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Ana Tecedeiro escreve sobre o trabalho de Tiago Mourão A pintura de Tiago Mourão constrói entre ausências. Estas paisagens já não são desertas, mas estão ainda cheias de silêncios. Insistindo num olhar mais inquiridor, distingo a presença de três forças que se tensionam mutuamente:

já partiu ou tardará a chegar. O único ser que por ali andou foi o pintor/arquitecto obsessivo e rigoroso. Não está representado, mas sentimo-lo. Ainda ali está. Como se nos olhasse enquanto observamos as suas paisagens.

Os objectos construídos Não importa se são tendas, prédios ou mesas de ping-pong. Valem pelo que são em si mesmos, impõem-se segundo leis próprias. Apesar disso, escapam-se para os territórios do mistério quando os questionamos: para que serve, o que é, qual a sua verdadeira dimensão, será habitável, será confortável?

A atmosfera Presença soberana no vazio primordial que o artista/construtor povoa de volumes. A atmosfera tem poderes que escapam ao controle do pintor. Ele sabe que também ela é criadora, geradora de sombras, de luzes, de efeitos cromáticos. Que não lhe podemos seguir as arestas ou contornar-lhe os planos, que as suas regras são outras. Respeitá-la é dar-lhe espaço e dar-lhe poder sobre o espaço. É a imaterial, indomável, poderosa co-habitante destas paisagens.

O construtor Não há nestas pinturas vislumbre de presença humana. A humanidade ou

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Mutante 16  

Zaha Hadid • Adriana Barreto • Bloco 103 • Tiago Mourão • Ana Tecedeiro • Opera House (Austrália) • Made in Portugal • Conserva • Palácio da...

Mutante 16  

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