CD solo. E já tenho um terceiro disco a caminho. Relançar será bom, pois com uma gravadora poderemos divulgar melhor o trabalho dado que até agora foi tudo feito de forma independente. A tua música é fantástica; acho que revela influências de vários virtuosos da guitarra. Que outros músicos tiveram influência em ti como compositor e no desenvolvimento da tua técnica como guitarrista? Eu gosto de ouvir compositores “clássicos”: Bach, Beethoven, Paganini, Chopin, etc. bem como bandas como os Beatles. Já na guitarra gosto de ouvir John Lennon, George Harrison, Blackmore, Malmsteen e Satriani. Cresci ouvindo muita música clássica/erudita e Beatles. Gosto muito também do chorinho feito no Brasil, como por exemplo Waldir Azevedo. Sendo quase todas as faixas presentes neste álbum peças instrumentais, gostava de saber como é que fizeste para atribuir estes nomes aos temas.

Por exemplo, porque é que chamaste à faixa 2 “Mystery”? E na faixa 9, de onde surgiu o nome “Enigmatic star”? Em geral como é que inventas o nome dos temas? O nome das músicas surgiu naturalmente do meu dia a dia. No primeiro CD solo todas as faixas remetem a temáticas de ficção científica sobre as quais gosto muito de ler e assistir na TV. “Mystery” (Mistério) é sobre o mistério da vida, sobre o mistério do universo, dos planetas e constelações; já a “Enigmatic star” é sobre olhar para as estrelas e imaginar o que deve existir por lá. Enfim… é algo que surgiu de forma natural. Já em “Megaportal”, por exemplo, imaginei portais no universo que nos levam para lugares distantes e com luz. Fiz também uma música, “Father”, em homenagem ao meu pai. Presumo que o segundo álbum já esteja gravado. O que me podes dizer sobre ele? Tens editora ou será novamente uma edição independente? Sim, já tenho esse álbum pronto há algum tempo. O nome do álbum será «In Your Life» e pretendo lançá-lo por alguma gravadora para ter mais divulgação. No momento estamos procurando por gravadoras para lançar este novo trabalho, e algumas gravadoras já estão em negociação com meus empresários. Para cantar as músicas chamei


“Com uma nota você pode tocar Blues, Heavy Metal, Hard Rock ou música Neoclássica” o Göran Edman e ele estará na minha banda para fazer os shows deste CD. Este disco tem os temas novamente do dia a dia, com pitadas de ficção científica também, e assuntos religiosos ou espirituais, sobre o amor, sobre a vida, etc. Procurei fazer letras/temas que trouxessem algo de positivo para as pessoas no dia a dia, daí o título «In Your Life». Assino a produção musical e todos os arranjos do álbum; fiz todas as músicas e em algumas letras fiz algumas parcerias. Enquanto o 1º álbum é constituído essencialmente por temas instrumentais, o 2º só inclui dois instrumentais (num total de 14 temas). Por que decidiste fazer desta vez um álbum mais cantado? Meu novo disco é mais melódico, com hard rock e com heavy metal também, e algumas surpresas. Fiz mais músicas cantadas com o objectivo de levar mensagens positivas para as pessoas através das letras. Mas procurei manter o instrumental, com duas músicas neste álbum. No entanto a música “Peace to the world” que é cantada, tem um solo bem longo, sendo portanto um tema com uma boa parte instrumental. Que importância na tua vida pessoal e profissional tem esta faceta de músico a solo? É algo em que depositas muita ambição e que pretendes desenvolver mais no futuro? Ser um músico solo surgiu de forma natural pois nas bandas em que participei eu compunha as músicas, fazia os arranjos, coordenava os ensaios, etc. Na época que fiz o 1º CD solo já estava sem banda nenhuma, por minha própria opção, e então me dediquei exclusivamente ao meu disco e ao mesmo tempo em ensinar música aqui no Brasil através do meu método de ensino. Este é um método que eu já havia iniciado há alguns anos, pois ensino música desde muito novo. Tenho muitas músicas feitas para discos futuros e pretendo continuar a carreira a solo, mas poderia entrar em alguma banda desde que fosse um projecto viável e interessante. Para além do teu lado de músico a solo, sei que tens outras actividades relacionadas com o mundo da música. Fala-nos um pouco sobre isso. Aqui no Brasil eu ensino música para brasileiros e

para muitos estrangeiros que vem ao país, e para muitos músicos profissionais que também estão no mercado. Ensino guitarra, violão clássico e popular, produção musical, arranjos, teoria musical, história da música, etc. em todos os estilos de música: rock, blues, fusion, country, clássico, jazz, mpb, chorinho, etc. A música tem áreas muito abrangentes e o facto de ensinar, faz com que eu esteja sempre me actualizando na música. Actualmente qual é a tua relação com o heavy metal? Consideras-te um metalhead? Fala-me um pouco das tuas preferências. Eu gosto de todos os estilos de música, pois para mim a música é uma só. Com uma nota você pode tocar Blues, Heavy Metal, Hard Rock ou Música Neoclássica. Como ensino música aqui no Brasil, tenho a mente aberta para ensinar todos os estilos. Penso somente nas estruturas da música e tudo que a envolve. Com relação especificamente ao Metal e Hard Rock, gosto de ouvir as bandas “clássicas” destes géneros, desde Black Sabbath a Metallica, Megadeth, Iron Maiden e muitas outras. Em termos de Hard Rock gosto de Motley Crue, Skid Row, Guns and Roses, etc. Mas eu ouço de tudo, pois em todos os estilos musicais você encontra boa música. Gostaria de deixar aqui meus agradecimentos a você, Ernesto, à Versus Magazine e ao público que acompanha o trabalho da revista, pela oportunidade de poder divulgar meu trabalho em Portugal. Em breve estarei na Europa fazendo os shows do 2º CD solo. E para mais informações sobre meu trabalho, é só aceder www.marciofalchet.net ou www.myspace.com/marciofalchet. Muito obrigado! Entrevista: Ernesto Martins


(In)findável Coesão Os Devil In Me regressam com o terceiro álbum, «The End», após o seu último lançamento, em 2007. Num período de dois anos, juntaram ao currículo actuações com grandes nomes internacionais como Napalm Death, No Turning Back, entre outros. Conversamos com o Pedro Pedreiro, guitarrista da banda, para nos falar deste percurso de seis anos.


Prepararam um tour Europeia com Madball, Trapped Under Ice, Born From Pain, etc. Como é para vocês a hipótese de partilharem o palco com estas bandas? Suponho que seja fundamentalmente uma oportunidade para divulgar o vosso «The End». Como estão as expectativas? Pedro Pedreiro: As expectativas são altíssimas, claro. É o target dos Madball e das outras grandes bandas que vão, por isso espera-se casa cheia. O que significa para nós, mais exposição. Obviamente esta tour será essencialmente promocional para o novo disco. Mas se formos ver bem, para quem nos está a ver pela primeira vez, pouco interessa se está a ouvir uma música nova ou velha, desde que seja boa e cative a atenção.

O que se pode esperar das vossas actuações? Muita energia... uma grande descarga! Há muitas coisas boas a acontecer. Apesar do tema do disco ser pesado e triste, sempre conseguimos transmitir boa disposição em palco e é o que vai continuar a acontecer. Para 2011 as novidades não se fizeram esperar, entre elas a realização de um novo vídeo, fazer passar uma imagem clara de como a banda faz parte dos vossos valores? Os vídeos sempre desempenharam um papel muito importante no underground. Foi através deles que quando éramos miúdos, víamos as roupas que eles usavam e queríamos umas iguais.


“…estamos aqui para representar esse estilo de vida, seja a falar sobre o fim do mundo, seja a falar sobre amizade e amor...” Foi através dos vídeos que, antes de podermos ver a banda ao vivo, conseguimos juntar uma cara à voz que tão bem conhecíamos. Penso que mais do que isso, a parte visual é um meio de comunicação importantíssimo para as bandas. Conseguimos mais facilmente espalhar a palavra e “explicar” muitas vezes o que é que as letras querem dizer, deslindando assim as segundas interpretações.

O que esperam vocês do futuro? Pretendem continuar no género que optaram inicialmente ou há hipótese de haver alguma mudança no estilo? Vamos ver onde a nossa criatividade nos leva. Há que manter em mente que somos uma banda de hardcore e estamos aqui para representar esse estilo de vida, seja a falar sobre o fim do mundo, seja a falar sobre amizade e amor...

Como tem sido as reacções ao «The End»? Sentem alguma diferença entre a receptividade nacional e a internacional? Sim, claro. A receptividade nacional tem sido muito boa. A internacional, até agora, tem sido... mais moderada claro, mas também boa, essencialmente acima da procura que tivemos com o «Brothers is Arms».

«The End» reúne doze faixas onde é transparente a intensidade constante. Sendo o titulo do álbum o nome de uma das respectivas faixas, assumem como o fim de uma etapa por isso a decisão do titulo do álbum? Pode ser o fim da banda... pode ser o fim de uma etapa... pode ser o fim do mundo a acabar, pode ser uma infinidade de coisas... sempre quisemos deixar essa resposta em aberto. Ninguém sabe o dia de amanha. Só sabemos que tudo chega a um fim.

Neste momento estão assentes num estilo Hardcore punk. Foi consensual esta escolha? Não escolhemos. A música “aconteceu”. Não escolhemos se nos íamos debruçar mais para o rock ou mais para o metal ou mais para o Hardcore clássico. Aconteceu... e depois reunimos as músicas que tínhamos no bolso, seleccionamos as que tinham mais a ver umas com as outras (não por estilo), e fez-se «The End». Sabendo que a vossa estreia foi com Black Friday 29, como recordam essa actuação, além de terem o gozo de partilharem o palco com a banda alemã? Foi memorável, porque de facto foi a apresentação da banda (antes chamada Lockdown). Já muita gente tinha ouvido a demo, mas a banda ainda não tinha tocado, aliás como era suposto inicialmente. Então havia muitas expectativas, que penso que foram satisfeitas logo nesse primeiro concerto. O facto de ter sido com BF29 só ajudou claro. A banda é muito boa e chama muito pessoal. Juntou-se o útil ao agradável. Tocamos para uma carrada de gente e ao mesmo tempo tocamos com uma banda de que gostamos imenso.

Entrevista: Inumater


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A FOREST OF STARS «Opportunistic Thieves of Spring» (2011 / Lupus Lounge / Prophecy Productions) Publicado originalmente em meados de 2010, mas apenas do outro lado do Atlântico, chega-nos agora às mãos este brilhante segundo opus dos A Forest of Stars, um álbum que podemos arriscar descrever como uma fusão muito particular de estéticas doom e black metal, com uma grande variedade de aspectos ambientais, psicadélicos e sinfónicos. As composições são todas longas (entre 8 e 16’), desenvolvendo-se lenta e gradualmente entre passagens ritualistas de violino, flauta (ambos executados pela ex-My Dying Bride, Kati Stone) e piano, e segmentos avassaladores de riffs minimalistas e repetitivos de efeito hipnótico. Tirando a peça de abertura, “Sorrow’s impetus”, que é ao mesmo tempo a mais violenta e sombria e a menos interessante, tudo neste disco é grandioso e genial. O vocalista, Mr Curse, tem aqui uma performance impressionante que sobressai na sonoridade geral. Cada frase é pronunciada com uma postura quase teatral; uma convicção torturada que é particularmente notável no doomy “Summertide’s approach”, talvez pela forma como a cadência do ritmo base enfatiza as linhas vocais proferidas. Conquanto preserve o carácter estranho e oculto presente em «The Corpse of Rebirth», o disco anterior, este é, em média, um álbum bem mais fácil de assimilar, com música mais dinâmica e temas mais variados entre si – um trabalho melhor em todos os aspectos. Numa cena saturada de bandas sem imaginação, lá surge uma de vez em quando com o condão de induzir aquele raro arrepio na espinha que só acontece com as obras de excepção. Esta é uma delas. [9/10] Ernesto Martins


mente apoiados por um riff de baixo muito groove. “Faces” é instrumental e deixa transparecer todo o potencial da banda e por último “Bonds of Fear”, ora instrumental poderoso, ora voz emocional. Resumindo, não é qualquer banda que lança, assim, um álbum de estreia. [9/10] Eduardo Ramalhadeiro ACUTE MIND «Acute Mind» (2011 / Electrum Production) Num estilo onde cada vez é mais difícil sobressair pela diferença e excelência, os Acute Mind (AM) conseguem-no fazer logo no seu álbum de estreia mas… somente na excelência. Apesar deste álbum não trazer nada de novo é, no entanto, superiormente interpretado. Os AM são oriundos da Polónia e formaram-se pelas mãos de Arek Piskorek e Pawel Ciuraj, tocando um Rock/Metal Progressivo melódico (há quem lhe chame Neo-Prog) muito ao estilo dos também polacos Riverside. Este lançamento surge após várias mudanças no seio da banda e da assinatura de um contrato pela independente Electrum Production. Este é, certamente, um dos álbuns de estreia que mais me surpreendeu, pela produção, técnica e maturidade demonstradas. Os dois singles de estreia – “Misery” e “Bad Incitements”, são os melhores temas do álbum, com especial destaque para o primeiro tema citado. Uma balada bem tocada, espiritual, calma que se destaca dos restantes temas. Os músicos são muito bons tecnicamente, coesos, não se destacando nenhum em particular. O estilo, tipo e timbre de voz encaixa na perfeição no estilo tocado. Por fim, além dos dois temas já citados, destaco “Sweet Smell of Success” um dos temas mais progressivos do álbum, técnico e melódico – excelente interacção entre guitarras e teclas, superior-

medida devido a uma composição pobre, uma dinâmica reduzida, um som demasiado cru e mecanizado, e um trabalho quase inexistente de guitarra solo. O resultado final redunda numa salgalhada muito insípida que acaba por deixar para trás pouco mais do que uma sensação de indiferença. E o que é mais surpreendente é que semelhante estreia sofrível não nos chega das mãos de principiantes, mas de músicos competentes e supostos artistas com créditos firmados como sejam o ex-Keep of Kalessin Øyvind Winther (guit.) e o ex-baterista dos Belphegor, Jan “Blastphemer”. Enfim, há coisas que não deviam acontecer. [6/10] Ernesto Martins

ANTARES PREDATOR «Twilight of the Apocalypse» (2010 / Battlegod Productions) Poucas bandas se podem gabar de apresentar um álbum tão variado em termos de estilos e influências como os Antares Predator. Entre doses mortíferas de blast beats, riffs galopantes e curtos segmentos sinfónicos de metais, o colectivo norueguês desfia aqui malhas thrash a puxar para o death metal mais técnico, momentos de black metal que soam umas vezes a Dimmu Borgir, outras a Satyricon e outras ainda a Emperor. Quando a coisa fica mesmo preta, como acontece no esmagador «Mark 13» que rola a umas alucinantes 260bpm, aí as referências óbvias apontam para Marduk ou Dark Funeral. Portanto já se está a mesmo ver: o disco tem inegavelmente os seus momentos, mas encosta-se despudoradamente a tudo e mais alguma coisa. As orquestrações sampladas, bem colocadas, e o trabalho rítmico criativo, acabam por constituir os elementos mais atractivos. Contudo, «Twilight of the Apocalypse» acaba por não funcionar, em grande

ARTAS «Riotology» (2010 / Napalm Records) Com apenas cinco anos de carreira e pouco mais de dois anos após o lançamento do seu álbum de estreia, «Riotology» chega para continuar o caminho já traçado pelo seu antecessor. Numa onda de metal moderno, este álbum começa sendo agradável ao ouvido e desvenda desde cedo o que os Artas sabem fazer de melhor. De realçar encontramos as faixas “Rassenhass”, cantada em alemão, com uma enorme diversidade melódica dentro de si mesma, passando por momentos mais misteriosos ao início, e até mesmo algumas partes mais calmas, sempre demonstrando uma


certa maestria instrumental e vocal; e “Ashes of failure” que inicia calmamente mas contrasta com a força poderosa das batidas de bateria e guitarradas elétricas, tornando esta faixa num carrossel de calma e fúria. As mudanças de faixas estão organizadas de maneira tão subtil que é necessária uma certa atenção para nos apercebermos delas, no entanto este fator pode contribuir para um certo sentimento de monotonia dentro das próprias faixas, uma vez que já de si são um pouco extensas. A sonoridade deste álbum pode ser considerada agressiva mas melodiosa sempre a contar com vozes limpas e gritadas, tanto agudas como mais guturais, e ainda um bom leque instrumental. Uma grande mais-valia em termos líricos é o multilinguismo das letras, mostrando que a boa música não é apenas cantada em inglês e, neste caso, as línguas alemã, espanhola e francesa dão um ar da sua graça. [8/10] Daniel Guerreiro

ATHEIST «Jupiter» (2010 / Season of Mist) Para uma banda lendária como os Atheist – que lançou, no início dos 90s, através de três álbuns incontornáveis, as sementes do chamado death metal progressivo, vindo a desaparecer logo a seguir – um disco de regresso só podia ser esperado com grande ansiedade. Estaria o colectivo da Florida a congeminar, dezassete anos depois, algo comparável a uma obra-pri-

ma como «Elements»? Agora que o facto está consumado, a resposta é, definitivamente, não. Contudo, «Jupiter» não deixa de ser um álbum distintamente Atheist: muito daquilo que sempre fascinou os entusiastas da banda, designadamente a proficiência técnica com que debitam riffs enviesados, transições nervosas e leads alucinantes em composições muito complexas – tudo continua aqui presente. Algumas passagens chegam mesmo a invocar o extraordinário «Unquestionable Presence». Kelly Shaefer mantém o seu jeito thrashy e obnóxio de esfarrapador de cordas vocais (além de excelente letrista), enquanto o outro membro da formação original, o baterista Steve Flynn, volta a presentear-nos com uma exibição de cair o queixo que monopoliza todas as atenções. Assim, os fãs têm aqui, pelo menos o essencial para não se sentirem defraudados. No entanto também é verdade que este novo registo não tem a mística nem a qualidade absolutamente orgásmica dos dois álbuns anteriores. Alguns temas soam demasiado desconjuntados e insípidos para conseguirem prender o ouvinte, mesmo depois de alguma insistência. Porém, se observado apenas na justa perspectiva do death/thrash metal técnico que tem sido produzido nos últimos anos, este é sem dúvida um disco ao nível do melhor do género. [8.5/10] Ernesto Martins

AVA INFERI «Onyx» (2011 / Season of Mist) Projecto maior de Rune Erikson, os Ava Inferi têm vindo pouco a pouco a impor-se num estilo que só eles sabem fazer: o gothic doom metal. Apesar de «Onyx» ser já o quarto álbum da banda, é o primeiro de uma nova etapa, apresentando-se este musicalmente mais coeso e maduro do que os seus predecessores, com músicas que o projectam para outro nível. Tudo em «Onyx» emana subtileza e um extremo cuidado e precisão, como que um relojoeiro de alta relojoaria suíça, fazendo com que cada música encaixe na seguinte, engrenando-se musicalmente e fazendo o álbum funcionar na perfeição e sem esforço. Cada música apresenta um ritmo e envolvência própria que talham «Onyx» com alma. Não quero aqui dizer que foi mão directa de Dan Swano (mixing e mastering), mas sem dúvida que o toque especial que «Onyx» tem, foi obra dele. Desta vez não temos a Cármen a cantar em Português, nem qualquer resquício de fado. Ao invés, temos a novidade de ouvir Rune a cantar juntamente com Cármen em “The living end”, uma experiência muito interessante, que fez sobressair esta musica das restantes em «Onyx», a par talvez da faixa título, possivelmente a mais completa e ideal para abrir o álbum, e «By candlelight & mirrors», a mais ritmada. Os Ava Inferi conseguiram lançar um álbum que permite destacarem-se dos seus restantes pares e projectá-los mais além, com uma música que os molda e caracteriza ainda mais no género mãe, o gothic metal. [9/10] Carlos Filipe


soam demasiados dejá-vu, mesmo com um álbum bem conseguido, repleto de garra e cheio de bons momentos de Epic Fantasy Metal inspirados em Tolkien. [7.5/10] Carlos filipe

BATTLELORE «Doombound» (2011 / Napalm Records) As primeiras impressões que saltam do novo Battlelore são positivas. Sobressai uma diferença para melhor relativamente aos anteriores álbuns, mostrando que a banda de Lappeenranta está mais madura e refinada. «Doombound» apresenta-se como um álbum que traçará uma linha entre o presente e o passado, o álbum da transformação. A sonoridade Battlelore mantém-se – sempre guiada pelo dueto Kaisa & Tomi – mas numa toada mais descaracterizada e mainstream. Este Battleore faz-me lembrar o que se sucedeu com os Amorphis, alias, por vezes «Doombound» faz-me lembrar os próprios Amorphis da fase actual... como em “Kamessuna”. “Bloodstained” dá o mote e “Iron of death” – uma das mais interessantes do álbum – cimenta completamente «Doombound» - e que melhor define estes Finlandeses. O finlandês reina em “Kamessuma” de forma eficiente, tornando esta outra das melhores músicas. Também a ouvir é “Enchanted”, uma música semi-acústica, onde Kaisa confirma toda a sua qualidade, e os Battlelore confirmam porque são a banda que são neste género. «Doombound» coloca uma pedra sobre o legado Battlelore e abre a veia para o futuro. É pena que tenham perdido alguma identidade conseguida até então. Os Battlelore de «Doombound»

O distanciamento do passado é bastante claro (dizem por aí que a sonoridade se parece com o trabalho de 1993, «Det Som Engang Var» – não fiquem com este pré-conceito e libertem os ouvidos com «Fallen») – mais uma vez não esperem um «Filosofem» ou um «Hvis Lyset Tar Oss». «Fallen» é o seguimento lógico de «Belus», com a certeza de que também é algo novo. Mas, liricamente aproxima-se do álbum de estreia embora a mitologia de «Belus» esteja presente. [8.5/10] Victor Hugo

BURZUM «Fallen» (2011 / Byelobog Productions) Precisamente um ano após a saída do álbum «Belus», Mr. Varg Vikernes não perde tempo e lança «Fallen», um novo trabalho que decerto está a criar expectativas no seio dos fãs de black metal a sério. Começando pela capa do álbum (que merece destaque), uma reprodução do quadro “Elegy”, do francês Adolphe-William Bouguereau (e que pode dar um avanço à digestão do álbum), destaca-se também a produção. Se «Belus» era caracterizado pela sua pureza, sem grandes “engraxadelas e polidelas”, já o seu sucessor tem uns toques de produção que tonificaram o som, embora se distancie das produções do metal actual. Os temas seguem o legado do seu antecessor: riffs ora rápidos ora lentos, por vezes hipnóticos pela sua duração (“Valen”); a voz de Varg é idêntica, mas nota-se o recurso à melodia e à voz limpa, ora cantada ora falada – havendo espaço para gritos e berros aterradores – dando um toque mais épico à sua música. Destaque para o último tema, “Til hel og tilbake igjen”: um ritual caracterizado por percussão e sussurros.

DARKEST HOUR «The Human Romance» (2011 / Century Media) Sétimo álbum dos Americanos Darkest Hour (DH) que contam já com época e meia no activo. Como todas as bandas, tiveram os seus altos e baixos e com «The Human Romance» conseguem um excelente lançamento de death/ thrash metal bem melódico. Produzido por Peter Wichers (Soilwork) este álbum representa um passo em frente na carreira dos DH e o som foi levado a um novo limite. As influências do típico death metal melódico Sueco estão muito presentes, nomeadamente, Dark Tranquility e In Flames, “salpicadas” com alguns temas e riffs puramente thrash. Para quem estava habituado ao antigo material este lançamento constitui uma lufada de ar fresco. A voz de John Henry surge poderosa, mesmo no


limite do que considero audível e aceitável – gosto pessoal (Não é tão grave, profunda e poderosa como a de Chuck Billy mas também, não é a típica voz de metalcore.) No que aos músicos diz respeito, são muito competentes e a produção, sem ser uma referência, cumpre muito bem. Os temas são poderosos e destaco desde já, “Terra solaris” um instrumental com quase nove minutos, por ser diferente de todos os outros. “Your every day disaster”, “Violent by nature” e “Man & swine” destacam-se por serem os temas mais brutais do álbum – 100% thrash. Todas as outras, com excepção do instrumental, são muito típicas do DM Sueco, com um toque de melancolia – “Wound” ou “Love as a weapon”. «The Human Romance» não é original nem traz nada de novo mas não deixa de ser um álbum excelentemente interpretado e um dos melhores lançamentos dos DH. [7.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

DEATH «The Sound of Perseverance» (2011 / Relapse Records) Se houvesse um Olimpo da música, certamente, «The Sound of Preserverance» (TSoP) teria um lugar cativo. O death metal (DM) (e todas as bandas do género) devem muito a Chuck Schuldiner. (CS) Menos extremo e muito mais melódico que «Symbolic» é para este mui humilde escritor de reviews superior.

Porquê? Talvez por ter sido o primeiro álbum dos Death a ser devorado vezes sem conta ou talvez por ter sido o último gravado em estúdio. «Symbolic» foi o último degrau para a (quase) perfeição que foi (é e continuará a ser) TSoP. O problema destas reviews é que tudo o que possamos dizer é pouco e sendo assim, vou tentar resumir a (quase) perfeição nestas poucas linhas. É inegável a superior qualidade de CS como guitarrista e compositor, sendo um Mestre em combinar a técnica, harmonia, brutalidade e melodia. Por isso, considero que podemos resumir TSoP na (quase) perfeita interligação destes 4 “ingredientes”. Este é sem dúvida, o álbum dos Death melhor produzido (Jim Morris e CS) intocável e sem falhas e isto leva-nos, de seguida, aos músicos e à interpretação. Todos, sem excepção, são músicos fenomenais. No entanto, tenho que destacar o trabalho de bateria a cargo de Richard Christy, um dos bateristas mais esquecidos de entre os que constituíram os anteriores line-up’s: Hoglan ou Reiner. Sem razão, pois o trabalho desenvolvido é soberbo – uma referência! As linhas de baixo são complexas e extremamente bem tocadas e não estão no álbum “porque sim”. Sobressaem a cada nota tocada – trabalho de produção fantástico. Shannon Hamm (SH) complementa na perfeição a música de CS e só um virtuoso da guitarra está altura de tal tarefa. Todas as músicas estão ao mesmo nível, no entanto, destaco “Voice of the soul” - (O porquê, deixo para vocês ouvirem…) Esta edição vem re-masterizada e devido às novas tecnologias tem um som ainda superior ao original. Nela são incluídos mais

dois CD’s com diversas demos onde podemos ouvir diversos temas sem baixo, instrumentais e SH ou Paul Payne na voz. Mesmo assim, uma mais-valia para este lançamento. Para muitos não é considerado o melhor álbum dos Death devido à sua “excessiva melodia”, nem tão pouco um álbum de DM mas para mim, será sempre um álbum emotivo e o melhor álbum jamais feito na história do DM. Para “devorar” e no fim agradecer ao génio que foi CS e ao legado que por ele foi deixado. “Support music, not rumors” - Chuck Schuldiner (13/05/67 - 13/12/01) [10/10] Eduardo Ramalhadeiro

DEICIDE «To Hell with God» (2011 / Century Media) Quem já conhece desde há muito as blasfemidades deste grupo de veteranos do death metal, de certeza que não se irá ofender com o título do álbum e muito menos com os das músicas. Afinal, que mal faz deturpar um deus que foi desvirtuado por tantas personalidades históricas, ditas cristãs, em prol do seu bel-prazer, ganância e poder? Cansaços e indecências à parte, todos sabem que a religião não é um assunto que mereça ênfase quando o mais importante é a qualidade da música. E sim, esta não foge muito às peculiaridades


que Deicide já demonstrou… apenas parecendo que a dissonância instrumental e a insanidade vocal estão ainda mais apuradas. A produção é tão refinada que este álbum se torna facilmente audível, podendo levar alguns a dizer que a banda procura ser mais vendável, mas que não é necessariamente mau se tivermos em conta os músicos em questão. Se alguns fanáticos dizem que alguns elementos abusadores podem retirar alguma da intensidade de trabalhos anteriores, não se pode dizer que demonstram uma composição algo desgastada, havendo talvez maior ênfase em outro patamar. Se tinham saudades de temas com ritmos acutilantes, vocais permissivos à podridão e solos extasiantes, oiçam este álbum. Aos mais jovens, que ainda não se aperceberam que esta banda de mais de vinte anos faz parte do leque de pioneiros do movimento mais abrasivo do género, esta poderá ser uma descoberta extremamente interessante. [9/10] Jorge Ribeiro de Castro

EASTERN FRONT «Blood on Snow» (2010 / Candlelight Records) São da Inglaterra, formaram-se em 2006 e praticam Black Metal, ou melhor – War Torn Black Metal. Isto porque o quinteto com o nome Eastern Front explora nas suas músicas temas referentes à

história da II Grande Guerra Mundial (os mais atentos poderiam suspeitar desse contexto apenas pelo sentido do nome da banda), mas de um ponto de vista muito pessoal. Apesar da banda contextualizar a sua música na II Guerra Mundial, não esperem encontrar semelhanças com os Hail of Bullets, nem esperem encontrar uma sonoridade tão rápida quanto a desta banda, nem blastbeats desumanos. Em «Blood On Snow» (produzido por Anders Backelin) podem encontrar, surpreendentemente, um Black Metal muito interessante, bem trabalhado e com detalhes que fazem este álbum desmarcar-se dos demais do género que por vezes não trazem nada de significativo ao género. O álbum abre com sons de guerra e um blastbeat de arrasar. A voz de Nagant parece ser expelida de uma caverna fria, mas por vezes o gutural assombra a sonoridade, e noutras o Doom transparece. As guitarras estão no ponto, e por vezes conseguem arrepiar com solos simples mas com feeling, ou com passagens ambientais chamando a atenção ao post. Mas também há espaço para alguns momentos acústicos – e é nesta variedade que «Blood On Snow» ganha pontos (até parece que estamos a ouvir um álbum de Black Metal dos anos 90). Por último destaco a música “Dvenadtzat Kilometrov Ot Moskvy”, que foi composta por Les Smith (Anathema) e Brian Moss (DFA) e que exala uma aura cinematográfica e dramática. [8.5/10] Victor Hugo

FALKENBACH «Tiurida» (2011 / Napalm Records) Com uma carreira de mais de duas décadas, o multi-instrumentista Vratyas Vakyas (também mentor da editora Skaldic Art) dá-nos a conhecer o seu quinto álbum, cujo título se traduz por “glória”. Uma vez mais, quatro músicos de sessão (Hagalaz - guitarra, Tyrann – gritos, Boltthorn – bateria e Albion - baixo) ajudaram-no a dar forma à sua inspiração. Talvez haja quem lamente ter esperado seis anos para um novo lançamento, desejando ouvir algo que transcendesse os álbuns anteriores, sobejamente reconhecidos pela qualidade e ambiências altivas. Isso, especialmente após o último álbum, «Heralding – The Fireblade», que contém algumas músicas que iriam ser editadas no que devia ser o primeiro do projecto, «The Fireblade», mas que não chegou a sair. No entanto, ao ouvir «Tiurida» descobre-se que este não peca por qualquer fraqueza pois as melodias são verdadeiras riquezas emocionais que nos elevam o espírito, as líricas sendo também uma continuação do conceito omnipresente em todos os lançamentos anteriores ou seja, sobre as culturas, tradições e cenários próprios da mitologia europeia. Assim, com esta edição Falkenbach delimita um glorioso lugar num estilo que pode ser designado por muitos como Folk/Black/Viking-Metal mas


cuja descrição tem menos interesse para o próprio mentor do projecto do que a música e as líricas. Bem, o que importa mesmo é que Falkenbach está de volta e a sua música continua deslumbrante! [8/10] Jorge Ribeiro de Castro

HAEIRESIS «Transparent Vibrant Shadows» (2011 / Inferna Profundus/ Neo:Torment/Frenteuropa Records) Projecto a solo com origem na Lituânia, propõe neste álbum de estreia um interessante concentrado de black metal que junta tendências convencionais a algum do melhor vanguardismo do estilo. No lado mais tradicional sobressaem as influências de Emperor e Mayhem, nas suas respectivas encarnações mais recentes. Depois há toda uma componente industrial e dark ambient com referências sónicas que apontam para nomes de relevo desses quadrantes, como Aborym e sobretudo The Axis of Perdition. Aliás, não será por acaso que o disco conta com a participação de Brooke Johnson, o mentor dos Axis, em metade dos temas. O carácter industrial deve-se essencialmente à excelente percussão caracteristicamente maquinal e ao registo distorcido de voz em jeito de andróide maléfico do multi-instrumentista S.B. que me faz recuar ao tempo dos nossos saudosos Thormenthor. A uma abor-

dagem já familiar de black metal a banda adiciona algumas mais-valias tais como padrões rítmicos complexos, acordes desarmónicos e linhas melódicas abstractas – tudo isto sem comprometer a estrutura das canções – o que faz desta uma proposta exigente e com o seu quê de refrescante. Com os melhores momentos guardados para o fim do disco na forma de faixas como “Surreale” e “Emptyroom”, «Transparent Vibrant Shadows» congrega todos os elementos para retratar com sucesso o ambiente frio e fantasmagórico de um asilo em ruínas (bem ilustrado no artwork), constituindo ao mesmo tempo uma experiência compensadora para quem procura alternativas mais futuristas nas vertentes extremas do metal. [8/10] Ernesto Martins

nematograficamente o álbum com majestosos arranjos orquestrais – Dimmu Borgir surgiu na minha mente, mas as distâncias são significativas (ainda bem). Salta logo aos ouvidos a produção fantástica (pelo Ricardo Dias e restante banda) e qualidade sonora – o álbum foi misturado pelo Kristian “Kohle” Kohlmannslehner (que também participa no álbum), que trabalhou com Crematory. Contudo (a parte que me faz torcer o nariz), nada de novo é representado neste álbum havendo bastantes clichés no seu todo. A novidade é arrojada, mas gostaria de ouvir estas músicas sem a orquestra. De resto, a melodia e os riffs à lá Heavenwood são presença e marcam a sua identidade. Destaque para a convidada na música “Leonor”, Miriam Renvåg, vocalista dos Ram-Zet. Um dos pontos altos do álbum é a música “Like Yesterday” – melodia com garra a sugerir, ironicamente, um ambiente à Crematory. Em suma, temos um bom trabalho dos Heavenwood, com detalhes interessantes mas que pode cair na mesmidade facilmente – falta um je ne sais quoi. Contudo, bastante melhor que qualquer “noite eterna”. [7.5/10] Victor Hugo

HEAVENWOOD «Abyss Masterpiece» (2011 / InsideOut) Um título ambicioso a sugerir um trabalho grandioso. Ei-lo, depois do masterpiece que foi o «Redemption», o novíssimo álbum dos Heavenwood. E eis a pergunta: será mesmo um grandioso trabalho? Dá-me vontade de escrever duas reviews. A 1ª do lado dos que não gostam, a 2ª do lado dos que gostam. Há momentos que realmente me agradam, mas há também aqueles que rejeito. A começar somos brindados pela surpresa: arranjos orquestrais e sinfónicos, por Dominic Joutsen. “The Arcadia Order” abre ci-

HELRUNAR «Sól» (2011 / Lupus Lounge / Prophecy Productions)


Pode não vir a figurar nas listas dos melhores álbuns do ano, mas é com certeza o disco mais marcante até agora na carreira ainda florescente dos Helrunar. Um trabalho monumental em dois CDs, que vê a formação alemã descolar finalmente dos estereótipos sónicos de origem norueguesa que moldaram algo excessivamente o cru e directo «Baldr ok Íss», para progredir agora de forma determinada na direcção de um black metal musicalmente mais maduro e bem mais interessante. Desde o início esmagador de “Kollapsar” até ao desfecho apoteótico da faixa-título, «Sól» mostra a dupla Skald Draugir/Alsvartr a apostar desta vez numa composição mais variada, profunda e atmosférica, com andamentos mais lentos, sem esquecer os já habituais interlúdios acústicos e introspectivos. A primeira parte, «Sól I», inclui o material mais abrasivo e violento, enquanto «Sól II» é marcado pelas peças mais moderadas e experimentais. É nesta segunda parte que se identificam algumas inflexões que remetem de imediato (e de maneira talvez demasiado óbvia) para os compatriotas Secrets of the Moon. A sonoridade, sinistra e avassaladora, saída das mãos de Markus Stock, é aqui um elemento fundamental sem o qual o disco não teria o mesmo impacto. De lamentar desta vez, e mais do que nunca, o idioma nativo da banda, que dificulta o acesso à dimensão lírica, aparentemente extraordinária, deste trabalho conceptual. No fim fica a clara convicção de estarmos perante um colectivo capaz de levar a sua música para além do paradigma convencional, sendo «Sól», sem dúvida, um passo de gigante nesse sentido. [8/10] Ernesto Martins

sua qualidade. Por outro lado, os pontos vão para a produção que está melhorada. Um bom álbum para terminar o Inverno – não o ouçam na Primavera nem no Verão porque correm o risco de perderem o encanto pela vida devido às energias opostas (ironia). [7/10] Victor Hugo

LIFELOVER «Sjukdom» (2011 / Prophecy Productions) Quem teve o deleite de experienciar a música destes suecos deve ter reparado na ironia do nome da banda, já que dela transparece um negrume arrebatador de onde se pode descortinar várias sensações – entre elas ódio, depressão, suicídio, drogas, miséria e humor negro. Desde 2006 que a banda não pára de lançar trabalhos, não fugindo em nada à sonoridade proposta pela banda desde o «Pulver». Bem se pode dizer que ela tem sido igual a si mesma e, para bem do povo que aprecia a sonoridade, ainda bem que assim é porque a verdade é que a música destes loucos é apelativa e um tónico destacado de tanta mesmidade que passa pelos nossos ouvidos. Assim, «Sjukdom» não foge às regras legisladas pela banda, transparecendo, portanto, uma música com tonalidades ora Rock ora Black Metal acompanhado por um toque de melodia – a exemplo, a primeira faixa, “Svart Galla”, anuncia essa melodia proporcionada pelas notas de piano – vamos percebendo que essa melodia está na génese de quase todos os temas. A voz do Sr. ( ) continua fria e negra, caracterizada pelos ambientes Depressive Rock/ Black Metal, e que tão bem encaixa nos temas. Em suma, o novo dos Lifelover não trás nada de novo ao que eles já criaram, embora haja temas que merecem destaque pela

PUTERAEON «The Esoteric Order» (2011 / Cyclone Empire) Apesar de toda a técnica instrumental que Jonas Lindblood (Taetre) soube dar a conhecer ao longo dos anos, com Puteraeon, surgido em 2008 na cidade de Gotemburgo, mostra como é que se deve sulcar as viscosas saliências de paisagens arduamente revestidas pela perversão, malhadas a ferro e respiradas a fogo. Sendo estas anteriormente desbravadas por certas monstruosidades como Dismember, Unleashed, Grave e Entombed no inicio dos anos 90, podemos assumir que tal não é uma tarefa fácil mas que dizer do trabalho de alguém que também esteve no início de um movimento que, vinte anos depois, ainda perdura? Após três demo-CD e já com um alinhamento mais consentâneo com a ideia de banda, este é o primeiro álbum e, se por um lado notamos que os abismos pelos quais singra têm uma correspondência tão mordaz quanto a ideia de inferno, por outro verificamos que os asquerosos ritmos que tão bem arrepiam o espírito em nada impelem ao


aborrecimento. Sim, por vezes faz bem ouvir uma banda que não tenha prazer em ser reconhecida pelas suas harmonias convencionais e que demonstre ter carácter sem se importar com as mazelas que os anos inculcaram. Para os mais desatentos, este álbum poderá parecer apenas uma homenagem a tempos idos mas não! Este é um maquiavélico elixir que soa ainda mais poderoso por nos dar a conhecer que existe quem queira rumar contra a maré que é o comercialismo e mostrar que “qualidade” também se escreve de forma tortuosamente sombria. [8/10] Jorge Ribeiro de Castro

THE PROJECT HATE MCMXCIX «Bleeding the New Apocalypse (Cum Victriciis in Manibus Armis)» (2011 / Season of Mist) Há uma grande diferença entre este e os discos anteriores dos TPH e essa diferença chama-se Ruby Roque. A ex-vocalista dos portugueses Witchbreed, que agora faz parte do grupo sueco em apreço, é efectivamente a principal responsável pelo afastamento dos TPH dum paradigma vocal já gasto: o duelo, celebrizado em muito gothic/ death, entre voz feminina angelical e growler cavernoso. É que, contrariamente ao tom ingénuo e frágil da anterior Jonna Enckell, a voz de Ruby molda-se segundo o estilo tradicional de vocalistas como Kate French (Chastain),

com um registo poderoso e de grande dinâmica, que se impõem de forma autoritária mesmo na presença de um monstro como Jörgen Sandström. O facto de Ruby cantar quase sempre em notas altas e segundo linhas melódicas distintas, é um aspecto que pode dificultar a assimilação da mudança. No entanto, ao fim de meia dúzia de audições tudo parece encaixar na perfeição. Musicalmente este é mais um passo de sucesso no sentido do aperfeiçoamento do cocktail único que Lord K Philipson tem vindo a desenvolver desde 1998, e que congrega, em longos épicos de 9 a 13’, as sonoridades extremas do death metal com passagens electrónicas e industriais, numa simbiose quase perfeita de brutalidade e beleza maquinal. Enriquecido uma vez mais pelos fantásticos solos de Mike Wead (King Diamond), pela voz de Christian Alvestam e, desta vez, pelo mítico Leif Edling (Candlemass), «Bleeding...» só peca pelo tremendo deja vu causado pela peça de manual didáctico que é o riff de abertura. Contudo é uma falsa partida que fica mais do que compensada pelo que vem a seguir. [8.5/10] Ernesto Martins

THOMAS GILES «Pulse» (2011 / Metal Blade Records) Primeiro álbum a solo do vocalista dos Between The Buried And Me. «Pulse» é maioritariamente semi-acústico, a voz acompanhada só com

piano, por vezes melancólico, voz limpa, soberba, celestial, harmonias na voz e uso de falsetes. TG produziu, fez os arranjos, compôs e tocou todos os instrumentos! Quanto aos temas, “Sleep shake”, “Reverb island” e “Hamilton anxiety scale”, não são acústicas, antes pelo contrário. São muito parecidas na estrutura cujos inícios fazem lembrar Porcupine Tree ou mesmo Devin Townsend, acabando num tom pausado, melancólico, ritmado e ligeiramente distorcido. “Mr. Bird”, emocional, soberba harmonia de vozes acompanhadas ao piano! “Catch & release”, um tema diferente, electrónico/tecno, industrial e com a voz agressiva! “Scared” podia ser uma bela balada pop, somente guitarra e voz. “Reject fallon”, arranjos electrónicos preenchidos com excelentes riffs de bateria, piano e voz em perfeita harmonia. “Medic” o tema mais pesado do álbum, furia e agressividade. Depois da agressividade de “Medic” vem “Suspend to dead watch” um tema calmo, piano e guitarra limpa e mais uma vez, TG utiliza com grande mestria as harmonias vocais. Os dois últimos temas são os melhores, atingindo o expoente máximo no uso harmonioso de várias vozes em “Armchair travel”, acompanhadas somente com guitarra acústica e “Hypoxia”, voz suave, simples acompanhada com orgão/mellotron acabando com bateria e guitarras ligeiramente distorcidas. «Pulse» é um brilhante exercício de versatilidade e inteligência musical. Obrigatório [9/10] Eduardo Ramalhadeiro


TURISAS «Stand Up and Fight» (2011 / Century Media) Antes de mais, faz todo o sentido ler primeiro a entrevista publicada nesta edição da Versus para perceber todo o argumento da história e todo o trabalho de Warlord Nygard (WN) na concepção de SUAF. Em 2011 este foi o lançamento que mais me surpreendeu. WN, oferece-nos um álbum soberbo e épico, tanto ao nível das letras/história/argumento como em termos musicais. Este é o segundo lançamento conceptual e SUAF “agarra” a história onde «The Varangian Way» termina, em Constantinopla e segue as aventuras dos chamados Varangian à volta das regiões Bizantinas (Mais pormenores na entrevista citada). WN é o responsável máximo por toda a composição musical, arranjos e letras. Trabalho fenomenal! Por trás destes dois álbuns existiu um estudo exaustivo prévio de todo o enredo. A música reflecte na perfeição todo este trabalho desenvolvido. Musicalmente falando, e por muito que se possa catalogar esta banda, não estamos perante um lançamento de Viking/ Folk Metal (Talvez o único tema que melhor espelha isto seja, precisamente, “Hunting pirates”), mas antes face a um álbum de Heavy/Rock superiormente orquestrado e adornado com um imponente coro! Em certos temas a musica (banda) passa para segundo plano para dar lugar a toda uma majestosa melodia de orquestra e coro (“End

of an empire”). Como seria de esperar num lançamento deste calibre, a produção está excelente e é de referir que a orquestra/coro não se limita a acompanhar a banda mas são como duas “composições” diferentes que se unem em (quase) perfeita harmonia. Todos os temas estão a um nível muito elevado mas ainda assim destaco “End of an empire” que é o que melhor define este álbum: Épico! [9.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

WHITESNAKE «Forevermore» (2011 / Frontiers Records) Dispensam apresentações, a não ser que o leitor seja um novato. Se for o caso, então está perante um texto sobre o mais recente trabalho de uma das mais grandiosas bandas de Hard Rock. São os Whitesnake, datam de 1977 e foi fundada pelo carismático vocalista David Coverdale (Sr. que passou pelos Deep Purple) em Inglaterra. Sim, já têm estes anos todos e ainda lançam trabalhos que apesar de soarem ao mesmo Hard Rock, cada um marca e destaca a identidade dos Whitesnake. A banda traz consigo um legado dos tempos gloriosos do Hard Rock que passa pelas décadas de 70, 80 e 90; legado esse que pode ser ouvido em “Forevermore” na sua totalidade. O primeiro single, “Love Will Set You Free” é um tema Whitesnake por excelência, daqueles que figurariam num futuro Best Of – e outros por lá estariam,

começando pelo tema título que é simplesmente lindo; “Easier Said Than Done” que traz a melodia aconchegante característica da banda; “Dogs In The Streets” a mostrar o Rock viciante e energético (com direito a pedal duplo) que nos faz recordar momentos antigos; ou mesmo a “Whipping Boys Blues” onde se destaca a genialidade da voz de Coverdale que tantas semelhanças tem com a de Robert Plant. Portanto, caros leitores, podem esperar um bom trabalho dos Whitesnake, com ritmos contagiantes, solos do outro mundo e com o feeling que os Whitesnake já nos habituaram. [9.5/10] Victor Hugo


Azagatel

Diesel Humm!


A 10ª (!!!) edição do Blindagem Metal Fest teve lugar no ACD “Os Ílhavos”, precisamente na cidade de Ílhavo. O cartaz era apelativo e, mesmo com um frio de rachar, a pequena sala de concerto conseguiu reunir bastante pessoal que saiu de casa. Já perto das 21:30, começa-se a ouvir o sound check da banda da casa, os Diesel Humm!. O habitual atraso não desmotivou o povo, já que o bar proporcionava um bom local para conversar e quebrar o gelo. Já depois da hora marcada, os Diesel Humm! iniciam o espectáculo com meia sala, mas os que lá estiveram souberam receber as energias deste quarteto de Hard-Rock do duro! Uma boa prestação a mostrar temas do seu álbum “STOP – The War”, e a prometer o sucessor já para Março. Azagatel sucedeu à banda de Vagos e trouxe consigo um som com rasgos de Black Metal e paganismo. A prestação convenceu, principalmente os mais novos, que não hesitaram em fazer o ritual do moche, mas o som não esteve ao nível do que os temas pedem: os acordes das guitarras não se ouviam claramente. Seguiu-se um dos momentos mais esperados da noite: Painted Black. Depois do mais longo sound check, eles tinham que proporcionar um bom espectáculo. E, de facto, isso aconteceu. O som esteve muito bom e a viagem pelo seu trabalho “Cold Confort” foi o descortinar do Melodic Doom Metal, que confortou aquela sala colada na performance da banda. Brilhantes, estes nossos My Dying Bride! A sala começou a encher à medida que os Crushing Sun começaram a tocar. Foi de esperar que o moche aumentasse, e bem! O som praticado pela banda encheu as medidas e convenceu os presentes de que o que é nacional é bom! Os parabéns para o baterista, que foi espectacular e aguentou muito bem o Death/Sludge da banda. Para finalizar a noite, os Switchtense foram os responsáveis para quebrar os restantes ossos. A banda da Moita trouxe o seu Thrash Metal arrasador e terminou o serviço da melhor maneira. Malhas rápidas e acutilantes marcaram a prestação da banda, que trouxe na bagagem o seu primeiro longa duração “Confrontation Of Souls”. Destaque para o vocalista, que foi um bom e divertido frontman, sempre a puxar pelo povo com vários “Vamos lá caralho, quero ver essa roda a mexer”. Por fim, ficou a certeza de que vale a pena apoiar o que é nacional… mesmo que fiquemos com os ouvidos feitos num oito. Texto: Victor Hugo Fotografia: Luis Jesus


Ava Inferi

Forgotten Suns


O Centro de Educação e Recreio de Vagos voltou a ter no palco os Ava Inferi. Desta vez, vieram acompanhados pelos lisboetas Forgotten Suns e por um álbum novo, “Onyx”. O espectáculo começaria às 21h, mas a organização decidiu adiar para que a sala ficasse mais preenchida. Assim, às 22h os Forgotten Suns começaram o seu espectáculo de Progressive Rock/Metal. O público não estranhou ser uma sala com lugares sentados e até fez sentido, já que estivemos ali para ver e apreciar a performance dos músicos, ou não fossem os Forgotten Suns. Durante uma hora, a banda expeliu música e deixou a plateia realmente atenta e interessada. A performance dos músicos foi verdadeiramente incrível, assim como a do vocalista que soube aplicar a voz. A sala proporcionou um bom som e conseguia-se ouvir claramente os acordes. O set não foi extenso, porque grande parte das músicas são longas, e até houve espaço para improvisar e impressionar. Contudo, notaram-se umas notas a mais (ao lado) nos solos arrojados do guitarrista. No set apresentado, não faltaram o single do álbum “Innergy”, de 2009, e “Doppelgänger”, que também abre o EP de 2010, “Revelations”. Depois do intervalo o recinto recebeu mais alguns espectadores, mas não encheu. À meia-noite em ponto as velas de dois belos candelabros foram acesas e a escuridão tomou lugar. Carmen surge como um defunto segurando uma candeia. “Estamos aqui para acalmar os espíritos!”, disse ela depois de uma saudação. O ambiente prometia. “Onyx” abre o ritual com boa energia e com força. O som cheio dos Ava Inferi (graças aos dois guitarristas, ao baterista e à novíssima baixista, Joana Messias, que também toca nos Mourning Lenore) fez-se ouvir e sentir e decerto que ninguém ficou indiferente (alguns pela negativa, porque não sabiam o que esperar e abandonaram a sala). A voz de Carmen, tanto grave como aguda, encantou e, por vezes, atingia picos de arrepiar nos momentos soprano. O novíssimo álbum teve destaque, mas não se esqueceram dos trabalhos antigos. “A Dança das ondas” foi um tema que encantou toda a sala e a “Last sign of Summer” foi uma das músicas que deram vontade de dar liberdade ao corpo. Houve alguns momentos ambientais e calmos (até ritualistas) e, quando regressava o peso, dava a sensação de ser ainda mais cheio e forte. Por fim, a banda brindou-nos e saudou-nos com “Blood of Bacchus”. Fica a memória de um bom momento, em que duas bandas distintas geraram boas energias, tão diferentes, mas tão unidas. Texto: Victor Hugo Fotografia: Luis Jesus


Watain

Shining

Este concerto poderia ser descrito usando o slogan: “A mesma cor, diferentes sabores!” Porque foi tudo negro – ou não fossem três bandas de black metal –, mas cada uma apresentou a sua visão desse subgénero. A abertura coube aos Aosoth, com um público muito reduzido, já que o concerto começou antes da hora anunciada inicialmente. Primaram pela concisão e pela brevidade, tocando quatro temas de seguida e interrompendo brevemente, antes do quinto e último, para o vocalista anunciar o nome da banda e o seu país de origem: França. Da muralha de som criada pelo guitarrista e baixista de sessão, emergiam a voz de MkM e a bateria, em perfeita sintonia. A complementar esta imagem “cerrada”, é de destacar o facto de quase nunca se ter visto a cara do vocalista, que emitia sons por detrás de uma cortina de cabelo. Seguiu-se um breve intervalo, durante o qual foi chegando mais público, surpreendido pelo facto de ter perdido a primeira banda. Ouviram-se alguns comentários de desagrado, pois muitos a viam como a surpresa da noite, dado o prestígio das outras duas. Seguiram-se os Shining, criando um contraponto com os colegas franceses. O


que estes tinham de contidos, dentro do género, tiveram os suecos de exuberantes. O foco de todo o movimento foi Niklas Kvarforth, que poderíamos apelidar de “Mr. Shining”, tal o controlo que revelou, durante toda a actuação, apesar do recurso constante ao Jack Daniels e ao cigarro. Brilhantemente apoiado pelos restantes membros da banda – que foi apresentando à medida que desfiavam o rosário de canções –, gritou, grunhiu, soluçou, murmurou, usou vocais limpos e voz cavernosa, ao sabor dos vários sketches musicais que se iam sucedendo. É que Kvarforth não se limita a cantar: dele poderemos dizer que é um poderoso entertainer, capaz de incendiar o público com apelos como “Submit to self destruction” ou a dedicatória de uma canção a todas as mulheres portuguesas. Espero que as suecas lhe perdoem! Após um check sound rápido, deu-se início a um verdadeiro ritual, que anunciou a entrada dos Watain. No palco, viam-se vários adereços, de entre os quais se destacavam dois tridentes em fogo, um de cada lado da bateria, e duas cruzes de Cristo invertidas, à direita e à esquerda do espaço a ser ocupado pelos restantes membros da banda. Estes entraram pela esquerda e, enquanto o baterista ocupava o seu lugar, Erik Danielsson acendia velas negras em pequenos candelabros pousados diante da bateria. De costas para o público, beberam algo que se assemelhava a sangue, que depois cuspiram. Assim que os músicos se viraram para o público, começou a guerra, com uma sucessão de faixas vibrantes, em que todos os instrumentos se uniam de se revezavam no apoio à voz poderosa de Danielsson, que atingiu o ápice em “Total Funeral”! A banda ainda regressou para um último ataque, a pedido do público, verdadeiramente empolgado!!! Texto: CSA Fotografia: Luis Jesus


Silk Shadow

Os Silk Shadow estão de volta aos palcos e o concerto que marcou este acontecimento sucedeu no dia 12 de Março de 2011, no Santus Bar em Valongo (Águeda), onde apresentaram temas originais bastante conhecidos como ‘Darkest Night’, ‘Running On My Path’, ‘End Of All Things’ ou ‘Midnight Run’ e ainda algumas covers como ‘Black Night’ de Deep Purple. Para quem acompanha o magnífico trabalho desta banda, foi um dia muito especial, tendo em conta que já fazia quase 3 anos desde a última vez que esta banda pisou um palco. Em parte, esta foi uma paragem prejudicial e com muitos episódios impróprios e pouco desejados. Por outro lado, é fácil constatar a magnífica evolução técnica que esta banda sofreu durante esta longa paragem. O trabalho apresentado por esta banda está muito mais maduro e carregado de riffs poderosos e cheios de melodia que facilmente cativam o público. É importante referir que esta longa paragem se deve essencialmente à gravação do primeiro álbum desta banda. O álbum ‘Crushing Mirrors’, ao que tudo indica estará disponível a partir de Abril e é mais uma produção do Lino Vinagre que tem vindo a apresentar grandes trabalhos enquanto produtor, captado nos estú-


dios da Audioplay. Para os mais curiosos, os Silk Shadow jĂĄ tĂŞm concertos agendados para o dia 16 de Abril no Hard Bar em Bustos, 12 de Maio (agendado pela MYOproductions) no Mercado Negro, fazendo-se acompanhar dos belgas Aguardente e 4 de Junho no Ovelha Negra em Sever do Vouga. Podem acompanhar as novidades da banda em www.myspace.com/silkshadow. Texto: Bernardo Leite Fotografia: Bernardo Oliveira Leite


ThanatosSchizo

ManInFeast


Sob a bandeira da “pronúncia do Norte”, acolheram-se pelo menos três gerações (a avaliar pelo público presente na Sala 2 do Hard Club do Porto) unidas por uma mesma causa – a música portuguesa –, aqui representada por duas bandas, que apresentaram prestações pouco convencionais. Numa sala bem mais pequena do que a Sala 1 – mas, por isso mesmo, mais propícia ao estabelecimento de elos entre os músicos em palco e o público –, os ManInFeast, jovem banda de Lamego, abriram o espectáculo da noite, com alguns temas de sabor bem variado, combinando momentos de grande melancolia com outros em que revelavam energia para dar e vender, entre os quais intercalavam comentários irónicos. É curioso notar que o nome da banda, pronunciado rapidamente, soa a “manifest”, palavra que tem enchido o panorama sócio-cultural português nestes últimos tempos, por motivos que todos conhecemos sobejamente. Depois do intervalo da praxe, o toque de reunião dos fãs em torno do palco foi dado pela audição de uma canção do folclore do norte transmontano, que soou estranha a alguns dos presentes, apesar de a ligação entre o metal e o folclore ser bem frequente. Talvez a surpresa derivasse de não ser este o Norte habitual! À medida que o inusitado canto soava – a lembrar os velhos tempos de Michel Giacometti e do seu Povo que canta –, os membros dos ThanatoSchizO iam ocupando o palco, por sinal bastante pequeno. Com a apresentação a cargo da vocalista Patrícia Rodrigues, desfilaram temas de vários álbuns conhecidos dos presentes – de forma mais ou menos aprofundada –, reescritos e rearranjados no último lançamento da banda, a que deram um título bem poético: “Origami”. Aliás, este exemplo da arte japonesa estava representado no palco – com borboletas de papel colocadas sobre um dos amplificadores – e numa animação que acompanhou um tema, deixado numa versão apenas instrumental, mas verdadeiramente arrasador pela sua força e beleza. Patrício Rodrigues e Guilhermino Martins revezaram-se nos vocais ou construíram belos duetos, à medida que a banda ia mostrando o que sabia fazer, em ritmos menos metaleiros, mas de sabor bem português (incluindo uma piscadela de olho à bossa nova). Não faltaram os convidados, incluindo um acordeonista e um clarinetista e, a dada altura, os próprios ManInFeast, que acompanharam TSO, numa faixa que foi orquestrada para o CD, recorrendo a palmas e vocalizações diversas e criando um belo momento de comunhão entre todos os artistas e o público presente. O encore foi uma oportunidade não para cada um dos membros dos TSO mostrar o que valia – porque já o tinham feito antes, de uma forma que não deixava margem para dúvidas –, mas para apresentarem solos que deixaram o público ansiosamente à espera do próximo encontro. Texto: CSA Fotografia: Luis Jesus


Before The Torn

We Are The Damned


A MYOproductions (em cooperação com a Oh Damn! Productions) promoveu no passado dia 26 de Março um grande concerto com Before The Torn e We Are The Damned no Mercado Negro de Aveiro. Uma sala muito bem composta e um ambiente fantástico marcaram esta noite de peso. Com este concerto as duas bandas encerraram uma tour nacional de promoção aos seus mais recentes trabalhos, ‘The Holy Beast’ da autoria de We Are The Damned e ‘The Serpent Smile’ da autoria de Before The Torn. O concerto teve início com os grandes We Are The Damned que rapidamente aqueceram os motores do público com os seus riffs agressivos e poderosos e um ritmo infernal onde estão bem patentes os motivos que levam muitos fans do metal português a considerá-los um ícone underground nacional. Uma banda com créditos firmados que devido ao seu profissionalismo e atitude conseguiu entrar no cartaz do Vagos Open Air 2011. A segunda e última banda a pisar o palco foram os Before The Torn. Grande interacção com o público, muita energia e crabcore foram imagem de marca destes rapazes provenientes de Lisboa. Mais um grande show para fechar a noite em grande! Texto: Bernardo Leite Fotografia: Bernardo Oliveira Leite


s i a c i s u m s e õ x e l f e r punha um importante revés ao sector anunciando a decisão de vender a Harmonix, empresa criadora das revolucionárias séries. O até há pouco fulgurante êxito de Guitar Hero e Rock Band deveu-se a quatro factores essenciais:

dico A morte do herói Quando, a 8 de Fevereiro, o serviço norte-americano The Pulse of Radio noticiava que a Activision vai fechar a sua divisão de negócios no sector dos jogos musicais e, consequentemente, pôr fim à série Guitar Hero, cancelando o desenvolvimento de mais um título, o choque instalou-se entre os fãs e a indústria. A justificação da Activision reside na significativa quebra de vendas de alguns produtos recentes. Com efeito, Guitar Hero: Van Halen não chegou aos 250 mil exemplares vendidos, apesar de ter sido editado em Dezembro de 2009, por oposição a Guitar Hero: Metallica, que desde Abril de 2010, quando chegou às lojas, já representa 1,5 milhões de unidades transaccionadas. Por outro lado, Guitar Hero: Warriors of Rock, último jogo da série (com temas dos Marylin Mason, Children of Bodom ou Black Label Society), não passou das 86 mil unidades adquiridas. A Activision acrescentou ainda que para este desfecho foram igualmente determinantes o elevado custo de produção dos jogos e do licenciamento de músicas para os vários títulos. A decisão constitui mais um rude golpe na indústria musical, com repercussões nos seus lucros e financiamento, gerando ainda mais incerteza quanto à expectativa de progresso deste modelo de negócio (junção de música e videojogo), numa altura em que as monumentais perdas resultantes da partilha ilegal de ficheiros e da pirataria continuam a avolumar-se. De facto, o mega-sucesso alcançado por algumas séries de videojogos musicais forneceu à indústria um lucrativo balão de oxigénio, mas à luz dos acontecimentos recentes não podemos deixar de nos questionar sobre o futuro do sector. Aliás, alguns analistas já haviam previsto o fim do “negócio dos instrumentos de plástico” quando os volumes de vendas de alguns títulos das séries Guitar Hero e Rock Band entraram numa curva descendente. A 11 de Novembro a Viacom im-

1 - Uma experiência interactiva envolvente e intuitiva, que permite aos jogadores assumir o papel de estrelas rock (inclusive online, com players do mundo inteiro), actuando para salas virtuais repletas (esta é, aliás, a experiência mais semelhante que a maioria dos fãs terá com a vida das rock stars). Usando controladores num formato e dimensão próximos dos instrumentos clássicos do Rock os músicos virtuais “reproduzem” as notas das canções disponíveis, acompanhando-as; 2 - Uma selecção musical variada, de inegável qualidade, com temas lendários e agradáveis de “tocar”, abrangendo diferentes épocas (dos anos 80 até hoje); 3 – Uma inteligente escolha das bandas retratadas, todas obviamente campeãs de vendas e mega-estrelas mundiais; 4 - Uma nova perspectiva sobre os vários subgéneros do Rock, chegando inclusive a ultrapassar as fronteiras do mesmo com DJ Hero, numa clara tentativa de expansão (falhada em boa parte) a públicos e mercados mais vastos. Em menos de quatro anos, a série Guitar Hero (cujo primeiro título, homónimo, chegou às lojas em Novembro de 2005), tornou-se um ícone da cultura pop. O fenomenal sucesso da marca mediu-se essencialmente em números: 18 títulos (que incluem os jogos inaugurais das sub-séries Band Hero e DJ Hero) e centenas de milhões de cópias vendidas nas mais variadas plataformas (o total de vendas a nível mundial dos três primeiros títulos ascendia, no início de 2008, aos mil milhões de dólares). Mas o hype chegou ao fim e outro ícone do capitalismo musical caiu. Que outros se seguirão? P.S. – Para quem não sabe, o nome do jogo retratado neste artigo foi inspirado na designação atribuída, durante os anos 80, aos guitarristas neoclássicos dotados de apurada técnica, autores de álbuns maioritariamente instrumentais, como Yngwie Malmsteen - o primeiro músico neoclássico a ser agraciado com o epíteto de guitar hero - Vinnie Moore, Tony MacAlpine, David T. Chastain, Jason Becker ou Marty Friedman. A Roadrunner seria a primeira editora a lançar esses LP’s instrumentais, embora a Shrapnel Records viesse a especializar-se nesse segmento de mercado com grande sucesso.


Quando o Metal é Moda Já não há temas como antigamente, ou melhor, já não se tratam temas como antigamente, e nem precisamos ir muito longe (e ainda hoje há, e são estes a salvação, quem faça do metal a sua maior e melhor forma de expressão) para percebermos o quanto o Metal tem sido mal tratado, vindo desde as suas origens até à sua maior época e mais uma vez descendo até aos confins do poço sem fundo onde se encontra, repleto de mazelas. “Tão novos e já cheios de ferrugem.” Esta frase poderia definir uma grande parte da comunidade metaleira mais recente, tanto a reprodutora de sonoridades como a recetora das mesmas. Não existe aquela preocupação de outros tempos de transmitir a alma e o pensamento sobre uma forma musical, hoje em dia só o que interessa é fazer “o que é fixe”, o que vende e o que está na moda. Após tal princípio ser levado a cabo por quem faz música, também quem a ouve passa a pôr em prática o mesmo, sentir-se mais poderoso apenas porque se considera ouvinte e fã de metal, ou porque usa roupa preta e uma pulseira de picos, quando na verdade, no conforto do quarto, a maneira de ser é completamente o oposto do que se vê na rua. Mas esta regra rotineira foi imposta pelos meios de comunicação: pela televisão, pela internet e até mesma pela própria rádio. É preferível ter 15 segundos de fama instantâneos por algo estúpido e/ou ofensivo e cair para sempre no esquecimento do que ter trabalhado arduamente durante longos anos para se ter os tão recompensadores 15 segundos de fama por ter feito a diferença e assim criar e manter uma base de fãs e seguidores firme e leal, com a qual se cresce e se aprende. Desde que entrámos tão esperançosos no terceiro milénio que a evolução tem estado presente, o pior é que nem sempre é uma evolução positiva e a originalidade desvanece a passos largos nos dicionários que correm pelas ruelas do mundo da música. Quando entramos no bairro do Metal e revisitamos as casas mais an-

tigas, algumas já em mau estado, sentimos uma nostalgia reconfortante, cheia de batalhas vitoriosas, de orgulho e de sabedoria, de experiência e de histórias que nos fazem rir e chorar e, acima de tudo, sentirmonos donos do mundo. Em contraste, no lado oposto da estrada, vão surgindo enormes mansões aperaltadas com as mais espalhafatosas varandas e os mais detalhados pormenores, e assim que passamos por elas e espreitamos pelas janelas vemos que estão vazias, sem móveis, sem movimento, sem alma, completamente vazias, totalmente desprovidas de qualquer sentimento e que, assim, nada transmitem. Numa atualidade onde o que conta é a aparência, o verdadeiro sentimento é esquecido para dar lugar às caras bonitas e ao que se faz em frente às câmaras, e quem permanece com os seus princípios imutáveis e continua batalhando com todas as forças, todos os dias, sem dar tréguas e sem vender a alma são totalmente escorraçados sendo apenas apreciados por minorias ínfimas e raros são os casos em que se chega a tomar conhecimento destes verdadeiros artistas. Daniel Guerreiro


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Versus Magazine #13 Abril/Maio 2011  

DOWNLOAD: http://www.mediafire.com/?qtdioc7vvcfq2u6 Edição nº13 da Versus Magazine c/ Ava Inferi, The Project Hate, Turisas, Heavenwood, Lif...

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