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ÍNDICE

CONTEXTO NACIONAL 05 SITUAÇOM ESPECÍFICA DA MOCIDADE 19 LINHA IDEOLÓGICA 25 ANEXO I – COMUNICADO DE DISOLUÇOM DA AMI

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Assembleia da Mocidade Independentista Outubro 2014


Contexto nacional Galiza 2014

“A burguesia nom é umha classe social, é umha doença contagiosa.” Pier Paolo Pasolini

“Durante os anos noventa deram-se umha série de mudanças sociais lentamente gestadas em períodos anteriores, mudanças que puseram de relevo a chegada dumha nova época bastante mais inquietante que a precedente. O passo dumha economia baseada na produçom a outra assentada nos serviços, o império das finanças sobre os Estados, a desregularizaçom dos mercados (incluído o do trabalho), a invasom das novas tecnologias com a sub-seguinte artificializaçom da contorna vital, o auge dos meios de comunicaçom unilateral, a mercantilizaçom e privatizaçom completas do viver, o ascenso de formas de controlo social totalitárias... Som realidades acontecidas baixo a pressom de necessidades novas, as que imponhem um mundo onde reinam condiçons económicas globalizadoras. Estas condiçons podem reduzir-se a três: a eficácia técnica, a mobilidade acelerada e o perpétuo presente. O surpreendente da nova ordem criada nom é a rapidez das mudanças ou a destruçom de todo o que se resiste, incluídos jeitos de sentir, de pensar ou de agir, mas a ausência de oposiçom significativa. Diria-se que som as mudanças constantes quem apagaram a memória à populaçom obreira e invalidaram a experiência, as referências, o critério e as demais bases da objetividade e verdade, impedindo que os trabalhadores tirassem as conclusons implícitas nas suas derrotas. Ademais as mudanças pulverizarom a mesma clase obreira, dissolvendo qualquer ligaçom e convertendo-a numha massa anómica. O certo é que a adaptaçom às exigências da globalizaçom requer acabar com os mesmíssimos fundamentos da consciência histórica, com o próprio pensamento de classe. Para que as massas sejam executoras involuntárias das leis do mercado mundial ham estar atomizadas, em continuo movimento e submergidas num inacabável presente cheio de novidades dispostas ad hoc para ser consumidas no ato.” Miquel Amorós

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CONTEXTO NACIONAL

1- Chao ao papá Estado “protetor” O Estado tanto constrói macro-prisons como oferta cursos de atençom ao meio ambiente, e palia o desmantelamento dos serviços públicos com assistência privada. As ordens dadas desde a UE, BCE e FMI aos gestores do Estado som claras: Tendência à privatizaçom. O Estado fica esquelético, apenas como intermediário entre o gram capital e a Alienaçom e sociedade, mediante a repressom e a propaganda. As percentagens de pessoal frustraçom excluído e marginalizado socialmente aumenta, as cifras oficiais situam um social tenhem 30% da populaçom galega na pobreza. E a inventada “classe meia” fragmentacomo resultado se entre excluídas e inseridas; as que consigam flutuar no sistema e as que mais indivíduos afoguemos. isolados e em piores condiçons Horas e horas de propaganda por todos os meios e drogadiçom com e menos povo psicofármacos -legais ou ilegais- som a saída ante um panorama que nom oferece -comunidade, tribo, caminhos fáceis. Alienaçom e frustraçom social tenhem como resultado mais Nós-, com todas as indivíduos isolados e em piores condiçons e menos povo -comunidade, tribo, potencialidades que Nós-, com todas as potencialidades que o coletivo acarreta. Aparece gente o coletivo acarreta. adita à comida à revisom obsessivo-compulsiva das actualizaçons na rede ou à cocaína. As adiçons som umha saída fácil e muito mais barata para o inimigo do que o encerramento em prisons ou hospitais psiquiátricos. Em este momento o Estado está por primeira vez desde a transiçom a tentar reduzir o número de pessoas encerradas, já consegue gerir métodos preventivos bem eficientes.

2- Terrorismo Desde 1968 mais de 8.500 mulheres foram assassinadas. Nom há cômputo das mutiladas, feridas, suicidadas, deprimidas, etc. As cifras oficiais falam de que o 22% das mulheres do Estado espanhol sufrirom violência de género algumha vez. O dato real ascende ao 100%. A violência estrutural leva crianças a odiar o seu corpo, atuar para outros gostarem dela, ter que enfrentar-se a humilhaçons, vejaçons, criaçom de expectativas e determinismo biológico da sua funçom e rol vital, etc. A questom de que exista umha brecha salarial do 23,3% com respeito aos salários dos homens é quase o menos relevante. O terrorismo da patronal é outro dos que maior pânico cria na sociedade: 2.292 acidentes laborais denunciados em 2013, faltando muitos que nom chegaram a acudir ao médico (pequenas feridas, doenças, mal-estares aguentados em base ao consumo frequente de calmantes...) e todos os que fazem parte de empregos nom legais. A isto há que engadir o “buling” ou maus tratos, e no caso das mulheres os abusos sexuais e presons sexuais encobertas, sexualizaçom do seu trabalho -o corpo e atitude da mulher como parte do “serviço”-, e ainda a ansiedade permanente com o medo de perder o emprego.

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CONTEXTO NACIONAL

O desemprego supera-se o 20% da populaçom ativa, tendo em conta que se tentam maquilhar estes dados com cursos, trabalhos temporários precários, e continuaçom de estudos de maneira permanente. As cifras para a mocidade ronda o 50%. Umha sólida economia submergida, que se estima que seja do 50% do movimento de dinheiro, faz com que a situaçom se vaia mantendo. A máxima marxista da aboliçom do trabalho cumpre-se agora contra as trabalhadoras. A engrenagem de dependência desenvolve o medo a ser desafiuzada, a nom poder pagar as faturas, à exclusom social. E o que em outra altura se via como algo a superar agora vê-se como algo a “defender” de “umha situaçom pior”.

3- A nova peste: depressom, ansiedade, nervos O suicídio é a primeira causa de morte violenta no nosso País, por diante dos acidentes de tráfico. Galiza encabeça as estatísticas de suicídios do Estado, com umha meia de 340 mortes voluntárias ao ano. Um dez por cento do total estatal. Há apenas dez anos, as mortes em acidente de tráfico dobravam os suicídios e agora é ao revés. Em 2009, o ano mais negro, houve um suicídio cada dia.1 Mais do 20% da populaçom está tomando tratamento psiquiátrico a A dura recessom diário sob prescriçom médica. O consumo de psicofármacos é símbolo da económica do capital identidade deste tempo; de períodos de forçada paz social. A dura recessom está a agravar económica do capital está a agravar transtornos mentais derivados da falta transtornos mentais de protagonismo nas condiçons da própria existência. Paradoxalmente, no derivados da falta de capitalismo os períodos de menor consumo de antidepressivos coincidem protagonismo nas com períodos de guerra aberta. Isto tem a ver com umha radical mudança dos condiçons da própria valores da populaçom. Ou seja, a pesar das condiçons dumha guerra serem existência. objetivamente muito duras, o facto de coincidirem a representaçom social com as preocupaçons pessoais cria umha imagem coerente que permite a análise coletiva, a assimilaçom e a potencial procura de soluçons. A forçada paz social cria um enfrentamento entre o imaginário social e as preocupaçons e inadequaçons pessoais ao rol hegemónico. Vivemos em um engano, e isto cria umha frustraçom mental, derivada da incoerência entre o que vemos nos ecrans, e o que realmente nos acontece. Hoje em dia, estamos ainda numha fase de alienaçom maioritária; e a patologizaçom como doenças psiquiátricas de problemas sociais, com a sua correspondente medicaçom, tem para o 1 Em Galiza, 80% dos suicidas som varóns, o qual também é um bom medidor para ver como as mulheres -quem sofrem mais problemas de ansiedade e depressom- nom se decidem a acabar com as suas vidas, muitas vezes amarradas a umha rede de cuidados, responsabilidades e sentimento de culpa que lhes nega até esta fugida, mas as mantém resistindo no seu sofrimento.

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sistema um dobre pagamento: meio de importantíssimo lucro para as grandes farmacêuticas, e meio de tranquilizante para potenciais revoltas e mudanças estruturais.

4- Destruiçom da naçom avançada “A globalizaçom nom pode seguir avançando sem umha circulaçom ultrarrápida e barata de mercadorias e pessoas (ou seja, de mercadorias), e para isso som condiçons sine qua non, grandes infraestruturas por um lado, e polo outro, energia e combustíveis baratos. Um problema que se pode solucionar com umha combinaçom adequada de geopolítica, dinheiro, propaganda antiterrorista e guerras locais.” M. Amorós.

I-Questom ecológica:

Poderia-se dizer que as sociedades industrializadas comem petróleo: para obter umha caloria dos alimentos industriais precisamse 10 calorias fósseis.

Poderia-se dizer que as sociedades industrializadas comem petróleo: para obter umha caloria dos alimentos industriais precisam-se 10 calorias fósseis. Por outra parte, a prática totalidade dos elementos que conformam a vida diária das pessoas neste tipo de sociedade depende da disponibilidade contínua de petróleo.

A voracidade capitalista leva a natureza a novas quotas de destruiçom constantemente. O pico do petróleo está aqui; surgem algumhas dúvidas -entre as menos fanáticas da fé na ciencia- sobre a capacidade de que os gestores do capital consigam superar este limite natural com novas formulas, ou que estas sejam altamente perigosas (nuclear, por exemplo) e o seu aceso seja muito excluinte para amplas bolsas de populaçom. Ocultam-se os danos dos destroços, e que as agressons naturais podem afetar de forma direta sobre nós, mesmo que nom aconteçam diretamente no nosso território. Veja-se o desastre nuclear de Fukushima, que está a ter gravíssimas consequências, a nível de envenenamento dos mares, e afeta à nossa sobrevivência (em base à nossa alimentaçom, contacto com o mar, etc).2 Os efeitos da mudança climática por causa do efeito estufa também acabam com as possibilidades de cultivo tradicional da terra, podendo condicionar a soberania alimentar, 2 Umha greta na estrutura do reator começou a libertar material radioativo ao mar, fazendo que o conteúdo em iodo radioativo fosse em alguns momentos nas águas circundantes de até 7,5 milhons de vezes superior ao limite legal e que o césio estivesse 1,1 milhons de vezes por cima desses limites. Os primeiros intentos de selar a greta com cimento e outros métodos fracassaram. A companhia Tepco, a inícios de Abril, começou a verter ao mar 11.500 toneladas de água contaminada radiativamente para liberar espaço dentro da central com o objetivo de albergar outras águas ainda mais contaminadas do interior dos reatores.

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e inclusive criando grandes riscos por causa de descontrolos climáticos (tornados, secas, tormentas torrenciais...). As estaçons estam-se a desregular.3 O nível de desenvolvimento industrial e tecnológico exige consumo voraz de recursos, sem ter avaliado antes a necessidade das inversons, a possibilidade de gerir os refugalhos e as opçons de reparar o dano ambiental. Viver inserida nesta sociedade de consumo faz parte da roda do moinho do progresso. Só umha pesquisa no google gera entre 1 e 10 gramas de CO2. Entretanto, mais de 187.000 pessoas, o 18% da populaçom, dedicam mais do 10% dos seus ingressos ao pago de recibos de gás, água, eletricidade ou calefacçom, um número que vai em aumento. O progresso é a nova religiom. E no seu nome podem-se consentir os maiores excessos. No capitalismo maduro, o território, concetualizado como espaço contentor abstrato, tornouse capital: infraestruturas energéticas, vias de transporte, matérias primas, urbanizaçom e turistificaçom, etc. Mas para essa valorizaçom do espaço é fundamental o despovoamento e a desvinculaçom territorial das populaçons. Do contrário, há opçom de resposta, o qual dificulta ou até impede o espólio. Na questom do território confluem a questom ambiental e identitária como umha só.4 3

Um estudo calcula que em 2080 morrem 100.000 pessoas mais ao ano por causas ligadas à mudança climática, o dobre que na atualidade. Muitas falecem polas ondas de calor, mas também por doenças ligadas ao aumento das temperaturas, riadas, tormentas ou intoxicaçons alimentares ou de águas. A produçom agrícola teria caído um 10%, as secas multiplicariam-se por sete e afetariam 144 milhons de pessoas cada ano e haveria duas vezes mais riadas que na década atual. O pior deste cenário viviria-se no sul da Europa. Cá os incêndios florestais arrasariam o dobre de terreno cada ano, a demanda de energia seria crescente polas altas temperaturas. Em total, os custes da mudança climático na UE apenas em termos económicos ascenderiam a 190.000 milhons de euros.

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As cidades estám perdendo identidade e convertem-se numha mesma e única urbe, ou num tentáculo de umha única megalópole mundial. “O novo urbanismo, forjado baixo o domínio de necessidades que já som universais, é a técnica idónea para instrumentalizar o espaço, acabando assim tanto com os conflitos presentes como com a memória dos combates antigos. Esta criando-se um novo modo de vida uniforme, dependente de artilúgios, vigiado, frenético, dentro dum clima existencial amorfo, que os dirigentes dizem que é o do futuro. A nova economia obriga a novos costumes, a novos jeitos de habitar e viver, incompatíveis com a existência de cidades como as de antes e com habitantes como os de antes. Essa nova conceiçom da vida baseada no consumo, o movimento e a solidom, é dizer, na ausência total de relaçons humanas, exige umha artificializaçom higiénica do espaço a realizar mediante umha reestruturaçom sobre parâmetros técnicos. O técnico vai sempre por diante do ideal, nom sendo que seja o próprio ideal. Os dirigentes de qualquer cidade falam todos essa língua da inovaçom tecno-económica que nom para: “ umha cidade nom pode parar”, tem que se “reinventar”, que se “renovar”, que se “refundar”, que “rejuvenescer”, etc, para o que haverá que “subir ao comboio da modernidade”, “impulsar o papel das novas tecnologias”, “desenvolver parques empresariais”, “melhorar a oferta cultural e lúdica”, “construir novos hotéis”, ter umha paragem do AVE, levantar “novos edifícios emblemáticos”, impor umha mobilidade “sustentável” e demais cantinela. (…) Em resumo, a moderna classe dominante é autoritária e fascista e as suas construçons som as dumha sociedade de massas amorfa, é dizer, favoresce condiçons fascistas. (...) Ao final todo o território estrutura-se como um único sistema urbano e todos os lugares acabam parecendo-se. O habitat é a traduçom espacial da desposessom. Os indivíduos proletarizados vivem num contorno constantemente modificado polos vaivéns do capital. Amiúde som despraçados dos seus bairros polos planos de renovaçom urbana por inimigos de classe e expulsos das suas vivendas e das suas moradas e das suas ruas se é preciso mediante acossa ou expropiaçom. Todos os circuitos sociais alheios ao capital ham de ser destruídos. Com a mobilidade exacerbada imposta a toda a populaçom duplicam-se

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CONTEXTO NACIONAL

II-Questom cultural:

Costumes, horários, calendários, alimentaçom, hábitos quotidianos, visom do mundo... Em todos estes aspetos a espanholizaçom da populaçom galega é cada vez mais Da gente nascida entre evidente. A língua -entanto que ferramenta comunicativa e especialmente 1994 e 2003 apenas como forma de entender e expressar o mundo- continua num processo de o 25% aprenderam extinçom, e de ser o idioma maioritário há apenas umhas décadas, cada vez a falar em galego. mais, o uso do galego nas geraçons mais novas depende de umha vontade clara E alguns estudos de resistência. Da gente nascida entre 1994 e 2003 apenas o 25% aprenderam indicam que o 20% da a falar em galego. E alguns estudos indicam que o 20% da mocidade entre 14 mocidade entre 14 e 19 e 19 anos som analfabetos funcionais em galego. Empioramento muito agudo anos som analfabetos fazendo caso dos dados de outro inquérito de 2001, que afirmava que o 91% da funcionais em galego. populaçom consegue falar galego, e o 99% entendo-o perfeitamente. A aposta polo monolinguismo social em galego vai ser pois, umha aposta consciente, decidida e com os olhos postos na lusofonia como referência dum espaço onde a nossa língua se desenvolve fora dum contexto de minorizaçom linguística. A questom de todo o demais, ligado à forma de vida, implica necessariamente umha recuperaçom e defesa dos valores comunitários, pois sem comunidade nom existe nem o nosso nem povo nenhum. Em este momento, entre o 15% e o 20% da populaçom galega maior de 65 anos vive soa, umha situaçom de abandono para muitas pessoas idosas que chegaram a velhas e já nom partilham os valores nem forma de vida das suas netas. Nas últimas décadas a expulsom do rural cara as cidades é parte da política espanhola de castraçom da Galiza. Individualismo e dependência absoluta do mercado para viver. Ignorância e incapacidade de resolver a maioria de reptos que se ponhem à frente. Recuperar a autonomia de pequenas comunidades é um valor pois pom em prática a independência de facto. As cidades som espaços dificilmente conciliáveis com umha forma de vida sustentável e galega. Si podem existir núcleos grandes, povoados, e ligados com a contorno. Mas precisam dumha planificaçom controlada, para garantir o abastecimento e serviços.5 os efeitos da deportaçom: a desapariçom da vida social do bairro, a aniquilaçom da cultura da rua, os últimos redutos da consciência de classe. A proletarizaçom completa-se com a motorizaçom_ o proletário automovilista jamais pom em dúvida o princípio de mobilidade, só pede a supresom das portagens.” M. Amorós

5 Galiza caracteriza-se pola sua alta taxa de dispersom demográfica unido a um elevado número de povoaçons. Como dado, Galiza regista mais do 50% dos entes de povoaçom estatais (ocupando arredor do 6% da superfície do Reino de Espanha). Calcula-se que na Galiza existem um milhom de topónimos e microtopónimos. Incluso de zonas do mar, dentro das Rias. Contodo, a tendência à concetraçom está a inverter esta tendência natural e perfeitamente coerente com o nosso meio natural rico e produtivo em todo o território. Hoje Galiza conta com vinte e três municípios de mais de 20.000 habitantes, ademais de outros três de mais de 19.000. Estas som as cifras oficiais de 2011: Vigo ( 297.241), Corunha ( 246.028), Ourense ( 108.002), Lugo ( 98.007), Compostela ( 95.207), Ponte-Vedra ( 82.934), Ferrol ( 72.963), Ponferrada (68.549), Narom

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5- Capacidade de pioramento da situaçom É de supor que agora o inimigo está a tantear a elasticidade do suporte do povo às agressons, o nível de alienaçom e do que vai ser tolerado. A ciência do poder desenvolveu e aperfeiçoou a lógica da administraçom do domínio, que é muito mais efetiva e fácil de aplicar quanto mais educadas estám as pessoas e as naçons na moderna e individualista racionalidade económica. Hoje, que podemos constatar melhor do que em qualquer outra época histórica como é que a Galiza está a ser destruída e os direitos conquistados polo nosso povo através de décadas de luita estám a ser revogados, podemos comprovar também que Espanha se impom baixo ofertas e promessas, e nom baixo o ruído dos tanques e os fuzis. Em este sentido, tensionarám até onde a gente se deixe, e nom existe já a linha do que nom permitimos, sempre “poderia ser pior”. Compensaram com o mínimo pam e o máximo circo possível a forçada paz social.

A ciência do poder desenvolveu e aperfeiçoou a lógica da administraçom do domínio, que é muito mais efetiva e fácil de aplicar quanto mais educadas estám as pessoas e as naçons na moderna e individualista racionalidade económica.

Umha das características do mundo em que vivemos é a imposiçom do cálculo como padrom de racionalidade. A razom económica colonizou todas as formas de pensamento, e a folha de cálculo -o balanço contável entre custos e benefícios- converteu-se em referência única para avaliar o sentido das açons. Até a “rendibilidade política” é, de esquerda a direita, o paradigma que determina o que deve e nom deve ser feito.6 A assimilaçom da sua lógica e dos seus valores foi o máximo logro do capitalismo desde a sua criaçom, deste jeito atomizou-se a conciência de classe, ficando os indivíduos isolados sem umha identidade coletiva forte. Umha importante proporçom de gente nom entende que tenha uns interesses específicos como grupo (veja-se aldeia, naçom, classe, género, etc). As pessoas individuais só “lutam” por conseguir ascender na pirâmide, e “salvar o seu cu”, como se isto fosse viável a nível individual. Portanto um dos eixos fundamentais de luita será redefinir os valores do coletivo: virtude e irmandade contra consumo e individualismo. (38.910), Vila Garcia da Arousa ( 37.903), Oleiros ( 34.133), Carvalho ( 31.303), Arteijo (30.482), Redondela ( 30.006), Culheredo ( 29.207), Ames ( 28.852), Ribeira ( 27.699), Cangas do Morraço (26.121), Marim ( 25.864), Cambre ( 23.649), Ponte Areias ( 23.561), A Estrada ( 21.759), Lalim ( 21.759), Monforte de Lemos ( 19.622), Moanha ( 19.336) e Boiro ( 19.106). Observe-se que boa parte destas localidades fazem parte da área metropolitana das principais cidades, e que a sua grande maioria estám na franja atlântica. 6 A utilizaçom da moderna racionalidade económica para o submetimento tem um exemplo estudado na forma em que os nazis administrárom o holocausto: a relativa passividade dos judeus ante o seu próprio extermínio tem-se explicado polo facto de os carrascos dividirem a distância entre umha vida digna e a câmara de gás em várias estaçons intermédias que a lógica do cálculo aconselhava transitar. Se a desobediência tinha muitas possibilidades de levar ao martírio, parecia “inteligente” preferir o estigma à morte, e depois o ghetto à morte, e depois os trens à morte, e depois os campos de concentraçom à morte.

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Umha das vias de escape que o sistema desenha é a drogadicçom massiva da sociedade no consumo, seja este de drogas ilegais, psicofármacos, viagens, objetos, comida... como vimos num dos epígrafes anteriores. Outra é a emigraçom: melhor que a gente nova se vaia embora do país, nom vaia ser que pretendam muda-lo. O envelhecimento da populaçom -morre mais gente da que nasce na Galiza desde 1988- e a taxa mínima de natalidade (segundo dados de 2006 o nível de fertilidade das galegas é de 1,03 filhos por mulher) levam a um saldo demográfico negativo. E desde logo a imigraçom nom consegue inverter estes dados; a proporçom de estrangeiras censadas está por baixo do 3%. Se bem há umha importante parte de pessoas “sem papeis” as estatísticas sobre dados demográficos som desoladoras. 1857

1887

1900

1910

1920

1930

1940

1950

1960

Populaçom

1.776.879

1.894.558

1.980.515

2.063.589

2.124.244

2.230.281

2.495.860

2.604.200

2.602.962

Porcentagem

11,49%

10,79%

10,64%

10,32%

9,93%

9,42%

9,59%

9,26%

8,51%

1970

1981

1991

1996

2001

2005

2010

2011

2012

Populaçom

2.583.674

2.753.836

2.720.445

2.742.622

2.732.926

2.762.198

2.797.653

2.795.422

2.781.498

Porcentagem

7,61%

7,30%

6,90%

6,91%

6,65%

6,26%

5,95%

5,92%

5,88%

Em 1900 Galiza supunha o 11% da populaçom estatal, e o 90% era populaçom rural. Em 2000 a populaçom rural nom chega ao 34%. Hoje é o 6%. Desde 1988 há mais mortes que nascimentos. E estima-se que na primeira metade de século perderam-se um milhom de habitantes. Neste momento a Galiza tem algo menos de três milhons de habitantes em todo o seu território. Em 2013 os prognósticos do INE (Instituto de Estatística Espanhol) apontava que na década a seguir o território da CAG perderia 129.000 habitantes; em 2014 eleva o dado a umha perda de populaçom que chega a 147.651 galegas; umha cifra que equivale a toda a populaçom de Ourense e Vila Garcia juntas. Isto supóm que cada dia Galiza perderá 44 habitantes. A sangria mais intensa atacara nas comarcas orientais.

6- Situaçom repressiva e sociedade do controlo Os dirigentes democráticos conseguiram por meios técnicos o que os regimes totalitários por meios políticos ou policiais: a massificaçom polo isolamento total, a mobilidade incessante e o controlo absoluto. Miquel Amorós. A taxa de criminalidade do Estado espanhol, e dentro dele a Galiza, é das mais baixas de Europa. Porém em taxa de encarceramentos só o Reino Unido o supera, e é o primeiro Estado europeu em aplicar as doutrinas penais estadounidenses. Em 1983 havia no Estado

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espanhol 14.659 presos, multiplicando-se até os 64.000 de 2006, continuando a crescer até hoje. Também vence Espanha no ránking policial. Se a média da Uniom Europeia é de 340 policias por cada 100.000 habitantes, no Estado espanhol som 505, chegando a 690 no País Basco. Em estes momentos (Outono 2014) há cinco pessoas presas independentistas galegas (Maria, Edu, Antom, Carlos e Teto). No momento no que se fai público este documento mais um militante independentista, Raul, atopa-se caminho de Madrid sob a lei a anti-terrorista.Tendo que destacar que há outras cinco com processos abertos na Audiência Nacional, ligadas à procura dumha banda armada na Galiza. Também há dúzias de casos em julgados galegos derivados do ativismo ou da participaçom em greves e manifestaçons. Entretanto, os tribunais espanhóis, Audiência Nacional e Tribunal Supremo, tenhem afirmado a existência de umha banda armada operativa na Galiza que se dedica a utilizar a sabotagem como forma de luita. Isto, na linha repressiva que se vinha impondo em Euskal Herria, situa em umha total indefensom a todo o movimento e inclusive a todo o Pais, já que com esta carta na manga, o sistema penal consegue umha armadilha para resolver qualquer acusaçom repressiva, todo pode ser Resistência Galega, e deste jeito, a capacidade de castigo abrange qualquer tipo de dissidência. Desde a militante política contra a que nom atopa açons concretas puníveis (acusando de colaboraçom, pertença, apologia...) até umha vizinha que incendeie as infraestruturas de obras que invadam os seus terrenos. Em este momento, a baixa capacidade de intervençom e o relativo “relax” na combatividade faz com que nom se aguardem razias ou grandes golpes a curto prazo. Mas fundamentalmente, porque “nom lhes é preciso”; na medida em que sintam controlada qualquer faísca de rebeldia ou insubmissom, deixaram estar, entanto que nom lhe é um problema para o Estado. Se as cousas colhem força ou traça de mudanças profundas, entom terám que intervir de novo. E nom vam ter decoro ou vergonha ante a comunidade internacional, bem sabem a quem tenhem de aliados, os grandes gestores do capital a nível mundial estám na mesma linha.

I.Chivatos

A geraçom de independentistas à que pertencemos convivemos desde a infância militante com umha das taxas de desemprego e precariedade juvenis mais altas da Europa, e com um goteio incessante de ofertas de emprego e colaboraçom por parte dos serviços de segurança do Estado. Som poucas as companheiras que nom tenhem recebido suculentas propostas económicas, académicas ou laborais em troca de abandonar a sua militância, e/ou de colaborar coa repressom. Nom sabemos quantas militantes foram algumha vez comprados -nom duvidamos que existem- mas sabemos que em cada negativa (e constam-nos muitas) Espanha perde muito mais que um colaborador, e as galegas e os galegos ganhamos muito mais que um exemplo de dignidade e de coragem: ganhamos mais um espaço do nosso povo livre da lógica mercantil, isolado das auto-estradas do cálculo e a rendibilidade através das

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quais o poder veicula as suas ofertas de assimilaçom e de morte. Quem sabe a mistura de frustraçom e incomprensom que devem experimentar os mercaderes do CNI, da polícia ou de Instituiçons Penitenciárias ante cada negativa dum militante galego a aceitar algo que “objetivamente nos beneficia”. Os únicos caminhos transitáveis ante o colaboracionismo é a discreçom e o bom trato com todo o movimento, a precauçom e estudo de pessoas sospeitosas, mas sempre desde a apertura e atençom. Tendo a informaçom adequadamente compartimentada os riscos som mínimos, e é muito mais contraproducente excluir pessoas com boa intençom do que preventivamente excluir possíveis companheiras.

II. Contra cálculos de “rendibilidade”

Os apelos à “rendibilidade” lançados por amigos e inimigos, os chamados bem-intencionados e mal-intencionados a que as e os militantes independentistas apliquemos “a lógica”, abandonemos a desobediência e nos beneficiemos dos favores do Estado, nom Os apelos à fam mais que debilitar a Galiza que resiste. “rendibilidade” lançados por amigos e Dum e outro lado chegam-nos vozes dizendo que passar anos em prisom inimigos, os chamados por reconhecermos e defendermos dignamente a nossa condiçom de bem-intencionados e independentistas galegos nom compensa. E tenhem razom. Mas quem nos mal-intencionados a orgulhamos de identificar-nos coa nobre tradiçom de luita e afirmaçom do que as e os militantes povo galego, nom esquecemos que, ao contrário que a maioria dos prisioneiros independentistas de Auschwitz, a naçom galega continua viva e o nosso povo conserva a apliquemos “a lógica”, semente da dignidade graças a pequenos gestos que raras vezes “compensam”. abandonemos a Na Galiza de hoje, dificilmente “compensa” perder um posto de trabalho por desobediência e nos ser galego-falante e nom renegar do idioma, ou por participar numha dessas beneficiemos dos greves gerais com as que há tempo que “nom se consegue nada”: o “inteligente”, favores do Estado, para nom sofrer de forma desnecessária e inútil, seria dirigir-se ao patrom nom fam mais que em perfeito castelhano, declarando o arrependimento ante qualquer atividade debilitar a Galiza que sindical passada e o firme propósito de colaborar coa empresa no que esta resiste. estime necessário. Que dizer no caso de mulheres com filhos que manter e hipotecas que pagar: parece pouco rendível -alguns mesmo diriam “fanático”- arriscar-se a rematar no desemprego por nom tolerar as apalpadelas de um chefe baboso. Mas as independentistas galegas sempre fomos assim, algo “absurdas”, pouco “lógicas”. Começamos a militar esquivando as acusaçons de estarmos equivocados de época, e medramos de costas à “lógica política” do nosso tempo. As nossas análises valoram outras cousas, a dignidade, a lealdade, a razom, a inteireza, a convinçom de que venceremos nós, e a necessidade da luita como única forma de rabunhar algumha liberdade durante as nossas vidas graças a fugir da cumplicidade institucionalizada.

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CONTEXTO NACIONAL

7- A esquerda tradicional nom convence “A esquerda enfraqueceu e afogou-se em discursos. Resta-lhe ser espetadora secundária de novos fenómenos resistentes nos que nom influi em absoluto (...) A assunçom da incapacidade de incidência transformadora adoitou resolver-se na assimilaçom ativa dos paradigmas dominantes da política democrática: emprego da sua terminologia mais vulgar, adoçom das suas fórmulas organizativas e intervençom no mercado mediático e partidário, estrada no jogo do financiamento, emprego tópico dos direitos humanos e da ética universal como suportes abstratos da emancipaçom possível... Onde ainda resta um assomo de inquedança social, a velha esquerda agita os fôsseis nos seus rituais partidários para afirmar coletivamente que como existe um passado de dignidade e luita, o presente de descomposiçom e falta de ideais quase parece desculpável.(...) A democracia funciona como regime da passividade coletiva, delegaçom do “político” e desancionalizaçom” Canal Histórico. A abstençom eleitoral ronda o 40% de meia. O bipartidismo está evoluindo cara umha lavagem de cara com novos referentes “ampliando” o panorama, para mudar a imagem e todo siga igual (veja-se o ascenso de Podemos, UpyD ou esquerda unida). Mas a grandes traços o desprestígio dos partidos e da política entendida como sinónimo de partidocracia está amplamente estendido. As maioria das reivindicaçons de esquerda ficaram obsoletas e enraizadas no próprio problema; pede-se trabalho, pede-se manter o nível de consumo. Pretende-se sempre E dentro das posiçons políticas clássicas ruturistas, a esquerda soberanista mudar todo desde galega em geral e o sector mais clássico do independentismo revolucionário dentro. em concreto, nom acabam de concretizar o seu repto de chegar a ser um movimento”socialmente amplo”.7 As maioria das reivindicaçons de esquerda ficaram obsoletas e enraizadas no próprio problema; pede-se trabalho, pede-se manter o nível de consumo. Pretende-se sempre mudar todo desde dentro. Dentro das redes cibernéticas, dentro do sistema eleitoral, dentro das estruturas de poder... Galiza assentada em uns valores fundamentalmente capitalistas: círculos de consumo. E som poucos os sectores dispostos a sair desta dinâmica, antes preferem fazer propaganda sobre a possibilidade populista de poder democratizar este consumo (mesmo que seja impossível ou sustentado na exploraçom de outras populaçons em outras zonas do mundo).

7 Mas o descrédito e desgana da maior parte da sociedade por implicar-se em organizaçons políticas obriga a abrir novas possibilidades organizativas de cara canalizar o descontento e desenhar em chaves amplas e populares a Galiza que queremos. A consolidaçom dum espaço amplo e sólido de contrapoder é fundamental. Isto deve assentar-se em cobrir as necessidades básicas da comunidade -ensino, sanidade, lazer, defesa...-. Onde poder desenvolver os valores revolucionários que superem o regime atual, e a autoorganizaçom social precisa para isto.

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8- Quem é hoje o sujeito revolucionário? A posteriori, sujeito revolucionário faz referência àquele sujeito coletivo que protagonizou um movimento ou um processo revolucionário. A questom é se é possível identificar a priori, isto é, previamente a que as condiçons revolucionárias afetem e fagam tomar partido os diferentes sectores e classes dumha sociedade em crise, qual deles vai ser o desencadeante ou o motor da revoluçom futura. Se isto for possível, é lógico que as forças de quem quer a revoluçom se orientem prioritariamente para a conscientizaçom, organizaçom e movilizaçom deste sujeito social. O marxismo tem claro que este sujeito é identificável no proletariado. No lugar e no tempo em que Marx escreve a sua obra, a classe obreira nom é só o sector social sobre o que assenta o capitalismo (o que produze tanto a mais-valia que alimenta a burguesia quanto o conjunto de bens e serviços que fam rodar o mercado), como também o mais numeroso e o mais activo na luita contra a injustiça social que provoca a emergente sociedade industrial. A realidade, porém, é que nas revoluçons e nos movimentos revolucionários que inçárom o século XX, outras classes (especialmente o camponesado) ou outros sectores organizados da sociedade (indígenas, negros, mulheres, estudantes...) tenhem acompanhado e mesmo superado o proletariado na sua aposta por transformar radicalmente a realidade. A identificaçom do proletariado como “o sujeito revolucionário” é controvertida já nom do ponto de vista prático, mas também do teórico. O que fai o materialismo histórico é projetar cara o futuro as ensinanças do cámbio social que Marx viviu e estudou (a A pretensom de revoluçom burguesa, cujo icone principal, a execuçom de Luis XVI, aconteceu erigir o materialismo apenas 25 anos antes do nascimento do pensador alemám). Porém, o que a histórico em ciência burguesia fai coa instauraçom do capitalismo é tornar hegemónicas, através (capaz de predizer da tomada do poder político, umhas relaçons de produçom (e toda umha resultados) entendesuperestrutura ideológica e cultural) que já existiam, que se formaram durante se historicamente séculos de comércio, de produçom fabril manufatureira e de Ilustraçom, e num contexto de para cujo desenvolvimento o Antigo Regime era um lastre. Umha realidade entusiasmo ante os que outorgava à burguesia umha autonomia e um poder de facto que contrasta frutos que a razom coa dependência que o proletariado tem a respeito das relaçons de produçom humana e o seu capitalistas, em virtude das quais se define (ainda que seja como o polo método científico negativo das mesmas), e à margem das quais ainda nom tem sido capaz de colheitárom na construir umha alternativa que torne o capitalismo prescindível. revoluçom industrial, mas longe de ai Contodo, ainda é possível realizar umha emenda à totalidade que questione nom tem demasiado a possibilidade mesma de identificar a priori o tal sujeito revolucionário. A fundamento. fim de contas, por que havia de ser possível já nom só predizer a História, mas também as suas e os seus protagonistas? A pretensom de erigir o materialismo histórico em ciência (capaz de predizer resultados) entende-se historicamente num contexto de entusiasmo ante os frutos que a razom humana e o seu método científico colheitárom na

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revoluçom industrial, mas longe de ai nom tem demasiado fundamento. Paradoxalmente, o relato do marxismo mais profético sona pouco a ciência e bastante mais a religiom, com o seu paraíso, as suas escrituras sagradas, os seus santos, mártires e hereges e, por suposto, com o seu povo elegido, encargado de redimir à humanidade, na forma de “sujeito revolucionário”. Voluntariado e ONG como ramas do poder para canalizar a dissidência e evitar a rebeliom A sociedade do capitalismo serôdio assiste pachorrenta e sem tensom aos novos desafios que a sacodem; Os substitutivos das velhas luitas militantes diferem, ponto por ponto, dos tradicionais projetos emancipatórios: nom respondem a umha visom global e coerente do mundo, da história e da realidade que se combate, senom a desafeçons parciais ante alguns dos aspetos mais sangrantes que se padecem; nom se alimentam de umha filosofia do confronto, mas da cooperaçom e da colaboraçom institucional sustida sem ruborizes; nom assinalam opressores nem culpabilidades, senom que repartem responsabilidades em acusaçons difusas aos “problemas sociais”. Alguns estudos recentes apontam a profunda conexom de certas redes de voluntariado com umha mocidade abstencionista e anti-partidária, criada no hedonismo do consumo e no desconhecimento de experiências resistentes; som as mesmas análises que vincam no enfraquecimento dos movimentos de libertaçom nacional e social em favor desta crítica difusa, mesmo naquelas áreas onde as propostas combativas som mais sólidas e gozam de maior arraigo, a profundidade das mudanças sociais faz perder terreno à subversom para ceder-lho a estas formas associativas independentes ou para-estatais. Ou seja, um afastamento da “política” que conduz invariavelmente para o Estado: do enquadramento organizativo em movimentos, ao isolacionismo como receita; da filosofia do confronto, a umha cooperaçom flácida e sem fundamento com o poder; da formaçom para a acçom, aos “obradoiros” e talheres com fundos institucionais; de umha entrega vital, global e coerente, a umha dedicaçom de tempos livres entre outros lazeres variados.

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Situaçom específica da mocidade


SITUAÇOM ESPECÍFICA DA MOCIDADE

As condiçons da juventude som sempre umha volta de porca pior do que as “gerais”, entanto que gerais se associam a “homem branco produtivo”. Assim, as mulheres, as labregas, as desempregadas, as pretas, as trabalhadoras, as idosas... E também a mocidade pola condiçom de se-lo sofremos umha exploraçom engadida, o poder esmaga com mais força: as cifras de desemprego, de emigraçom, de precariedade agudizam-se em extremo na franga de idade por baixo dos 30 ou 35 anos. Temos também umhas características geracionais diferentes, a prática totalidade de nós somos nativas na sociedade líquida de consumo, na modernidade e na vida social tecnológica. Nom conhecemos tempos melhores. Aliás, o poder adulto, como forma de poder opressivo específico exerce-se sobre nós polo simples facto de termos menos anos. Assim, infantiliza-se-nos e tenta-se desacreditar a nossa opiniom ou agir. É em definitiva mais umha face do patriarcado. Chega-se à adolescência, como um momento de confronto, quando estamos situando-nos no nosso lugar na vida. Nom é casual ser precisamente entre a juventude onde se geram as principais acumulaçons de força dos processos revolucionários, onde se desenvolvem os mais altos graos de combatividade, generosidade e entrega. Também de audácia e engenho. O poder adulto -ou esta outra cara do machismo- consegue invisibilizar-se por causa de as pessoas que o sufrimos poucas vezes termos desenvolvidas ferramentas para reconhece-lo e defendermo-nos dele. De facto, umha das armas dos sistemas repressivos contra nós, é buscar “alianças” adultas com pessoas da nossa contorna, desde o paternalismo. Assim a polícia pode ir às nossas casas avisar às famílias de que nos “estamos metendo em política”, ou aos nossos centros de ensino e pedir informaçom ao professorado sobre nós. O poder adulto busca perpetuar relaçons de poder, nas que as mais novas estejamos ao serviço dos interesses das mais velhas. Assim garante-se que a nova força de trabalho seja mansa -educaçom na submisom-, integrando neste processo desde a família até instituiçons educativas e de controlo social. O poder adulto, como todo poder, é un processo em desenvolvimento supervisado polos aparatos de Estado e polos sistemas paraestatais e extraestatais. Com o que querem criar cidadás ao seu gosto e serviço: “cidadaos de bem”, “bons espanhois”, “trabalhadores qualificados”, e “prevençom da delinquência”, “prevençom sanitária”. Se por acaso as famílias nom exerceram a suficiente presom, o Estado já tem mecanismos para encarreirar as jovens dentro das necessidades estratégicas do capitalismo, mecanismos que, desde logo, variam dependendo da classe, sexo-género e nacionalidade (da propaganda até prisons de menores, de livros escolares a anúncios de televisom).

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SITUAÇOM ESPECÍFICA DA MOCIDADE

O poder adulto assume que o seu próprio bem-estar material e simbólico futuro depende em boa medida da rendibilidade global que extraia do trabalho dos seus filhos e filhas, de “coloca-los bem” num “bom trabalho” e num “bom matrimónio”. Já nas sociedades precapitalistas, agrárias, gandeiras e de produçom artesanal, preindustrial, o futuro do poder adulto garantia-se mediante muitos filhos e filhas que, com o seu trabalho, aportavam os recursos imprescindíveis. À margem das relaçons de afeto entre maes e pais e filhas, o capitalismo consegue gerir e justificar estas relaçons para instrumentaliza-la. Pais e maes projetam expectativas e esforços para que as suas crianças “triunfem”. Isto cria sensaçons de “fracasso” e sensaçom de derrota se as expectativas nom se cumprem, e de obriga e compromisso por parte das filhas, assumindo umhas metas que nom som as próprias.

O poder adulto assume que o seu próprio bem-estar material e simbólico futuro depende em boa medida da rendibilidade global que extraia do trabalho dos seus filhos e filhas, de “coloca-los bem” num “bom trabalho” e num “bom matrimónio”.

A forçada situaçom das famílias nucleares como espaço de tensom e “prisom” ligada à instituçom matrimonial fai ainda mais dura esta relaçom: violência machista, enganos, ciumes, dependência salarial... convertem o “doce fogar familiar” em algo mui diferente do mito, que nom fai mais do que endurecer o poder adulto; a violência e o controlo. E outras formas “familiares” possíveis (famílias desestruturadas para o sistema patriarcal) som constantemente foco de agressom e descrédito social. A “família seria” ainda que seja trabalhadora e nom apenas “boa família”, tem mais possibilidades de colocar bem as suas crianças do que as “más famílias”, diferença que pode garantir umha melhor qualidade de vida --dentro dos parâmetros burgueses-- aos país na sua velhice, para além da aceitaçom moral da correspondência com os valores dominantes. Um pai gosta de poder gabar-se das titulaçons, alto salário, prestígio de um cargo laboral, ou matrimónio e maternidade convencional das suas filhas, indepedentemente de estas serem felizes ou infelizes, exploradas ou oprimidas em este lugar. Para conseguir isto muitas famílias vigiam as amizades e movimentos pessoais das filhas, espiam, reprimem... Aceitar um lugar desobediente ou dissidente por parte das filhas implica muitas vezes nom poder conquistar essa projeçom que alarga a sombra de eles próprios nas suas crianças, fracassar nas suas expectativas e, inevitavelmente, contagiar-se do sofrimento que acarretam os golpes da repressom. Aqui, o inimigo consegue distorsionar e eludir a sua própria responsabilidade até o ponto de acusar a própria vítima de ser a culpável da sua situaçom: estás em prisom por teus atos (e nom por causa da opressom e conseguinte repressom) limitando as possibilidades sociais

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à passividade ante qualquer situaçom externa. Isto é apreendido polas famílias, que podem chegar a culpabilizar às filhas repressaliadas por terem tomado partido ou agido contra a opressom. “Se estiveras quieta”. Sempre falando desde o individualismo egoísta, “vas arruinar a tua vida por outros que nem concordam contigo e preferem viver ao seu”...como se a própria militância for um sacrifício para as demais, e nom umha forma de vida desejada e a única forma de salvaguardar uns mínimos de dignidade e de liberdade de facto. Isto, para além de na militância pode acontecer em outros aspetos vitais nom normativos: adequaçom estética aos roles dominantes, adequaçom de conduta afetivo-sexual à heteronorma... À submisom patriarcal das mulheres e homens ao seu rol feminino ou masculino... Umha estendida propaganda instiga e define as linhas educativas nas que devem ser inseridas as crianças: educando na chantagem, no medo, no tabu do prazer e desenvolvimento pessoal, na rapina e competitividade e na asunçom do controlo e poder sobre elas.

Umha estendida propaganda instiga e define as linhas educativas nas que devem ser inseridas as crianças: educando na chantagem, no medo, no tabu do prazer e desenvolvimento pessoal, na rapina e competitividade e na asunçom do controlo e poder sobre elas. O poder adulto dá continuidade ao sistema dominante. E as crianças quando saem do seu “ninho” familiar opressivo já mantenhem um continuum total com a dominaçom e controlo da empresa ou do Estado. Todo isto nom nega que existem famílias, maes e pais revolucionárias que assumam o projeto de criar pessoas livres, críticas e independentes; as quais fam parte das aliadas imprescindíveis para a luita. Todo isto, recuperando espaços sociais e famílias amplas -tribos- contra da família nuclear patriarcal do individualismo burguês.

E também muitas de estas maes e pais que na sua altura juvenil estiveram organizadas de maneira revolucionária agora nom querem partilhar essas experiências ou que as suas filhas as vivam por medo “aos perigos” que possam atopar; eis o caso das pessoas viradas cara o reformismo. A melhor forma de superar o poder adulto é a autooganizaçom juvenil. Que em muitos casos, umha vez fora do núcleo familiar continua no controlo e direçom da família política mais achegada aos seus postulados (partido, sindicato, organizaçom de referência...). Eis um grande repto, o de salvaguardar a autonomia juvenil, e também, ao mesmo tempo, manter referentes e vínculos geracionais de luta que ajudem na formaçom e desenvolvemento do projeto emancipatório.

Os principais frentes a ter em conta para luitar contra o poder adulto som: 1- Enfrentar a dependência económica da família. A capacidade de poder marchar da casa, viver em outro lugar, ou ter os próprios recursos para as

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cousas ou atividades que se querem desenvolver é umha necessidade prioritária para poder tomar as próprias decisons com autonomia. 2- Enfrentar a dependência afetiva e psicológica. Se nom se parte de umha autoestima sólida e de relacionamentos igualitários e saudáveis de interdependência, acontecem os medos e paralisia frente à necessidade de tomar decisons, em relaçons conflituosas, verticais e baseadas na chantagem emocional. 3- Conquistar espaços próprios. Um dos grandes frentes de luita do juvenil passa por ter espaços próprios, incluído o do lazer, fora dos dirigidos ambientes de consumo e alienaçom (sejam estes espetáculos musicais, associaçons reacionárias ou consumo massivo de drogas). Desenvolver e gerir a própria diversom, relacionamentos e lugares de aprendizagem conjunto é umha das formas de luitar mais efetivas, desde onde buscar cumplicidades e fazer trincheira. 4- Desenvolvimento teórico-prático: Fora dos espaços masculinizados e adultos onde se retroalimentam egos e incapacidades, cheios de fetiches e conservadurismos -mesmo na esquerda autoproclamada como mais ruturista ou radical- .Cumprem espaços de formaçom juvenil, horizontais, onde se desenvolva a audácia, o engenho, a valentia.

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Linha ideol贸gica


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FEMINISMO: Os óculos lilás do feminismo é a base transversal desde a que se le toda a nossa luita. Entendemos o feminismo como um ponto de partida que questiona os roles pre-estabelecidos na sociedade e as relaçons de poder, e entende a luita como um processo no que as pessoas temos que batalhar nom apenas com um inimigo externo mas também com todo o que do inimigo temos interiorizado. Processo pessoal e social, onde todo é política, criando portanto, formas de militar e de viver que fam parte da mudança; desde umha ótima feminista o fim e os meios diluem-se. O feminismo pom na ordem do dia a forma de vida, os sistemas de produçom e de reproduçom social, redimensionar o papel reprodutor social que sustêm as mulheres à margem do mercado, para perpetuaçom da produçom capitalista. Analisa a exploraçom do fundamental recurso de gestom dos afetos e dos cuidados feito polas mulheres para o mantemento do atual sistema; tanto os mercantilizados como os escravizados fora do mercado, impostos a ferro ou os aceitados de jeito acrítico graças ao asobalhamento secular de género (ou seja, impostos a ferro também). Como feministas pretendemos redesenhar o nosso imaginário, porque a Galiza livre é um povo de pessoas livres, no que nom exija quadriculas e carimbos nos que classificar e julgar as pessoas, nem por um rol de género, nem por umha orientaçom sexual, nem por um desempenho laboral, aspeto físico, ou diversidade funcional.

O patriarcado, o capitalismo e o Estado ao seu serviço dos dous primeiros tenhem construido um imaginário de dominaçom e hierarquias no que a única leitura possível é a do binómio de antagonistas: homem/mulher, vencedor/ perdedora, opressor/oprimida, razom/emoçom, heterossexual/homossexual, noite/dia... Como feministas pretendemos redesenhar o nosso imaginário, porque a Galiza livre é um povo de pessoas livres, no que nom exija quadriculas e carimbos nos que classificar e julgar as pessoas, nem por um rol de género, nem por umha orientaçom sexual, nem por um desempenho laboral, aspeto físico, ou diversidade funcional. A destruçom das hierarquias, desde o nível estrutural do Estado ao da família nuclear, a deconstruçom do sistema de valores judeocristiaos ligados à imposiçom da monogamia e da heteronormatividade e à repressom sexual e afetiva num sentido social e amplo é um dos campos de batalha que se tenhem que dimensionar como tais, e qualquer intento de minusvalorizar estes âmbitos de luita som apenas mostras de conivência com a opressom.

Valoramos a diversidade e riqueza de diferentes ramas do feminismo que complementam e fortalecem toda umha luita de libertaçom a nível mundial. Fazemos nossos postulados do feminismo da diferença, que enriquece a procura da igualdade com um questionamento mais fundo, onde o patróm a igualar (homem) deixa de ser referente, e os reptos se fam mais radicais e revolucionários.

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Em este sentido, dar a atençom prioritária que lhe corresponde a temas quotidianos de conciliaçom privada e pública, a aspetos emocionais e à linguagem como ferramenta de construçom de pensamento e portanto do imaginário revolucionário polo que luitamos, som temas de primeira ordem política. Valoramos também particularmente necessários os espaços de mulheres, para o empoderamento e a sororidade, desde onde desenvolver batalhas e ter trincheiras de cuidados em coletivo. Valoramos também como imprescindível o trabalho de autoconsciência e formaçom de homens para fazer-se responsáveis do seu lugar em este conflito, desde onde desbotar o rol masculino e participar da luita anti-patriarcal sem estar à espera de que as mulheres fagam todo o trabalho -como se isto nom afecta-se a eles-. Ainda, a perpectiva feminista nom é apenas -como se fosse pouco!- a reeducaçom na forma de estar no mundo, desde a horizontalidade e o convívio respeitoso e nom hierárquico entre pessoas e povos e dos povos com a natureza -nom sobre ela-. O feminismo é também um combate literal para se defender das agressons e do feminicídio que se prolonga por séculos em diferentes partes do mundo; também no nosso país. Queremos destruir o género masculino. Queremos construir umha sociedade livre, e queremos que os inimigos das mulheres andem com medo. Que nom saia grátis limitar-nos, nem violarnos, nem intimidar-nos, nem minusvalorizar-nos, nem desprezar-nos, nem mutilar-nos ou assassinar-nos.

Queremos construir umha sociedade livre, e queremos que os inimigos das mulheres andem com medo. Que nom saia grátis limitar-nos, nem violar-nos, nem intimidar-nos, nem minusvalorizar-nos, nem desprezar-nos, nem mutilar-nos ou assassinar-nos.

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Violência: “Os assassinos potenciais nom estám entre nós mas sobre nós, e apenas pola razom de que milhons de cordeiros lhes votam, divididos em social-cristiaos, liberais e social-democratas. Como empregam princípios democráticos como material propagandístico de jogo, nom tenhem nada em contra de que de vez em quando alguns berrem: ‘¡de isto nom gostamos nada!”. Polo contrário, isso é bom e ademais nom molesta para nada aos de cima. Mas o primeiro encarapuçado que guinde umha pedra é qualificado de criminal e vai aos calabouços.” Erich Kuby “Que fatalidade quando o ser humano de boa fe renúncia à violência porque acredita na nom-violência! ¡O único que consegue é ser superado em forma mais radical pola violência!” Karl Jaspers Foi a nom-violência de Ghandi apenas um ‘happening’? Muito temo que sim do ponto de vista da história do mundo. Ou por acaso podemos considerar de outra maneira a fotografia do Ghandi nu tecendo a mao, difundida milhons de vezes, mas do que como um ‘happening’ comparável ao dos pobres tecedores de Silesia que destruirom os teares? Ghandi nom puido deter a industrializaçom nem sequer tocar a miséria de castas da Índia. Nom, o que ele sostinha era ‘tal vez podemos de algumha maneira exercer resistência mália que nom obteremos o poder e com ele o poderio necessário para ‘obrar’. Quer dizer que o importante nom era para ele a nomviolência como tal (como único princípio permitido, ou como único método moral ou meta moral) senom a eventualidade muito fraca de que mália nom ter armas poder também exercer resistência. O fundamental, pois, em ele nom é a aceitaçom do ‘sem’ (sem armas) mas do ‘mália’ (mália nom ter armas)”. Gunter Anders Nem entendemos a violência como meta, nem entendemos que a violência revolucionária seja exercida com gosto. Mas partindo de entender o monopólio do poder como o monopólio da violência, e a nom-violência como nom-poder, as formas de combater a Rechaçamos, violência convertem-se em poder, no contra-poder popular que faz falta para daquela, como qualquer processo de luita. É o empoderamento que traz consigo alegria. É a ponto de partida, açom que nos aproxima à vitória. a esperança. Nom há tempo para a Rechaçamos, daquela, como ponto de partida, a esperança. Nom há tempo esperança. Esperança para a esperança. Esperança como pretexto para a nom açom, é umha forma como pretexto para de covardia. Citando a Gunter Anders: Que é em sim a esperança? É a fe em a nom açom, é umha que todo pode melhorar? Ou é a vontade de chegar a algo melhor? Ainda forma de covardia.

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ninguém realizou umha análise da esperança. Nem Bloch, sequer. Nom, a esperança há que impedi-la. Todo aquele que espera, deixa a obriga em outra instância. Esperança é nada mais que a renúncia à própria açom”. Entendemos aliás que os discursos que tentam levar a conotaçom de violência a algo abstrato, alheio e negativo por sim próprio está faltando à inteligência do ouvinte. Esta-se a comparar um exército profissional com canhons e bombas nucleares com olas express? Esta-se a comparar tanques com pedras? Evidentemente nom, nom se trata dum discurso sobre a violência, é umha questom de legitimidades. O Estado -e o patriarcado, e o capital- outorga-se legitimidade para exercer a violência. Entom trata-se de construir um discurso no qual umha violência esteja legitimada (heróis de Estado), enquanto a outra está condenada (terrorismo). Inclusive nom se trata tampouco de quantificar o sofrimento ou terror que pode ocasionar umha ou outra, porque se nos cingirmos a esta questom, há que especificar que é o sujeito aterrorizado. No caso do povo provavelmente o medo lho cause a violência estrutural (desemprego, prisom, polícia, pobreza, desafiuzamentos, fome...), enquanto que as pessoas mediaticamente acusadas de terrorismo apenas causam medo nos grandes proprietários e responsáveis do estado de cousas (danos à propriedade privada, ameaças ou danos às pessoas responsáveis de grandes danos à populaçom). O mundo nom está ameaçado por seres que querem matar mas por aqueles que mália conhecerem os riscos apenas pensam técnica, económica e comercialmente. Ante isso, todas as legislaçons do mundo -até o direito canónico- nom só permitem o emprego da violência em defesa própria senom que até o recomendam. Vimos que com dar-lhe flores à polícia, nem assinaturas nem marchas, nem músicas nem teatros se avança. Citando a G.Anders, a respeito deste tipo de protestas: “Nom som acçons sérias, apenas som “happenings”. Nom som açons, som aparências. Umha cousa é aparentar e outra é ser. Os que fizemos essas acçons acreditamos ter transpassado a fronteira da simples teoria, mas éramos apenas atores, no sentido teatral. Fazíamos teatro por medo a agir verdadeiramente. Teatro e nom-violência som parentes muito próximos”.

O mundo nom está ameaçado por seres que querem matar mas por aqueles que mália conhecerem os riscos apenas pensam técnica, económica e comercialmente. Ante isso, todas as legislaçons do mundo -até o direito canónico- nom só permitem o emprego da violência em defesa própria senom que até o recomendam

Nom temos claro que outros métodos tenham também a sua utilidade num processo de libertaçom, mas cumpre analisar bem para nom cair em lhe fazer o jogo ao inimigo. Segundo Jürgen Dahl “O intento de salvar o mundo por meio da reciclagem de resíduos tem no melhor dos casos um valor didático mas é justo a coartada que necessitam os que produzem lixo, para seguir produzindo-o. Os argumentos mais racionais nom som escuitados; as proposiçons mais convincentes som arquivadas, os pedidos mais veementes som rechaçados e entom, quando

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por fim se desborda a raiva da desesperaçom aparece a polícia e já só com a sua presença dá a conhecer que as formas de vida que o “poder escolheu polo povo’ e ordenou como corretas ao parecer só podem ser defendidas e impostas nom com argumentos mas com ajuda de paus, camions hidrantes e pistolas lanza-gases”. O mesmo poder que condena a prisom a jovens por queimarem um caixeiro, mas deixa livre de toda condena os responsáveis dumha catástrofe ecológica como o Prestige. Ante o argumento de que o inimigo é muito mais forte e melhor armado, com o qual levamos sempre as de perder: As experiências da guerra de guerrilhas, experimentada desde a Galiza durante décadas de franquismo, no Vietnam ou em Cuba demonstram todo o contrário, que umha organizaçom popular de autodefesa no seu próprio território, mesmo com umhas capacidades militares técnicas e numéricas extremamente inferiores tenhem altas possibilidades de debilitar o inimigo. Em qualquer caso esta nom é a situaçom atual da Galiza, mas a resposta violenta nom tem por objetivo necessariamente um combate aberto de forças, mas de luita simbólica: A nossa posiçom política é contrária à organizaçom opressora do Estado espanhol e da ordem económica mundial; é coerente e imprescindível, portanto, o desrespeito às leis que som contra nós.

A guerra já está aqui e nom fomos nós quem a provocamos, nas nossas maos está defendermo-nos ou deixarmo-nos zugar e zugar. Simbolicamente está a possibilidade de manter-se em pé com a cabeça alta ou baixar as calças e tapar os olhos. O enfrentamento é inevitável se se está contra do atual estado de cousas. A nossa posiçom política é contrária à organizaçom opressora do Estado espanhol e da ordem económica mundial; é coerente e imprescindível, portanto, o desrespeito às leis que som contra nós.

O incumprimento da lei é umha necessidade política, baseada na simples e básica desobediência. Resulta incoerente e mentiroso falar como “anti-sistema” fazendo parte e respeitando as regras do jogo que o mesmo marca. Sair da dinâmica de caminhar polos carreiros antepostos e nom colaborar implica romper em todos os níveis da vida essa relaçom de submisom às leis do sistema. Aliás, um dos primeiros passos precisos para denunciar a violência estrutural é visibilizála, visualizar o conflito e os seus culpáveis, para isto torna-se imprescindível respostar as agressons. E ainda, ter conta da importância de que quem agride nom sinto impunidade total para agir contra o povo. Retomando palavras de G. Anders: “considero iniludível que assustemos a todos aqueles que tenhem o poder e nos (um nos milhons de vezes) ameaçam. Nom fica outro caminho que respostar às suas ameaças com ameaças e fazer inefetivos a todos aqueles políticos que com toda irresponsabilidade e por interesses egoístas levam o mundo à morte.

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Oxalá que a ameaça em sim própria possa já assusta-los”. Enquanto para o inimigo supom umha limitaçom nas suas agressons e ofensivas, que podem já nom lhe sair “grátis”. A resposta popular violenta é também um reforço de otimismo e autoestima. Visualizar na rua que há força e vontade de pelejar. Por sinais sobre quem som os culpáveis, e demonstrar que ainda estamos vivas. Que conseguimos gerir o nosso medo, que estamos dispostas a arriscar as nossas vidas na miséria por defender algo melhor. “A alegria da luita armada”, é isso um eixo que todos os povos do mundo devem ter presente para a sua própria defesa, só assim se conseguiram liberar os oprimidos ao longo da história. De facto, as negociaçons e as soluçons dos conflitos sectoriais ou específicos som umha maneira de “tranquilizar” o ambiente, um passo atrás no caminho cara a rutura radical e global. Mesmo que no seu lugar e momento específico suponham umha vitória. Mas está claro que os ritmos podem ser muito diferentes, é importante acumular tensom e nom resignaçom. Os numerosos suicídios ligados aos desafiuzamentos som um bom exemplo de como as mortes se executam já sem que o poder tenha que manchar as maos. Cumpre por tanto, com urgência, sair deste circulo fechado, e devolver algum golpe. Nom porque vaiamos estar ao nível militar do inimigo, nom porque lhe vaiamos ocasionar grandes perdas económicas, mas como umha forma de “dessacralizar” a lei, ultrapassar as linhas que ponhem “nom passar”. Demonstrar que nom som intocáveis. Que a propriedade privada som apenas cousas, e nom lhe doem os golpes, nem o seu incêndio provoca a dor de ver ardendo montes. A canha é também A canha é também umha forma de propaganda, de demonstrar que se podem umha forma de ultrapassar os limites. Que a legalidade e suas linhas imaginárias som um propaganda, de invento da burguesia e os poderosos contra nós para protegerem-se eles e as demonstrar que se suas cousas. Nom há igualdade militar para por em “jaque” ao inimigo, mas podem ultrapassar apenas polo em questom é um bom resultado. E a força do poder sempre foi os limites. Que a audazmente contra-atacada com audácia revolucionária. legalidade e suas linhas imaginárias Nom é que os danos consigam que se vaiam à primeira, mas consegue- som um invento se perder o medo e deslegitimar as normas que protegem a propriedade da burguesia e os privada, e dificultar-lhe a sua intromisom. Por exemplo, se um local do PP é poderosos contra nós sistematicamente sabotado, provavelmente lhes vaia custar mais esforço e mais para protegerem-se caro conseguir um aluguer para o seu local. eles e as suas cousas. Tam importante como a açom é a estratégia para a açom e a tática. O emprego da violência nom implica agir de maneira descontrolada. Centrar os objetivos nos conflitos que estejam sendo evidentes, visualizar a açom-reaçom, ou as respostas às agressons é interessante. Mas o

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ataque está ai sempre, também pode ser útil visibilizar agressons silenciosas e constantes, como som a maioria, fora da agenda mediática. A opressom nom é umha situaçom conjuntural de crise. Nom é que se justifique a resposta por vivermos umha crise ou por um conflito laboral concreto, a resposta justifica-se desde o momento em que o ponto de partida é um sistema criminal e genocida. Mesmo nos seus anos de “bonança”. E qualquer açom deve executar-se, sempre, desde umhas sólidas medidas de segurança que minimizem riscos. Ante o argumento de que a violência revolucionária o único que consegue é reforçar a violência do Estado: Cumpre desacreditar a “nom-violência” e o pacifismo como formas reacionárias de conivência como o poder. Nom-violentos que nom fazem nada enquanto Estados assassinos massacram comunidades ou pessoas. Non-violentos que fecham os olhos ante o machismo institucionalizado ou as mortes baixo custódia. Nom-violentos que nom trabalham para a aboliçom dos exércitos profissionais e da polícia armada. Entenderia-se como umha acçom de “nom-violência”, por exemplo, queimar armamento ou veículos militares ou sabotar estruturas do Estado ou grandes empresas do capital, mas nom vemos que a vanguarda do pacifismo faga mais do que condenar os movimentos populares defendendo-se. Ligase portanto “nomviolência” apenas a “nom-poder”.

Entenderia-se como umha acçom de “nom-violência”, por exemplo, queimar armamento ou veículos militares ou sabotar estruturas do Estado ou grandes empresas do capital, mas nom vemos que a vanguarda do pacifismo faga mais do que condenar os movimentos populares defendendo-se. Liga-se portanto “nom-violência” apenas a “nom-poder”. É a mesma atitude covarde da presa que nom protestar ante o carcereiro por medo a que lhe deam umha malheira, e que se protesta outra presa a repreende, por medo a que o carcereiro tome represálias contra todas. Nega-se assim o legítimo direito à autodefesa (a situaçom de partida é umha prisom), e atua-se de maneira submissa e cúmplice com quem oprime. A parte esmagada num conflito nom é responsável de que o agressor ataque, mesmo como reaçom a umha ofensiva popular. Seria como justificar que um homem bate na mulher porque esta é rebelde e nom se guía. Finalmente este tipo de “argumentário” som apenas um apelo à submisom. Mas partimos da máxima de que a liberdade nom é regalada, é conquistada, sabemos que nom nos vam dar nada e vamos ter que colhe-la nós.

Também, ligado a esta posiçom, defendemos a necessidade estratégica de umha escola juvenil que forme também na visibilizaçom e asunçom do conflito, como colchom para quem queira participar deste enfrentamento e de legitimaçom e apoio de quem queira desenvolver umha autodefesa.

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DEFESA DA TERRA E CONTRUÇOM NACIONAL: Entendemos Terra dum ponto de vista amplo, nom apenas como território, mas também como comunidade; e comunidade como conjunto de indivíduos ligados por umha cultura. Portanto, terra é, para além da parte do mundo na que na vivemos e pola qual vivemos, também parte de nós próprias. A nossa identidade. E em sentido amplo, um sinónimo de naçom.8 É este um eixo fundamental e imprescindível da nossa luita centrar-nos em defender esta identidade e o território -de maneira específica- no que nos assentamos como parte dela. Entendemos inclusive a Terra como sujeito -maedotado de direito. Isto muda o paradigma, ao igual que com outros animais ou com pessoas a lógica é diferente se se entende como sujeito digno de direito ou como simples fonte de recursos. Sabemos que nom somos recursos, somos nós -indivíduos e coletivos, territórios e natureza-. Assim, assumimos o ecologismo radicalmente, como umha forma de autodefesa, nom apenas como umha via

Assim, assumimos o ecologismo radicalmente, como umha forma de autodefesa, nom apenas como umha via ambientalistas do capitalismo verde.

8 Em geometria, a identidade dum ponto vem determinada pola sua relaçom aos eixos que definem o espaço: assim, podemos identificar um ponto no espaço bidimensional como (3x,2y), e no tridimensional como (4x, 2y, -1z). Podemos imaginar a identidade das pessoas como umha funçom parecida, só que infinitamente mais complexa: a nossa identidade nom vem definida apenas pola nossa relaçom com duas ou três variáveis, mas com um conjunto enorme e aberto delas. A forma de relacionar-nos com as outras pessoas, com as cousas, com a terra, com os alimentos; a forma de vestir-nos, de falar, de pensar, de trabalhar; como nascemos, como morremos, como dormimos, como nos divertimos, como e com quem fazemos o amor... som só alguns dos eixos em base aos quais se define a nossa identidade. Como os humanos somos seres sociais, muitas destas formas de relacionar-nos coa realidade aprendemo-las no nosso entorno social, e compartimo-las com ele. Alguns destes elementos identitários que adquirimos socialmente (a nossa língua, a forma de relacionar-nos coletivamente co tempo e com o território, a percepçom da nossa própria história...) constituem o que se denomina “identidade nacional”. Em traços gerais, a identidade nacional poderia ser aquele componente da identidade que é produto da forma em que um povo se adaptou colectivamente, ao longo da história, a viver no seu território e nas suas circunstâncias. Seria, portanto, o valor igual ou semelhante que a identidade de um conjunto de indivíduos adquiriu a respeito de determinadas variáveis (território, língua, alimentaçom, trabalho, relaçons sociais...). O problema radica em que nom hai o mínimo consenso em definir exatamente quais destas variáveis, quais destes rasgos identitários, constituem a “nacionalidade”. Mariano Rajoi é “galego”? E um marroquino que leva dez anos a viver na Corunha? Os critérios para definir quais som os elementos constituintes da identidade nacional som objeto de um debate inacabável, e isto é assi porque, desde as revoluçons burguesas, a identidade nacional adquiriu um valor político fundamental. Se no tempo das monarquias hereditárias o critério para outorgar ou reconhecer a soberania era a pertença a determinada dinastia (Felipe III podia reclamar a soberania da Galiza por pertencer aos Habsburgo), no tempo da soberania popular o critério de soberania será a identidade nacional (o povo galego poderá reclamar a soberania da Galiza se demonstra ser umha naçom). No valor político deste conceito radica a complexidade e a divergência que historicamente vem ligada à sua definiçom. Contodo, se além da perspetiva política a identidade nacional tem umha perspetiva antropológica (a caracterizaçom dum grupo social assentado num território), podemos afirmar que hai umha série de rasgos que inequivocamente lhe som próprios. Deste ponto de vista, as formas que os indivíduos tenhem de se relacionar com os outros indivíduos (incluindo aqui valores, língua, relaçons e estruturas sociais), com o tempo (incluindo aqui desde as festas que se celebram até a conceçom que se tem da própria história) e com o território (o que inclui desde as formas de habitaçom até a própria economia, passando pola alimentaçom), som elementos claros e principais da identidade nacional. A homogeneizaçom antropológica à que o capitalismo submete os povos, e concretamente o processo de desapariçom da identidade nacional galega, pode-se comprovar no facto de que estas variáveis, que hai apenas umhas décadas adoptariam valores tam dispares para um moço viguês e um madrilenho, hoje adotam valores mui semelhantes em qualquer centro urbano, seja este galego, espanhol ou estadounidense.

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ambientalistas do capitalismo verde. A exploraçom indiscriminada da natureza converte-se em umha agressom, e a sua defesa em umha necessidade. Para o capitalismo exercer o seu espólio indiscriminado, precisa de um desvínculo das pessoas entre sim, e também com o território e animais que fazem parte dele. Reconstruir um espaço sólido e forte é a melhor trincheira para luitar contra a imposiçom do capital, desde outro paradigma -outro imaginário- portanto, desde outro mundo; o nosso. Para o mundo se chamar Galiza hoje é imprescindível que haja galegas dispostas a defende-la (defender-se) da guerra contra nós que estám desenvolvendo os grandes gestores do lucro e a usura. A “construçom nacional”, como a outra cara da moeda da defesa da terra, persegue defender, afortalar e reconstruir o sentir de”naçom”, para além das questons de justiça social que podemos compartir com a nossa classe a nível internacional. Reivindicar a categoria de indígenas, denunciar como globalizantes e capitalistas identidades líquidas e “genéricas”, desligadas de um território e comunidade. Em este sentido trataria-se de reconstruir e recuperar formas de vida tradicionais que consideremos justas, ou reconstruir outras que tenham limitaçons ou até lacras (a tradiçom nom é apenas positiva por si própria). É buscar a olhada própria desde a que na Galiza queremos viver, e resolver o total das nossas necessidades coletivas, da educaçom à sanidade. Dos transportes à alimentaçom. Da arte à filosofia. A Queremos ampliar a cultura em sentido amplo, como forma de sobrevivência conjunta e conceçom de sujeito desenvolvimento humano num sentido moral. Trata-se de desconstruir ao plural, ligado a moderna divisom de sujeito-objeto e deixar de identificar-se na à contorna social visom objetiva sendo sujeitos; parar de reivindicar o neutro como lugar e física. E a umha comum, patróm de todo. O neutro é o menos comum, representado forma de vida sólida, no home branco proprietário ocidental e canibal, destrutor do mundo. estável e forte frente Queremos ampliar a conceçom de sujeito ao plural, ligado à contorna a sociedade líquida. social e física. E a9 umha forma de vida sólida, estável e forte frente a sociedade líquida.

9 Sociedade líquida: Para o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade líquida é o produto dum estadio avançado da modernidade, no que a estabilidade e a permanência deixam de ter sentido, e o fluxo devém na forma hegemónica de todo. À semelhança do que acontece no mundo físico, onde os corpos sólidos se caracterizam por terem ligaçons fortes entre as suas moléculas, o mundo das nossas nais e avoas defendia a estabilidade (nas relaçons sociais, laborais, sentimentais...) frente ao cámbio. Nas antípodas daquela concepçom da vida, a sociedade de mercado extendeu a valoraçom do novo e do rápido a todas as fecetas da vida, produzindo umha sociedade na que as fidelidades pessoais, culturais, territoriais.. som estorbos, e na que se premia a capacidade para desfazer rapidamente as ligaçons velhas e substitui-las com facilidade por outras novas (a semelhança como se comportam as moléculas nos líquidos). O cámbio de trabalho, de residência, de aspecto, de parelha, de amizades...que noutros tempos era visto e sentido como um drama, hoje é percebido e desejado como umha marca de ser “umha pessoa deste tempo”. Umha sociedade assi é plenamente funcional ao mercado, porque só ele e as suas leis som capaces de satisfazer a necessidade de mudança e novidade contínuas que conleva o desejo de nom ficar desfassado.

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Comunismo e decrescimento: “Os temas de Anders giram constantemente entorno ao problema de como a técnica ganha cada vez mais poder violência sobre o ser humano. Explica-no-lo nas suas três teses fundamentais, que som: que o homem nom está à altura da perfeiçom dos seus produtos; que produz mais do que pode imaginar e do que pode se responsabiliza, e que acha que todo o que é capaz de produzir pode faze-lo e nom apenas isso, mas que deve faze-lo”. Manfred Bissinger, biógrafo e interprete de Günther Anders Analisamos o capitalismo desde as ferramentas do marxismo. Interpretamos a história dumha ótica dialética e de luita de classes na que a maioria social é explorada por umha minoria exploradora. Entendemos que o neoliberalismo é umha volta de porca desta situaçom e que os avanços do capital nas últimas décadas ultrapassaram o aspeto económico analisado no marxismo. Muitas outras aportaçons -fundamentalmente de género e culturais- enriquecem esta análise, já que nom som exclusivas do capital as formas de poder e dominaçom. Mas a este nível defendemos que o único modelo justo é no que os bens sejam comuns; que os meios de produçom estejam em maos da conjunto da populaçom. Que se limite a propriedade privada para evitar qualquer possibilidade de processos acumulativos e especulativos. E que o sentido do trabalho e dos avanços tecnológicos esteja Nom queremos sempre supeditados a consensos sociais sobre a necessidade e idoneidade dos reproduzir um mesmos. Nom queremos reproduzir um sistema produtivista e desumanizado, sistema produtivista por muito que os “recursos” estivessem igualitariamente repartidos. Para isto a e desumanizado, lógica tem que ser outra, apoderar-se dos meios de produçom, mas nom para por muito que os seguir produzindo igual e acriticamente. Acreditamos na máxima marxista da “recursos” estivessem necessidade de aboliçom do trabalho assalariado, e na capacidade de realizaçom igualitariamente do ser humano livre, através da praxe, longe de relaçons de exploraçom. Aliás, repartidos. Para isto qualquer sistema económico baseado no trabalho assalariado e na propriedade a lógica tem que ser privada requer um aparelho coercitivo para pór em prática o “direito” à outra, apoderarpropriedade. se dos meios de produçom, mas Sobre a forma de desenvolver a luita socialista de libertaçom nom consideramos nom para seguir imprescindível hoje a forma clássica de ditadura do proletariado como única produzindo igual e forma de chegar ao comunismo. Achamos que formas de contra-poder e acriticamente. autonomia popular podem dar também resultado emancipatório. Nom acreditamos em que seja imprescindível organizar-se num marco estatal convencional de estrutura centralista e gerido por umha vanguarda revolucionária organizada num partido comunista clássico. As comunidades humanas organizarom-se durante séculos em outras fórmulas diferentes ao Estado moderno, criando para a conquista e a dominaçom; modelos conselhistas ou outras fórmulas podem achegar-se mais a outra lógica menos vertical, a mancomuniade galega tradicional é um bom exemplo.

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No que respeita ao decrescimento, é a única forma possível que entendemos a nível de produçom de resíduos e destruçom da Terra. Qualquer sistema económico hoje nom pode basear-se na produçom e crescimento ilimitado, primeiro de mais, por umha questom de Qualquer sistema limites naturais. Mas para nós também por umha questom ética e de bem10 económico hoje estar. Rechaçamos, por tanto, o progresso. E queremos fugir dumha lógica nom pode basear- produtivista, seja esta comum ou privada, que está a representar um genocídio se na produçom e em câmara lenta e a destruçom do planeta.

crescimento ilimitado, primeiro de mais, por umha questom de limites naturais.

10 Progressar é desenvolver-se, avançar. É caminhar cara um fim, polo que, se esse fim for positivo, progressar é melhorar. O pensamento progressista é hegemónico na nossa sociedade: a maioria das pessoas, forem de direitas ou de esquerdas, concebe a história da humanidade como o relato de um continuo aperfeiçoamento material e moral, desde o “homem das cavernas” até o moderno cidadao europeu. Volver atrás é sinónimo de perder, enquanto o futuro é sempre a promessa para a soluçom de todos os males que ainda padecemos, forem estes da natureza que forem. O progresso é um mito, um ideologema que, de nom estar tam profundamente enraizado nas nossa cultura e nas suas tradiçons políticas, poderiamos comprovar que contradize tanto a lógica como a nossa experiência do passo do tempo. Sabemos bem que os cámbios que este produz (nas nossas vidas, na das nossas famílias, na das nossas aldeias...) nem estám orientados cara um fim claro, nem som sempre em sentido positivo; por que, para o conjunto da humanidade, ia reger umha lei distinta? Ainda, a categorizaçom de um sentido como “positivo” ou “negativo” depende de umha escala de valores que sempre é relativa às circunstâncias sociais, culturais e ideológicas de quem a utiliza, polo que dificilmente o “progresso da humanidade” pode ser algo assim como umha lei objetiva da história. A chegada dos europeus à América supujo para estes a chave da Modernidade, enquanto para os povos indígenas era o começo dum verdadeiro holocausto. Mas é que mesmo desde os valores compartidos polo pensamento de esquerda europeu, é praticamente impossível descrever o desenvolvimento da história em termos de progresso, e ao próprio tempo ser fieis aos dados que nos aporta o estudo da realidade. É incontestável que nunca, como agora, a humanidade estivo tam perto de tornar inabitável o planeta em que habita, como também o é que nunca houvo tantas pessoas a morrer diariamente de fame, por referir-nos apenas aos exemplos mais drásticos do ponto ao que chegou a nossa espécie após 200.000 anos de evoluçom. Em termos sociais, nunca as desigualdades forom tam drásticas e nunca os abusos tam infames, possivelmente porque nunca o Poder foi tam poderoso e ubíquo. Em definitivo, nom hai muitas razons para descartar que, se pudesse, o ser humano médio de 2013 (que, obviamente, nom é a galega nem a europeia médias) cambiaria de bom gosto as suas condiçons de vida polas do ser humano médio do ano 0.

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Anexo I


COMUNICADO DE DISOLUÇOM DA AMI Este comunicado foi feito público o 30 de Setembro de 2014 através da página web da AMI e por mail a diferentes meios de comunicaçom, antes da publicaçom de este dossier: Depois de algo mais de vinte anos de trabalho nas ruas sob o nome de Assembleia da Mocidade Independentista, na XI Assembleia Nacional da organizaçom decidimos que a história das nossas siglas chegava até aqui. Entendemos as organizaçons -a nossa e qualquer umha- como ferramentas ao serviço de umha luita, e a sua adequaçom para esta é a sua razom de ser. Após um profundo processo de reflexom e debate interno, cosideramos que hoje a ferramenta que temos nom se adequa às condiçons e necessidades actuais. AMI acaba o seu ciclo, tendo servido de escola para várias geraçons de militantes. Foi umha parte fundamental do movimento de libertaçom nacional, que ligou a luita dos anos oitenta com novas geraçons até hoje. Contribuímos à luita como melhor soubemos faze-lo; construíndo alternativas, enfrentando a opressom e resistindo dignamente a repressom. O contexto de hoje pouco tem a ver com o de finais dos noventa ou mesmo com o primeiro lustro de 2000; e a referencialidade de AMI também se resitua num panorama no que várias organizaçons independentistas concorrem por um lugar relativamente similar nos seus posicionamentos. A análise polo miúdo da qual parte esta decisom será publicada num dossier mais amplo, no que se tratará o contexto nacional e se desenvolve umha tese ideológica. Fizemos umha importante autocrítica; a debilidade organizativa em este momento é acusada; a nossa organizaçom exige um alto nível de compromisso, conleva repressom quotidiana (pressom policial, intentos de inflitraçom, multas e processos judiciais, companheiras em prisom, potencial ilegalizaçom...) e implica mudanças vitais no dia a dia que representam todo um repto para a mocidade que se decide a assumi-las. Assumir os riscos inerentes à luita, e ter recursos para enfrentar a repressom é umha alta exigência. Isto mingua o número de pessoas dispostas a organizar-se num contexto como o nosso, mas nom soubemos readaptar os objetivos nem táticos nem estratégicos, o qual provoca umha maior dificuldade e frustraçom na consecuçom dumha metas pensadas para umha estrutura política, combativa, pública e a nível nacional. E assim converte-se numha pescadilha que se morde a cola. Marcamos uns objectivos, nom se cumprem, desmotivamo-nos. Estamos desmotivadas, nom cumprimos os objetivos... Esta debilidade nom atrae a gente nova, e a que se achega satura-se rapidamente com muita carrega de trabalho e pouca celebraçom de metas satisfatórias.

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Ademais, a dia de hoje outras tres ou quatro organizaçons juvenis identificam-se sob a proclama “independência e socialismo”, acarrejam menos custos repressivos, e vem-se amparadas por organizaçons adultas de referências que que as apoiam. A Assembleia nom está já a desenvolver um papel fundamental no MLNG, entendida no modelo clássico em que foi formulada. Mas, seguimos a considerar a autoorganizaçom da mocidade um primeiro passo imprescindível para a revoluçom, queremos investigar mais fórmulas, diferentes modelos. Consideramos que o atual estava a ser nos últimos tempos umha ferramenta com esclerose, que nos atava a um agir continuísta e cuja responsabilidade de “manter a linha, o discurso ou o método” nos limitava demasiado. Precisamos organizaçom e ferramentas para resolver a necessidade inadiável de defendermosnos das agressons, do espólio e do deserto. Expulsar a Espanha do nosso país. Queimar o dinheiro. Dispor de comida, teito e afectos. Para todas todo. Som estas as necessidades, o significado da reclamaçom de justiça. Autodefesa frente os maus tratos em hospitais ou comissarias, em manifestaçons ou na família, nas escolas, em nós mesmas, também. Poder viver dignamente quer dizer criar um outro imaginário. Nom se trata apenas de mudar as relaçons de produçom; também de reproduçom e significaçom social. Pór em valor umha forma de vida e de relacionamento com o contorno bem diferente ao actual. Saír do espetáculo que nos invade -do que a maioria de nós já somos nativas- e reconstruír a naçom. Se coletivamente isto nom se pom como ponto primeiro da ordem do dia, e se concreta em soluçons tangíveis que poidamos construír nós desde já, resulta inútil berrar consignas que se percebem abstratas para boa parte da nossa geraçom. Pintadas e cartazes a reclamarem o nom desmantelamento do refugalho paternalista do Estado que pretendemos combater, ensino digno, pedir trabalho em vez de planear a sua aboliçom? Temos que construirmos nós, desde já, espaços liberados. Fazer política fora das assembleias. A super-estrutura destrói-se desde aqui. Faltou-nos reconhecer antes ante nós próprias e ante as demais a virada ideológica que vimos desenvolvendo, mais marcadamente nos últimos dous anos: aproximaçom ao feminismo real e radical (levar a luita também aos espaços militantes, às casas e aos corpos), questionamento da figura do Estado -seja este qual for-, e crítica intransigente ao progresso como modelo desarrolhista e insustentável. A falta de afirmaçom pública nestes novos plantejamentos ocasionou que fossemos acarretando com consignas que diluíam umha aposta decidida por modelos de intervençom política diferentes. Ao mesmo tempo os escassos referentes e apoio nesta linha -de construçom e combate- e o peso das expectativas -próprias e alheias- no desenvolvimento dum trabalho convencional pola nossa parte nom facilitarom o trabalho. Cada nova geraçom de jovens que entrava na AMI herdava o que a anterior tinha deixado, e o que se espera de ela.

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O nosso trabalho pretende sair da lógica política da representaçom e concorrência, entendemos que isso nom serve para contruir umha organizaçom revolucionária, e muito menos para um país livre. É difícil fugir do espetáculo, mas a militáncia nom é apenas um lugar onde aguentar por ter a consciência tranquila. Nom estamos nisto apenas por acha-lo eticamente correto, mas porque queremos vencer. E para isso nom abonda com estar, mas com avançar. O acomodamento pode acontecer facilmente, rotina, repetiçom, e talvez algumha falta de humildade, para repensar perguntas que achamos respostadas. Atomizou-se a identidade de classe. Varrem-se as trincheiras. Nom podemos obviar as mudanças de contexto se queremos intervir. Temos caído no ativismo, e no círculo vicioso do autoconsumo, muito frequente na esquerda. Num contexto de perpétuo presente, entendemos ativismo como a repetiçom da atividade, fazer algo acontecer, independentemente de que isto condicione a situaçom para a sua superaçom. Dedicamos enormes esforços a celebrar efemérides, respostar agressons em base à agenda mediática do inimigo e realizar propaganda do modo que nos aprenderom que isto se fazia. Mantendo-nos aí, no jogo, sem que a acumulaçom de forças mude e sem melhorar as nossas próprias condiçons vitais. Enquanto a pobreça e a destruçom avançam como apisonadoras de cemento esmagando o mundo. Enquanto o capital caníval viola tanto o que se move como o que fica quieto. Enquanto o patriarcado apodrece a carne da gente. O que pretendemos mudar som as condiçons de vida, os valores, o idioma-mundo. A nossa geraçom nom conhece um convénio laboral nem um Estado de Dereito. De que falam quando falam de Dereito ao trabalho? Dereito à vida? Dereito de autodeterminaçom? Santainquisición. Santaconstitución. Santohipermercado. Santatecnologia. Estamos ante um panorama que exige análise permanente, audácia e acçom, e pensamos que manter-se insistindo em dinámicas fossilizadas nom nos achega à vitória. Nom queremos nem podemos acomodar-nos, mas otimizar as forças, golpear no lugar certo, construir o imprescindível, manter viva a tribo. Com esta decisom nom estamos a renunciar aos nossos horizontes; apenas pretendemos aperfeiçoar as armas. Que questionemos o modelo organizativo no que nos vinhamos enquadrando nom significa que agora tenhamos nenhuma soluçom mágica nem resposta exata, mas nom queremos perpetuar a lógica da convençom se nom está a dar os frutos que precisamos. Achamos mais interessante dedicar esforços a ir vendo novas possibilidades de criar fendas e ir rachando o que nom vale. O que queremos deixar claro é que isto nom é um abandono, mas um novo chimpo cara adiante, um nom apegar-se às siglas e saber soltar lastre quando a ferramenta já deu todo o que puido dar de sim. Que foi muito. Centos as moças que passamos por esta organizaçom, e o construido botou raízes, e o pelejado curtiu os medos, para seguir até a vitória.

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Este novo ciclo nom é apenas final, mas princípio. É umha reformulaçom necessária para trabalhar de maneira efetiva. Foi precisamente o trabalho, a reflexom profunda a respeito da situaçom atual e a análise estratégica de contexto o que nos leva a tomar esta decisom. Temos claro que precisamos a independência. Temos claro quem som os nossos inimigos. E que esta guerra imposta é dolorosa, mas pelejaremos com alegria, por ser a única maneira de seguir vivas. Se nom se dança, nom é revoluçom. Ir pouco a pouco cuspindo a intoxicaçom patriarcal. Construir fora do capital. Reconstruir-nos indígenas, lumpem-proletárias, incontroláveis. Somos bruxas. E podemos ser piores. Vemos-nos nas ruas, denantes mortas que escravas!

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Textos da XI Assembleia Nacional da AMI  

Analise do contexto nacional e tese ideológica da AMI

Textos da XI Assembleia Nacional da AMI  

Analise do contexto nacional e tese ideológica da AMI

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